Aspirada Visita

 Versalhes, 14.6.1975. Sábado

 Pelas sete e meia da manhã, deixo o Hotel e tomo o carro que me levará a Versalhes. A vinte quilômetros de Paris, salto à entrada dos Jardins, fixado no que sempre pensara desde a adolescência, quando a leitura me proporcionou acatar o ponto de vista de que a literatura é a antropologia da antropologia.

Em 1937, aos treze anos e meio, por razão de saúde, interrompi o meu curso ginasial e fui liberado das aulas da manhã. Assim ocorreu e em repouso logrei chegar a alguns entendimentos sobre o que se dera no Ocidente.

Desse modo, aceitei o ponto de vista de que a partir de Luís XIII tivera início a decadência da nobreza na França.

O então soberano, em face de suas limitações, guiado pelo Cardeal Richelieu e por sua Eminência Parda, Irmão Tremblay, logrou a consolidação da questão religiosa, inspirado na estratégia da mãe Maria de Médicis, Regente até a maioridade do Príncipe que se tornou Luís XIII.

A partir dos primórdios do século dezessete, consolida-se o catolicismo e Versalhes viu nascerem-lhe as mudanças, aos poucos e intensamente com as sucessões de Luís XIV e XV. Até o final de Setecentos, ao instalar-se o Terror dos conhecidos tiranos Danton e Robespierre, os reis franceses sustentaram a decadência da nobreza.

Versalhes tornar-se-ía uma Sodoma sofisticada, oculta do povo, mas percebida pelos intelectuais que constituíram o Iluminismo. Como em processo gramsciano, de nossa tempo, a geração de Rousseau e Voltaire, com o apoio de outros vultos ilustres, criaram a espécie de Nomenclatura que, por intermédio da Classe Média, levou a cabo com a Maçonaria, a derrubada da antiga classe e seus sustentáculos na nobreza pervertida e corrupta.

Em Regresso ao passado da família real, então podemos seguir a trajetória de Richelieu, à adoção do Estado sou Eu, a displicência de Luis XV e, finalmente, a indolência de Luis XVI.

Maria de Medicis me fascinava deveras. Em minha puberdade, consideradas críticas que lhe eram feitas, eu não as aceitava e muitas vezes sentia a ligeireza com que a interpretavam, quando, em verdade, vivera ela em época de profundas mudanças religiosas e radicais.

A florentina sempre pensava em traições e astúcias da nobreza e, pois, movimentava-se no clima de incerteza.

Saltei nos jardins de Versalhes e enquanto perambulava pelo sítio recordava-me de quando ali girara de jipe nos idos de 45 com meus dois complicados companheiros que só se comoviam em matéria de logística e contra-espionagem.

Pela manhã, hoje, vejo-me por ali durante os reinados de Luis XIV e Luis XV.

Girava pelos Jardins, vindo-me à lembrança do que ali tramaram os maçons de Cagliostro a fim de manchar a figura da Rainha Maria Antonieta para torná-la o símbolo da corrupção e desprezo pelo povo.

Ao entrar no palazzo dei início ao que me faltara no passado: a riqueza desde a Cour Royale ao Museu Histórico.

Com os passos vagarosos sigo para os grandes salões, desde a Opera e a Capela até os salões do rei e os de Diana com um busto de Luis XIV, de Bernini e assim por diante.

Eu anotei em caderneta tudo o que me levará a consultar o que consta em minhas observações de leitura. É o que posso fazer diante do acervo.

Pelas quatro da tarde, sem almoço, volto a Paris com o fito de meu último jantar, o que fiz quando chegado em Lés Trois Bonheurs.

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Published in: on setembro 19, 2009 at 3:50 pm  Deixe um comentário  

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