O começo do emaranhado

Lisboa, 15.06.75, Domingo.

Cheguei ao Tivoli Hotel , às 14h30, bem disposto, ainda que saudoso de Paris, e após alojar-me, encontro Michael Fields no bar, em conversa com Beatriz Costa.

Ela, como sempre simpática, em sua vida tranqüila e saudosa do Brasil, assustada com os acontecimentos em Portugal.

Despedimo-nos e juntos descemos a Avenida da Liberdade em direção ao Rossio. Michael com entrevista agendada; eu segui até a Ordem dos Advogados no Largo São Domingos.

Domingo, pelo começo da tarde, Ângelo me aguardava, o porteiro abriu as portas e conduziu-me à Biblioteca. A Ordem, que tanto se empenhara para a Revolução, observava o andar do processo político.

A proclamação trazia o selo da tradição lusitana: nosso Movimento é português: nasceu cá, dos nossos problemas. Declaravam em Manifesto as Forças Armadas que estavam desiludidos com as guerras coloniais, certos de que, pela força, nunca venceriam os guerrilheiros de Angola e Moçambique, bem como de outras pequenas províncias ultramarinas.

O grupo rebelde, fechado e disposto, contava com aproximadamente 15% dos oficiais ativos das três armas. Conderando o efetivo armado, podemos avaliar em pouco mais de trezentos os membros de agrupamento revolucionário, em sua maioria capitães e majores. Em cada arma constituiu-se o Conselho que elege seus representantes junto à Comissão Coordenadora, composta de sete membros, sendo três do Exército, dois da Marinha e dois da Aeronáutica.

Tratava-se da missão do Programa, não se sobrepondo ao poder político, mas à submissão ao poder legítimo, oriundo do voto popular, não excluída a defesa dos princípios, cujo objetivo parece ser o aperfeiçoamento do levante de abril.

O M.F.A, nascido sem liderança, não se encontra comprometido a qualquer movimento político. Estamos em uma causa, queremos a democracia.

Mas, dizia-me Ângelo, sem dúvida a voz serena do bom senso português, a Esquerda parece estar engajada no pensamento que inspira o sentido democrático. Mas, como crer na Esquerda afeita à ética da finalidade. Os fins justificam os meios, eis o que ela proclama na trilha dr Torquemada. O que provavelmente a colocará no círculo de crise insustentável, pois havia no quadro os radicais da linha chinesa.

Ângelo me explicava que a conjuntura era de perplexidade dos liberais. Lisboa via saírem do País centenas de perseguidos pela espécie de Poder Paralelo formado por Esquerdistas radicais. Nada podia fazer a Ordem dos Advogados e nada estruturado ainda nascera.

Voltei ao Hotel para rápido descanso e à noite para jantar. Michael me levou ao Pub dos Correspondentes de Imprensa. Lá também chegou, a meu convite, o anti-salazarista que Antônio Paim conhecera em Moscou, desencantado já então com o sistema estalinista, porém sem outra alternativa, uma vez que, se retornasse a Portugal salazarista, a polícia o prenderia.

Dessa vez, entrara em cena o surrealismo. O grupo que se pusera à margem da Polícia Política soviética, mais chegado, pois, à Internacional Comunista que atuava como corpo secreto, deu-lhe a missão e o passaporte a fim de que avisasse o Partido Comunista Português, ora já atuante, de que não radicalizassem as posições para que não se criasse situação desconfortável com os países de sistema democrático.

Ele voltara a seu País e levara a Álvaro Cunhal, secretário do P.C.P. o aviso tático por motivo da posição geográfica portuguesa, circunstância que consistia em provocação aos EE.UU.

A respeito de ser tema inconveniente, com todo o jeito de provocação, o antigo membro da facção vermelha, foragido por mais de trinta anos na União Soviética, nada comentou conosco a respeito. Com jornalista é assim: todo o cuidado é necessário, comprometem até a própria mãe.

Toda essa história, se voltarmos ao final do decênio de cinqüenta, é um emaranhado só inteligível após a leitura do Retrato, de Osvaldo Peralva, livro que ficará à posteridade para que nossos descendentes possam perceber o sinistro papel do extinto comunismo soviético. No livro, de dificílimo encontro, é posto como personagem o sinistro Sivólobov, figura desprezível que dava ordens aos dirigentes comunistas brasileiros. Nunca viera ao Brasil, não lia nem falava o português, e dissertava, sem nada saber, sobre o problema agrário brasileiro, comparando-o ao chinês.

Suas cartas ao Secretariado de Diógenes Arruda eram exibidas, fechadas em envelope comum, como escritas por Stáline. A história é lamentável.

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