Estilo em ritmo de mudança

                                                           Lisboa, 16.6.75. 2ª feira

 Chiado e Rossio, almoço com Michael no Tivoli. Escritório de Ângelo à tarde e jantamos no Carmo. São vinte e três horas, tudo vazio, descemos pela Garrett.

Falei-lhe sobre o meu Portugal-Ano-Zero, considerando que muita matéria escapara, mas, respondia ele, gostara da síntese e da exposição sem parcialidade quanto havia de real. Entrou a expor-me sobre o que vinha, notícias do Porto, mobilização de adversários para o que der e vier, em caso de implantação de sistema radical. Peguntou-me sobre o que achavam os correspondentes por saber que Michael, onde andava, era sempre o mais respeitado.

O que dizem é óbvio. Álvaro Cunhal é um bolchevista, quer dizer, está com a maioria. O Partidão português é como o francês, alinha-se sem discussão com Moscou. e os soviéticos já mandaram o recado: “obtenham boa votação, não criem caso com o socialismo, nem procurem influir em sua prudência”.

O problema está em que o leninismo sempre citava Engels quanto à condição dos socais-democratas: trata-se de companheiros ruborizados, isto é, não assumem por medo da burguesia conservadora.

Enfim, na Esquerda em geral, os adeptos também sabem manteer-se em cima do muro. Mario Soares é professor nesse assunto. Usa a simpatia conhecida, dividindo-se entre os partidários de Bernstein e Lenine. Ele vai repetir a dose de marxismo mitigado, fugindo dos subterfúgios de Adriano Palma Carlos e do próprio Presidente Antonio de Spínola.

As tendências multiplicaram-se, em verdade, por motivo de número expressivo de facções, pois as linhas justas e injustas abundam.

Porém as mudanças nos modos de viver, de comportar-se nascem, dia a dia, permitindo-nos senti-las nas raparigas, como se exprimem os portugueses, tanto Camilo Castelo Branco quanto o próprio Eça. Muitas e muitas usam maquilar-se para o trabalho, com rouge e batom, corte bem mais curto nos cabelos, sem contar a presença de moças nas passeatas. Abraçadas ou salientes, exibindo-se sem as maneiras dos tempos duros.

Da mesma forma, o formalismo sofre com os modos masculinos de comportamento social, uma vez aberto, fugindo-se ao tratamento anterior de excelência. Sente-se mesmo que a extroversão adquire o tom surdo do passado, ocorrendo nas lojas melhor diálogo com o cliente, ou seja, maior leveza em pedidos de esclarecimento.

Michael comenta, como britânico, essas sutilezas da vida, produzidas por mudanças políticas e sociais. Nós, brasileiros, temos ainda o tratamento cordial. Sentimos que apesar de algumas reclamações quanto ao nosso modo de confundi-los com a pressa de viajante ou turista, eles também se divertem com o nosso coloquial.

Sinto-me bem em Lisboa, tanto quanto em Roma e Nápoles. Não é para menos, pelo lado paterno e materno, sou de raízes latinas nos últimos quinhentos anos. Diz a Genética moderna que isso é apenas um dia em dezenas de milhares de anos. Felizmente, afinal, somos ainda neolíticos.

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Published in: on outubro 3, 2009 at 3:02 pm  Deixe um comentário  

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