Etapa Encerrada

Londres, 8.l0.75, Quarta-Feira.

Girando por Londres de carro em busca de algumas encomendas, retornei do Museu Britânico. Há tanta coisa a comentar, não fosse a diversidade do que vemos sem anotações que facilitassem a compreensão paralela ao arrepio da cronologia. Pormenores que por certo nos acompanharão pelo futuro, freqüentando túneis e cavernas. Talvez alguns, como variáveis impertinentes, estarão conosco até o último sono.

A Grã-Bretanha soube, furtando ao longo de sua história, criar algumas personagens que serão eternas. Como lembrança dos faraós, havemos de debater outros hieroglifos com figuras do porte de Rainha Izabel, Henrique VIII e ainda Churchill em nosso trânsito pelo Novecentos.

Não me é difícil relembrar, em menino, e fitar os olhos naquele aperto de mão que Chamberlain e Adolfo Hitler exibiram à minha puberdade. O guarda-chuva do britânico tornou-se símbolo da ingenuidade de que todos nós, contemporâneos, nutrimos como esperança até 31 de agosto de 1939.

No ano seguinte, prestando serviço militar em minha cidade natal, aprendi a montar e desmontar meu fusil Mauser e via pela vez primeira, no antigo clube Carangola, a ser apenas exibida, metralhadora reluzente que nos proporcionava a Região Militar sediada em Juiz de Fora.

Não podia supor que participaria do conflito mundial.Mas sobre a minha mesa de estudo, o mapa da França fixava a tática nazista de aguardar a oportunidade em repetir a blitz de 19l4. A França corrompida de então se sentara na Linha Maginot a fim de conter as tropas que viriam necessariamente dos Países Baixos e ponto final.

A Segunda Guerra copiou o projeto da Primeira, nele introduzindo o ataque pela retaguarda francesa, sem a possibilidade de outra vez perder-se no Marne.

Nada podíamos prever e quase certos de que Vargas seria capaz de aguardar a hora de romper com a neutralidade, acomodamo-nos até que o nosso Sargento preparou o esquema da participação.

No sítio vizinho ao vilarejo de Alvorada, rompemos pela madrugada para o ataque, sem aviso à população. Atirando naturalmente com polvora, assustamo-nos quando os moradores, supondo que se tratasse de algum bando, revidaram à bala com suas espingardas ainda imperiais. Do comando de esquadrão a ordem veio em termos erradamente dúbios: que rastejássemos colina abaixo com a bandeira branca. Assim o fizemos e, dessa forma, nosso começo foi de derrota e não de retirada como devia.

Cobertos de lama, retornamos à sobretarde e jamais contamos aos amigos o malogro, ficando a experiência cômica em nossos fastos existenciais.

Quando fui convocado em 1943 decidiu o Exército mandar-me à Aeronáutica graças a relativo dominio de inglês. Lá se deu a minha formação técnica sob o comando do Coronel Eng. Joelmir Araripe Macedo, vindo de relações tenentistas.Para mim importante era o também engenheiro civil Fernando Rebello Pessoa que cuidou da nova tecnologia do Fairchild. Nessa parte o segui atento desde a minha permanência na área do Galeão, nela subentendida a prática da oficina e montagem.

Cheguei ao Direito pelo fato de ser possível matricular-me no único curso noturno existente, uma vez que na Politécnica os cursos eram diurnos. Excetuada a teoria, a prática também foi para o ar. No imprevisível da vida, passei da experiência do jornalismo para o magistério. Toda essa história me fez percorrer as matérias sociais com admiráveis professores na Faculdade do Catete. Leônidas de Resende, Economia, Homero Pires, Teoria do Estado, Oscar Tenório, Direito Internacional Público.           

Anúncios
Published in: on maio 1, 2010 at 3:45 pm  Deixe um comentário