Presente & Passado

Sexta-Feira.
Paris, 13 de Junho de 1975.

Manhã e tarde livres para rever Dôme des Invalide, onde se acha o túmulo de Napoleão. Outros da família fazem-lhe a companhia que antes tiveram, além de Foch e Vauban, o primeiro, arquiteto da vitória da França no conflito de 19l4 a l9l8, consagrado pela batalha de Marne, último, não sei a razão por que, a não ser a dignidade daquela sombria atmosfera de Luís XIV.

Creio que, do ponto de vista militar, o clima veste-se de humanismo sem a demagogia revolucionária do futuro francês, ao apresentar a plataforma de igualdade e solidariedade na área fiscal, exposta de modo pragmático em seu livro sobre o dízimo real. A circunstância dessas homenagens post mortem a Bonaparte só se explica por duas razões que nos servem para aferir o tema do papel do indivíduo na história, examinado diante do dogma de que não existe.

No momento estou diante do sepulcro de Bonaparte e desfazem, por encanto, minhas restrições à sua pessoa após a tomada do poder e ganhar a confiança da burguesia vitoriosa de 1789.Trata-se de capítulo que nos confunde a mente durante a vida.

Ali estão os restos mortais; em Las Cases, seu médico e confessor, esboça apenas a versão do seu projeto histórico, já em vida revelado ao ordenar que na Praça Vendôme o postassem com os olhos voltados para o leste.

O ataúde é simples e o sentido simbólico nos lenhos se disfarça de formas severas. São madeiras de lei, equivalem-se às suas determinações que só fraquejavam diante do olhar de Josefina. O caixão que recebe as homenagens da posteridade é simples, perfeito, geométrico.

Aí vou ficando, minutos que oscilam entre o bem o mal, entre as reformas seculares que impunham aos vencidos e o morticínio que as velhas resistências erguiam em seu caminho. Jamais pensou em pudor nacional, na honra de seus adversários, era o jogador de xadrez pronto para o xeque-mate.

Leão Tostoi deu-lhe, em Ana Karenina, a resposta da História para todas as glórias pessoais.

Outras novas visitas, hoje fazendo sem ânimo de registrá-las, porque em meu espírito dera-se um choque de pontos de vista.

À noite, D. Niomar chamou-me para o jantar no Café dos Artistas, avisando-me de que convidara amicíssima sua desde quando ao Rio chegara nos finais dos anos trinta.

O telefonema que me fizera levou-me à corrida, pois como andarilho precisava trocar de roupas.

Apesar de britânico em meus encontros, seguindo conselho de Hannibal, lá cheguei às 21 horas. Encontrei-as sentadas.

Feita a apresentação, lembranças irromperam, voltando-me ao passado dos anos quarenta. O perfil daquela criatura identificou-se com a era getuliana, quando chegado ao Rio, e pouco antes de ser convocado para a Segunda Guerra.

Era a pessoa que discretamente se movia na sociedade, mas como estrela vespertina lançava o seu encanto, onde número expressivo de acadêmicos atuava politicamente sob a batuta do Diretório Central dos Estudante.

Impossível definir D.EdyalaVargas, então, em razão de beleza sem esnobismo, ao exibir a elegância, o jeito de ser feminino sem afetação, o modo de sorrir.

Sua força naqueles anos de sucessivas crises, manifestava sem ruído, pois, Getúlio Vargas, em plena ditadura cruel, desfrutava respeito popular pela forma com que abordava difíceis problemas postos no tabuleiro da política internacional.

Vargas a ouvia e sabia pela filha Alzira que Edyala era de serena dignidade, aguda inteligência, domava o irmão troglodita Bejo Vargas, apesar do seu difícil temperamento.

Hoje eu percebo que ela procurava amenizar a rudeza de Scarpia para os perseguidos; sem plano algum, naturalmente, tornando-se misto de Vitoria Colonna, no Renascimento e Lou Andréas Salomé, no meado do século vinte.

Porém as exceções se fazem para confirmar a realidade formal das coisas. A personagem, apesar dos trinta anos transcorridos, ainda estava fascinante e eu percebia que as pessoas no local observavam-na com o silêncio com que se olham as criaturas raras.

D. Niomar era outro tipo de simpatia e graça. Personalidade forte, aguerrida, faltava-lhe jogo de cintura para atuar na política.

O Correio da Manhã atuara decisivamente para a derrubada de Jango a fim de tornar-se, após o governo da Revolução, em seu maior adversário. Roberto Marinho fora sagaz, tornou-se anti-janguista às vésperas do contra-golpe, mas se acomodou com o grupo Sorbonne.

D. Niomar, em face das medidas de 31 de Março, não a suportou em termos financeiros, deu meia-volta e tornou-se oposição até que o arrendou para três empreiteiros que visavam a influir na sucessão de Castelo Branco. Não obtendo êxito, devolveu o matutino mais individado à sua proprietária. Já era tarde.

Mas voltando às personagens, conduzi a conversação para a literatura, lembrando-me que no final dos anos trinta, Niomar, vinda da Bahia, publicara em revista um artigo sobre Proust que li em minha terra natal.

Já a amiga conhecia todos os modernistas, inclusive Graciliano e Jorge Amado.

As duas eram propensas à subjetvidade em literatura e então só as agradando o realismo crítico dos dois grande romancistas brasileiros. Certa, a melhor alternativa.

Dessa forma, ambas me fizeram aprender e, mais uma vez, só as deixei após último brinde aos amigos Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues que salvariam Niomar e seus gráficos de pesado final.

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Published in: on setembro 12, 2009 at 4:34 pm  Deixe um comentário  

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