Dias Informais

Rouen, 05.10.75, Domingo.

Pelo final da tarde, a fadiga era bastante para deter-me na Pensão. Mas a venci e por ônibus fui seguindo em direção a Paris. Afinal, rodara por toda a cidade e me parecia nitidamente o retrato de burgo em franco crescimento, ou seja, apagando pela arquitetura o que houvera do passado novecentista. O mesmo parecia estar ocorrendo também pela Normandia.

O Século XX tem sido destruidor, a gente observa o mesmo nas aldeias. Parece haver a corrida em direção as Metrópoles. Tudo, enfim se deve à televisão, ao rádio, ao telefone e, principalmente, ao asfalto das estradas. Esse último desperta o ânimo das pessoas para os passeios, o que anteriormente não havia. Cá em França, tão próximo a Paris, o cidadão urbano já se põe a par das notícias políticas e comenta por mórbido prazer o último crime da cidade maior.

Posso ora avaliar que em Rouen há interesse intelectual como percebi na livraria do centro, onde passei pelo menos uma hora trocando impressões com os seus freqüentadores. Meu sotaque italiano naquele francês rude que punha em exercício ora me dificultava porque ainda há desinteresse em coisas do Brasil e lembranças da guerra não escondiam certa mágoa dos peninsulares.

Porém por coincidência encontrei uma professora que pelo Rio de Janeiro passara alguns dias e guardara as impressões de Copacabana. Formara-se em História e muito apreciara os cariocas. Afinal, meu dia ganhara a intimidade com o grupo que freqüentei, no cair da tarde, no principal bar da Praça Central. Um deles, admirador da poesia francesa, apreciava Rimbaud e Verlaine e já lera romances de Jorge Amado traduzidos para o francês.

Bem, tudo isso aí me fazia sorrir quando me propunham voltar sempre em Rouen como se fosse cidadão honorário. Mas o que gostei foi o tratamento de Maitre, que dão aos advogados. Conhecendo bem a categoria, pude avaliar a honra pela consideração. Estava certo de que não mais lá voltaria em razão do sentido que dava ao meu projeto de conhecer uma infinidade de cidades em limitada duração de vida. Mas isso não se diz e ficara, então, em Rouen minha sombra apenas que um dia esmaecerá pelo tempo. Porém vivam as coisas de imorredoura lembrança.

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Published in: on dezembro 12, 2009 at 2:25 pm  Deixe um comentário  

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