Rouen, 05.10. 1975. Domingo.
O que fiz pouco interessa, mas no domingo tornou-me interessante o trajeto pelas pequenas cidades em dia calmo do interior.
Elas muito se parecem desde a manhã à noite; sentado à frente e dirigindo sem propósito, de certo modo havia repetição de cenas ocorridas. À medida que subia, visando à Mancha, lembrava-me a ação dos aliados para Paris a fim de tomá-lá dos nazistas. De quando em vez via o Senna a caminho para o Havre.
Em geral descia nas aldeias, havia resíduos de dialetos desaparecidos ou, talvez, ocultos nos subconscientes dos campônios ou da pessoa desconfiada com o estranho. Não entendia a razão por que tão perto de Paris sobrevivia aquele atraso nos costumes.
Dirigia-me ao homem comum com o maior respeito, evitando suspeita de mal intencionado ou até má criatura. Ao girar pelo centro do povoado ou mesmo já percorridos os arredores da cidade, lembrava-me dos velhos filmes da esola francesa nos finais dos anos trinta, antes da guerra, quando Raimu nos advertia das questões ligadas a episódios do campo, o que, no passado, Maupassant claramente deixara transparecer em seus contos.
Viviane Romance era então símbolo, porém falsamente mudo. O passo adiante que superou os filmes da velha escola, sem qualquer dúvida, chegava com Marcel Carné em nosso assombro com o neo-realismo.
Tempo de passado saudoso, quando com Rollemberg e Paulo Silveira catávamos filmes franceses nos “poeiras” da Praça Tiradentes. O primeiro, depois de seu retorno ao Nordeste, desapareceu, enquanto que Paulo resmungava ao ver Jean Gabin e Vivianne apenas se descartando daquele que a explorava.
No pósguerra sempre nos encontrávamos no Lamas do Largo do Machado. Ele, secretário de redação da Última Hora, apaixonara-se pela música erudita, apesar de não perder as óperas trazidas pela troupe italiana. Lógica que a preferíamos. E o baixo, Ferrucio Tagliavinni foi, em companhia de Elizabeth Barbato, certa noite, jantar conosco no Restaurante da Glória. Roberto Lyra os encontrara à procura de sua crônica musical na Revista da Semana
Ela, Barbato, tornava-se mais formosa após dois cálices de gim sem gelo.
E quais eram os nossos amigos da política estudantil. Paulo Silveira foi eleito Presidente da UNE, deixando-me em seu lugar como Presidente do Centro Acadêmico Luís Carpenter. Tudo isso após a queda de Vargas em 29 de Outubro por razão de tentativa malograda de afastar os dois candidatos militares que iam defrontar-se nas eleições.
No pós-guerra nova geração apareceu, foi surgindo no Café Vermelinho, onde, pelas cinco da tarde, começava a funcionar. O Partidão saíra da ilegalidade, o ditador escondeu-se em sua província, duas forças defrontavam-se: a União Democrática Nacional e o Partido Social Democrático. Candidatos, o Brigadeiro Eduardo Gomes e o General Dutra, ambos antigos tenentes, cada qual em sua esfera ideológica; o primeiro, ídolo da burguesia urbana, o segundo, instrumento da conciliação brasileira.
A mudança do ritmo deveu-se ao abandono do Amarelinho, que era do tempo da Ditadura de Filinto Müller, agente do nazismo. Lá se misturavam esquerdistas e liberais, incluidos todos aqueles que se mantinham em cima do muro. Era espécie de suruba literária
Assim morreu a nossa época acadêmica, enganosa em suas esperanças ideológicas, corroída, depois, pela repugnância à política, o que nos tornou também oportunistas. Jorge de Lima, Lúcio Cardoso, Camilo Soares e Clovis Gusmão. Depois, chegaram os garotos e formaram a patota do Nordeste, em geral bons poetas como Ledo Ivo e semiloucos quase geniais como Antonio Fraga.
Anotei à noite minhas observações durante o trajeto até Rouen. Para mineiro do interior, onde vivi a adolescência, me parecem, em seu conjunto, confusas.
Desde 1941, minha geração revelava perplexidade. Salvou-nos o cinema francês com Lés Enfants du Paradis e Lés Visiteus du Soir em forma suave de reencontro com a arte do cinema. Um grupo de mestres em direção trazia ao nosso grupo a paixão por bons filmes. Nouveaux venus, diziam os franceses a Marcel Carné, Jean Cocteau, Renoir, Lherbier, Jacques Becker, um cenarista genial, Viot, o brasileiro Cavalcanti, que já vinha dos anos vinte.
Se recuarmos dez anos, um havia que não era fácil encontrá-lo: David Griffith. Porém, achamos o melhor dos seus trabalhos: Le Lys brisé.
Por que não avaliamos ainda a influência do cinema em nossa formação, só realçando o impacto de Joyce, Aldous Huxley e Catarina Mansfield na literatura inglesa?