Os Degraus das Missões

Atlântico, 1-10, 1975, 4ª feira.

Às 22h30 embarquei e nos mandamos para o outro lado do mundo. Viagem suave, diria agradável, lendo e refletindo. Talvez tenha deixado o meu escritório em ordem, pois no caminhar para dezembro as coisas se acomodam no Brasil em espetáculo de dolce far niente.

Hannibal me telefonara há dez dias, convidando-me para o Encontro em Madrid, pedindo-me a presença. Esclarecia que do Ensino não fugisse por motivo de afazeres. O melhor argumento consistia em oportunidade de ouvir a propósito a sábia palavra de Hermínia. Meu trabalho prometido há algum tempo dizia respeito a Mircea Eliade ou, se fosse melhor, ofertasse alguma reflexão sobre a natureza do homem. Enfim,  fixava-se ela no Pagoyum, como é conhecido o terceiro livro que trata do Ente Naturali.

A vivência da Metapsicologia em minha vida até então consistira em retirar, sem avisar meu pai, livros para leitura, em sua Biblioteca. Vigilante quanto à minha formação, advertiu-me certa feita de que havia relação razoável entre a fase juvenil e os assuntos a serem perquiridos.

Queria dizer que era cedo a fim de que pudesse entender autores como Carlos Richet, Soudre, mesmo Lombroso, em temas como aqueles que me entrigaram, relativos à Josefina Paladino.

Creio mesmo que meu interesse se deu quando o menino Jurandy, em Alvorada, distrito de Carangola, acordou certa manhã sem entender palavra alguma em português, falando correntemente em francês.

A família Ferreira levou naturalmente a criança aos médicos que nada disseram sobre o fato, recomendando que o trouxessem ao Rio de Janeiro.

Aqui os doutores o examinaram e ficaram surpresos diante da pronúncia correta do idioma. Nada a fazer.

Argumento que hoje compreendo em razão da complexidade do fenômeno e por fim, ao ignorarem o episódio de G. Paladino, só resolvido, segundo a única versão, por hipnose.

Eu não confiava nessa disciplina porque, por experiência, sabia da comunicação telepática entre o ator e o paciente. Meu amigo Karl Weissmann, em livro sobre a matéria, acatava o mesmo ponto de vista de que a sugerência era como misteriosa ordem que vinha inserida no modo de abordagem à relação inicial.

Não havia exceção entre os ingleses, talvez mau exemplo, mas nos lembremos do que ocorrera com Maurice Maeterlinck, e no Brasil com o escritor e poeta Bittencourt Sampaio, que só trouxe resultados no acatamento religioso ao espiritismo.

Mas o tema não seria, a respeito e sim acerca de Mircea e síntese de seus trabalhos.

Bem, concluía, prometera à Sra Niomar Sodré ir até Paris para expor o andamento da quebra de seu matutino Correio da Manhã

Às cinco horas, em Paris, batia à Gerência do Madeleine Palace, e fui às chamadas locais após saber as notícias de casa. Em verdade, tínhamos chegado ao Orly um quarto depois das l5 horas. A escala em Lisboa havia atrasado a viagem sem qualquer explicação.

Jantamos no Bar des Theatres com minhas duas clientes expondo-lhes eu o andamento das causas. A exigência da jornalista sempre era o ponto de partida para a estratégia do bom êxito na empreitada judiciária: seus funcionários não poderiam ser prejudicados em único centavo.

Era o imperativo categórico que a guiava naquela conjuntura. Mulher admirável, dirigida por ética de responsabilidade, admirada pelas amigas tanto as de Paris, famosas pela beleza e compostura, quanto aos amigos do Rio e São Paulo. Osvaldo Peralva, diretor, Newton Rodrigues, chefe da Redação, Gilberto Paim, do Suplemento Econômico, Paulo Francis e Álvaro Lins, editorialistas, o Ministro Nascimento Silva, conselheiro.

No ambiente tranqüilo do restaurante, minha explicação foi breve e sem formalismo jurídico. À tentativa de tansferir aos Irmãos Bobagens, que, em rescisão abrupta lhes devolveram o matutino, foram exigidas as obrigações fiscais e previdenciárias sob pena de execução. Os credores quirografários agiram honestamente e as composições se efetuaram judicialmente em função dos direitos trabalhistas.

O sistema militar, por seu executivo, não fez pressão qualquer junto ao Judiciário no sentido de perseguição ideológica, toda a tramitação era dirigida sem preconceito do ponto de vista exageradamente liberal que D. Niomar Muniz Sodré Bittencourt imprimira à sua orientação.

Quanto à minha outra cliente, tudo fora resolvido com facilidade decorrente da citação por correio, já concedida a liminar.

Já à noite passamos à recepção dada por brasileira residente em Vendôme, à direita de quem passa pela rua Castigliani. Quanta coisa aprendi, então, sobre a fase histórica do Estado Novo. Vargas chegara em 1930, vindo do Sul, não só com aventureiros, também com criaturas sagazes e cultas, desde Oswaldo Aranha, Simões Lopes, Francisco Campos e o que havia de melhor entre os tenentes do Forte de Copacabana e militares da nova geração da estatura de Ernesto Geisel e Juracy Magalhães. As mulheres elegantes, belas e inteligentes desfilavam discretamente pela passarela do cassino Atlântico, observando, pesquisando, brilhando, enfim, como Adalgisa Nery e outras imperatrizes.

O Presidente Vargas, como também era chamado, jamais comparecia, salvo para ouvir uma ou outra cantora estrangeira.

A maioria dos olhos voltava-se sempre em direção à Aimée de Heeren, nascida Sotto Mayor, a grande paixão de Getúlio e Assis Chateubriand.

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Published in: on novembro 8, 2009 at 3:11 pm  Deixe um comentário  

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