A península e dois pólos desiguais

Buenos Aires, 9 a 14 de fevereiro de 1975

De pé, sem fadiga, às nove horas da manhã, dispomo-nos a sair para a maratona. É preciso conhecer as ruas repletas de pessoas que vão para o trabalho cotidiano. Se ontem giramos, cumpre-nos revê-las de outro modo, como no caso de Florida, a ferver por todo o dia.

A cidade é européia, só não me cabendo torná-la cronada porque se veste de hispanidad e jamais estive em Madri. No final de 1944, voando de Lisboa, meus companheiros de missão descartaram a possibilidade que poderia ocorrer. E em final de vacilação, aguardamos no aparelho, distante do Aeroporto.

Mas o real era outro, e no esquema que tínhamos de cor não constava nossa descida para conexão.

A Espanha jamais teve unidade; as províncias são nações disfarçadas. Sem tocar nos bascos, o sul é autonomia, cada cidade é uma polis no sentido grego, Catalunha veste o orgulho de soberania e nada esconde em seu idioma, em sua literatura e exibe a sua beleza com indiferença.

Quando pudesse conhecer a capital de Espanha estaria mais seguro: o urbanismo em toda capital, bem como o seu estilo arquitetônico.

Deixemos Portugal arquétipo com a Atlântida desocultada e a própria arqueologia, incluindo a sua adversidade para reconhecimento da herança cultural clássica partir de Aristóteles e a fechar-se, em nossos dias, com Jung e Mircea Elíade. Fiquemos na pesquisa do conjunto que absorvemos da riqueza à nossa frente ou em cada esquina.

Ana Elisa, do mesmo modo, revia Buenos Aires que conhecera do tempo de Perón, depois do final da guerra, na qual a Argentina não tomara parte.

A Espanha não se mostra, por sinal, qualquer mistério. A cultura dolmênica por ela passou com seus braços de pedra a rumos orientais e não se fixara no inconsciente coletivo. Ali os visigodos dominaram, combateram seus primos suevos, sofrendo no sul o ímpeto árabe em terreno de cultura tradicionalista que viera para sobreviver por muitos séculos.

De sua cátedra aprendeu o Inquisidor Torquemada a lição da crueldade e durante o século XV os reis católicos, a contra gosto, espalharam os judeus por todo o continente europeu.

O primeiro sinal de rebeldia partiu da Galiza, quando os Castros tentaram atrair o Príncipe D. Pedro à aspirada unidade da península ibérica. A reação de Afonso IV deu-se como resposta cruel em Santa Clara, a Velha e a partir de então nada mais foi possível em termos de aprovação de Sua Santidade, o Papa.

Ocorreu, assim, o sacrifício da mulher que não era bela, mas, sim, a própria beleza.

Em fase subseqüente a D. Fernando, o Formoso, e Leonor Teles, reinaram D. João I e seu filho D. Duarte em fase de conquistas marítimas.

Desse modo, a Espanha nada encontraria que motivasse a vitória de unificação uma vez que lhe faltava a força de um inconsciente coletivo que tivesse a magia, os mitos e os símbolos a visarem o projeto áureo de realização da humanidade, ao exprimirem-se as interpretações da intelligentsia lusitana.

Em tempo algum dispuseram os domínios de Castela e Aragão à conquista do território português porque este se pusera vigilante em seus objetivos dolmênicos e meniricos.

Também receberam dos árabes intentos que supunham outras ambições no continente europeu.

E onde ficamos diante de colonizadores tão diversos? Sem dúvida, as heranças portuguesa e espanhola descrevem trajetos diferentes, não se ligam por propósitos idênticos, recebendo cada qual as informações e os traços culturais que genes milagrosos transmitem aos povos de formações distintas.

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Published in: on agosto 22, 2009 at 3:50 pm  Deixe um comentário  

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