Sintra: Rápida Visita

Sintra, 18.6.1975.4ª feira.

Sigo para o meu destino em cada dia, quase bate o carro por imprudência de meu motorista, mas apenas susto a que já estou habituado.

Há tempos penso em Sintra e quem não jamais a esquece. Sinto-a em Camões e em Eça, fases iguais de minha puberdade. Por dessas coincidências da vida, com a paisagem, primeiramente, graças ao testemunho do épico em seus Lusíadas: no terceiro canto, permita que lembre de meu pai nos anos trinta.

Sintra, onde as Naiades escondidas:

Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
Onde Amor as enreda brandamente,
Nas águas acendendo fogo ardente.

Algum tempo depois, nela convivi com personagens de Os Maias, ao deixar Eça que seu maldoso sarcasmo caisse sobre o Alencar do Alenquer. Prevalece em meu espírito a estrofe do épico sobre o romancista por pormenor do contraste fria-Sintra e fogo-ardente, a primeira imagem, que minha memória identifica.

A quarenta quilômetros de Lisboa, levamos meia hora de trajeto, descendo eu em sua praça diante do Paço Real, onde, após a bica, retornei, fixado nos filhos de D. João 1º, cujos cômodos nos confundem pela simplicidade da época. Do mesmo modo, ora, pois, dos aposentos de D. Sebastião à ante-sala onde Camões o fez ouvir seus versos.

Pela segunda vez subo todos os degraus do interior. Hoje, porém, minha vontade volta-se ao percurso de Byron, do centro pelo caminho que nos levará a Cascais em floresta cortada por estrada estreita com paleolíticos, romanos e árabes ocultando suas moradas entre os arvoredos.

Não sei se real já na versão haja ainda amendoeiras milenares, mas bela é a subida até o Castelo árabe que a fiz desde o parque diante dos Palácios dos Seteais até o cume das ruínas.

Escurecia quando voltei e tomando a ida para Lisboa, onde cheguei reclamando o banho para o jantar com Michael e seus companheiros correspondentes.

O Conselho da Revolução ora cogita de averiguar a violência sobre presos políticos durante o sistema socialista e Ângelo de Almeida Ribeiro estava a par de todas as intenções dos militares e advogados que julgavam necessária a apuração.

Tudo certo, em princípio, porém, após o Movimento de Abril se confirmavam outros abusos dos vitoriosos.

Ângelo também conosco naquele jantar revelou-nos que a Ordem dos Advogados estava atenta àquelas situações. Ainda há poucos dias um cidadão em Ponta Delgada, Açores, queixava-se à Comissão que fora preso, de modo arbitrário e sob ameaça, sofrendo em sua cela tratamento desumano e degradante.

Recente, há duas semanas, o Relatório apresentava o quadro de trinta indivíduos a visarem a independência de Açores, tentativa ao arrepio da legitimidade de Portugal quanto à Ilha, descoberta pelo Infante D. Henrique, o Navegador, filho primogênito de D. João 1º.

A inconfidência repercutira na Ilha Terceira, segundo as diligências. Mas a questão, bem elucidada, encontrou métodos de tortura durante a apuração e tal fato repugnara à Ordem dos Advogados.

São fatos naturais após ações revolucionárias vitoriosas. No Brasil, o mesmo ocorrera em 1930 quando os tenentes e o Partido Republicano Mineiro derrubaram o Governo constituído e alegando fraude eleitoral, perseguiram os vencidos, sem, no entanto, levá-los à tortura.

Assim ocorre com o princípio hegeliano de que o real é racional, levando o estado de direito novo sobrepor-se ao direito anterior, tornar-se legítimo por razões expostas com brilho pelo positivismo jurídico italiano.

Tenho dito, expressou-se o Mestre Nelson Hungria, no julgamento do writ impetrado pela União Democrática Brasileira contra ato das Forças Armadas diante de planejado golpe de estado em preparo pela oposição derrotada de Carlos de Lacerda et caterva.

Aos jovens que nada viram e menos leram a respeito, apenas o conselho de avaliar o que representa o Direito Público em face da realidade das coisas. Tenho dito.

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Published in: on outubro 17, 2009 at 3:35 pm  Deixe um comentário  

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