Modernidade x Tradição

Paris, 03.10.75, Sexta-Feira.

Rodei e rodei  pela Rivoli e concluí por dirigir-me ao  Louvre. Só, deixei os recados na Gerência do Hotel. Tudo programado, mas ainda dependo de informações telefônicas do Rio e a tranquila presença de Hannibal em minhas refeições.

Muito tenho aprendido com as amigas de D.Niomar cá residentes. Senhoras da geração do decênio de trinta, quando em minha terra acompanhava os acontecimentos que precederam a Segunda Guerra Mundial.

O mais importante, a guerra civil espanhola entre os comunistas e os partidários do liberalismo. Dois símbolos vinham à frente do morticínio: o espírito tradicionalista secular dos ibéricos, sob o comando do General Franco e os adeptos de Dolores Ibarruri que em Moscou se encontrava, dobrando-se diante de Molotov, aliado a Hitler no preparo da guerra.

Dificil entender a história nesse período, só depois decifrável pelas secretas informações de Manuilsky a Franco respeitante aos locais onde se escondiam os comunistas.

As mulheres de trinta, algumas dos trinta, equiparadas a menores, soltaram o seu grito, reivindicando o direito de voto e personalidade civil. No palco, exibem-se na literatura, nas artes e nos casamentos.

Da Bahia veio a jovem Niomar, escrevendo em revista seus primeiros artigos, trazendo o conhecimento de Proust para as jovens que só liam Delly e tocavam piano.

Paulo Bittencourt, dono do “Correio da Manhã”, por ela se apaixonava.

No “Jornal do Brasila Condessa, filha de Pereira Carneiro, era o comando do matutino.

Quando o Movimento de 1930  veio do Sul e Getúlio Vargas assumiu o Governo suposto Provisório, sua filha Alzirinha, concluindo o ginnásio, dominou o pai e mais tarde, acadêmica de Direito, atraiu para sua liderança os maiores professores de então: Leônidas de Resende, Hermes Lima, Castro Rebelo, Maurício de Medeiros etc.

Eram  também jornalistas e políticos de Esquerda, defrontando-se com os membros do Clube do Cajú, onde se destacavam Santiago Dantas, Schmitt, Nascimento Silva e os Galottis.

Getúlio, ditador que sempre procurava disfarçar-se de liberal, deitado sobre o muro do Executivo, e seu irmão Bejamim,  figura mais poderosa da família, que encontrara a mais bela das mulheres de então, tomou-a do marido, e eis Edyala, em sua tranquilidade, dominando o cenário feminino.

Sim, pois havia outras notáveis. Adalgisa Nery, ex-exposa de Ismael Nery, a mais notável figura da pintura da Semana da Arte Moderna em São Paulo, escritora, poetisa e eminência parda dos revolucionários de trinta, incluindo os tenentes de 22 e 24, trocou seu artista por Lourival Fontes, simpático orientador do futuro Estado Novo de 1937.

Além de culta, senhora de inteligência rara, pontificava e incendiava o coração dos políticos.

Havia ainda Cecília Meireles, poetisa, que assumira com Cassiano Ricardo a ala moderada dos escritores. Nada de radicalismo, como suspirava a Mario de Andrade a fim de que ele domasse seu amigo Osvaldo.

Em outra ala, antes pragmática do que intelectual, estava Aimée, que apenas dirigia a cadeia jornalística de Assis Chateaubriand e alucinava o Ditador.

O esquadrão era poderoso, nele se incluindo sem alarde outras intelectuais como Dinah Silveira de Queiroz, romancista e acadêmica, esposa, em segundo matrimônio, de Dario de Castro Alves, Henriqueta Lisboa, e outras Pelo começo dos anos quarenta, O Supremo Tribunal Federal, então formado por juristas, gerava em seu serviço taquigráfico a mineira Leda Boechat, que ia tornar-se famosa historiadora.

Contemos ainda Bidú Saião no Teatro Municipal em sua fase áurea, sucedida por Gabriela Besansoni, ambas sopranos sinternacionais.

No “front” da Esquerda, a mais preparada intelectualmente era Maria Werneck, presa em 1935 com Olga Prestes, porém mais conhecida se tornou a novelista Raquel de Queiroz, precursora do romance do Nordeste.

Na segunda metade dos quarenta, a ruptura ocorreu naturalmente no âmbito feminino por motivo da influência de Simone de Beauvoir, companheira de Sartre em experiência de promiscuidade.

No café Vermelhinho e Associação Brasileira de Imprensa formou-se grupo novo, sem liderança, uma vez que quase toda a geração anterior mudara-se para Paris. Edyala casara-se com diplomata colombiano, tornando-se Santo Domingo, Niomar, Bittencourt, ambas em Trocadero constituiram o grupo da Praça Vendôme, bem próxima da Opera e do Café de la Paix.

Destacavam-se, entre meia centena, as escritoras Zora Seljean, Zélia Gattai, esposas respectivas de Antonio Olinto e Jorge Amado, Heloisa Ramos, também casada com Graciliano Ramos, Maria Barata,

Outras engajavam-e na linha tradicionalista de Luis Carlos Prestes. O Partido Comunista não aceitava a liberdade exibida pelos novos tempos ao expor-se abertamente na Segunda Guerra..

Do decênio de cinquenta aos dias atuais, a população cresceu desmedidamente. O domínio alcançado pela mulher firma-se no seu esforço de ocupar os postos de mando, o que se vai facilitando com a nova legislação de igualdade redigida pelo advogado e deputado Nelson Carneiro.

É isso aí e volto ao Hotel para mudar de trajo e jantar com as brasileiras de Paris.

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Published in: on novembro 28, 2009 at 2:33 pm  Deixe um comentário  

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