Despedida do Belo.

Sintra,19.6.75. 5ªfeira.

Levanto-me cedo e tomo o café da manhã antes de subir até o Castelo dos Mouros.

Vestígios do passado que apenas se percebem por exercícios imaginários, uma vez que desde o Século XII o caminho percorrido era simples picadão, provavelmente disfarçado. Das referências clássicas, extraídas dos esforços de D. Afonso Henriques, pouca certeza obtemos de como os combates se travaram, mas o curioso acha-se nos cuidados com as defesas das encostas, ali ainda vivas e sólidas. A serra está diante de nossos olhos, circunstância que nos leva a suposições logísticas do ataque final português.

As lápides romanas com letreiros levam-nos a pensar em termos de estupor em face da audácia manifestada por centuriões.

Teria Poncio Pilatos por cá passado, vindo das Gálias? Byron, é certo, trouxe aqui Shelley a fim de ver a beleza da vista. E nele falando, disse-me o gerente do albergue, onde dormi, que várias vezes ali se hopedara o poeta inglês. Não sei, pois aqui há dezenas de lendas e meias-verdades sobre viajantes famosos do passado ao presente.

Vasculhei o que pude para entender o Castelo, sem visitas, sem turistas, sem vigilância alguma.

A minha volta suscitou diversas suposições que se esvaíram. O que ocorrerá com a passagem do tempo? Aqui hei de voltar.

Jantar marcado em Cascais com Ângelo. O encontro no Cassino as 9:30 e retorno ao meu cômodo, outra vez indo à Praça para o almoço, só, observando que o ônibus de Lisboa trazia turistas para a visita ao Palácio Real.

Cheguei a Cascais no final da tarde e no saguão encontrei o amigo com a esposa, elegante e tranqüila. Quem diria?, pensei. Este cavalheiro, despido de vaidade, foi o bastonário da Ordem dos Advogado que unificou grupos militares em divergências. Com alguns coronéis conhecidos, recolhi a descrição daquela eminência parda, como se fosse o retrato tirado por Erich Voegelin e Aldous Huxley em seus conceitos. Sim, porque estamos a par do que significa o líder articulador em países subdesenvolvidos, bem como os seus modelos romanos na era de ditadores e tiranos.

Assistimos ao show, após a refeição, Elsa Coimbra cantando fados e outro espetáculo de Kaye Sisters. No Cassino, poucos portuguêses, o que realçava o preconceito da Esquerda lisboeta a esse tipo de entretenimento.

Ângelo de Almeida revelou-me pormenores que lhe dificultaram a missão pacificadora no período anterior à derrubada de Marcelo Caetano, bem como aspectos da atuação de Mário Soares quando de sua postura inicial.

Levou-me, depois a Lisboa, deixando-me no hotel. Na condição de motorista, Ângelo não era a habilidade de convencer os parceiros. Alguns sustos no percurso, afinal superados quando subi o elevador do Tivoli.

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Published in: on outubro 24, 2009 at 2:50 pm  Deixe um comentário  
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