Colonização, a invariante

Buenos Aires, 9 a 14 de fevereiro de 1975

Se intentarmos projetar sobre o Brasil e Argentina as variáveis comuns às duas nações sul americanas, devemos buscar aquela que melhor se ajuste à realidade.

Ou aquela, digamos assim, ação menos ortodoxa. Então, a partir dos processos colonizadores, paremos nos inconscientes coletivos do Brasil e da Argentina. Eles é que irão processar a escolha dos mitos e símbolos que virão dos modelos dos povoadores dos territórios.

A posição geográfica é menor nesse contexto. O Brasil, quando do combate aos invasores holandeses, tratou de defender-se em termos de província ultramarina de Portugal, ainda que a Metrópole se encontrasse politicamente unificada à Espanha por motivo alegado de que D. Sebastião não deixara herdeiro para assumir o trono.

Então, lusitanos aqui residentes, índios, e negros escravos uniram-se em resistência aos holandeses, determinada por crenças religiosas idênticas.

Os espanhóis nada fizeram senão assistir dos camarotes àquela primeira demonstração de orgulho nacional, enquanto os próprios portugueses o imitaram das torrinhas.

Mas convenhamos que os últimos tinham razão primeira para confiar na miscigenação já desfechada por gente cá nascida, inclusivamente pardos ou mulatos que já se sentiam brasileiros.

No passado, até a Independência, ela, Espanha, empenhada em problemas europeus e confrontos generalizados, tudo ignorou. Não via indício qualquer da Inglaterra tomar-lhe o território; ao contrário, segura em sua soberania.

Enquanto eu e Ana Elisa visitávamos os museus e templos católicos, neles identificando entre os naturais forte sentido contra-reformista existente na Península Ibérica, víamos que a ausência de escravidão na Argentina devia-se à força persistente dos jesuítas.

Nós, habituados a visitas no continente europeu, percebemos que os  argentinos não nos consideram gente séria em razão de recursos estéticos e lúdicos dominarem o povo com espetáculos como o carnaval, estendendo-se o preconceito ao temperamento extrovertido.

Por conseqüência, não aceitam também o ritmo do samba, fixados no juízo de que o tango é a mais bela dança no planeta.

Comunicamo-nos muito com pessoas de diferentes categorias que nos respeitavam em razão de nossas origens européias, ainda que no país olhem com certo desdém os imigrantes italianos, calando-se diante do valor de sua segunda geração constituída de intelectuais e profissionais liberais.

Satisfeito com as raízes de seu processo histórico, ela parece ter desertado o que é autêntico, porque não o sente como imperativo de cultura própria. O seu inconsciente coletivo é a nostalgia do passado que tanto o fizera crescer no exterior.

Enquanto a Espanha decolava após a Segunda Guerra, criando o empresariado ágil e progressista que chegou até nós, a elite portenha acatou espécie de nacionalismo capenga, erigindo o símbolo da mulher alegre e exibindo feroz ditadura contra qualquer oposição a métodos políticos condenáveis.

Voltou as costas à Espanha que retornara à monarquia, sentindo nesse rumo que a unidade poderia constituir-se em sistema democrático da economia de mercado.

Tais idéias comuns nascem em nosso espírito enquanto observamos nos templos e nos museus as manifestações da pintura e da escultura.

Quanto ao Brasil, representa o ponto de encontro,no dizer de Sérgio Danilo Junho Pena, cientista da área da Genética, do ângulo de filogeografia humana, disciplina que ensina a distribuição geográfica de linhagens genealógicas. O homo brasilis seria multidimensional em clássica lição de Paulo Prado. Do mesmo modo, Cassiano Ricardo nos apresenta ao homem cordial.

Embora afeitos ao avanço da ciência, não podemos tomá-la como definitiva, porém o culturalismo, desde os anos vinte, aborda o traço relevante, dando cuidado especial à consideração de que o brasileiro é, em nosso tempo, a mistura de três fontes: as linhagens portuguesas, africanas e ameríndias, sendo que as últimas são orientais.

A causa do desconforto entre Brasil e Argentina pode ter nascido do conflito entre os símbolos lusos e espanhóis. Nem o tempo nos dirá a verdade.

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Published in: on agosto 29, 2009 at 3:59 pm  Deixe um comentário  

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