TEMA DE SURDO CONFLITO

6.2.1975 – Buenos Aires, 5ª feira

Cheguei à noite, vôo atrasado, encontrando Ana Elisa e Márcio à minha espera. Por aqui ficaremos durante a semana.

O motorista, do Aeroporto até o Diplomat Hotel, onde nos hospedamos, falou por todo o tempo, deixando transparecer leve antipatia do Brasil. Por absurdo que pareça, atribuía-nos posições políticas que não tinham procedência. Ouvia-as, buscando reduzir-lhes a relevância.

Dava-lhe minha versão de certos mal entendidos havidos durante o último conflito mundial em 1943, há doze anos. Revelava-se peronista e admirador de Getúlio Vargas em sua resistência ao alinhamento com os aliados quase no final do confronto.

Senti em seus argumentos forte sentido racista no que toca aos negros, culpando-os pelo nosso atraso em matéria de educação. Tudo era frágil naquele desabafo de quem via ruir-se o seu país, apesar do bom futebol.

Chegamos à Rua San Martin, e despedi-me com frieza sem qualquer gorjeta. Não merecia por sua arrogância.

Vira o centro com pouco movimento, mas o correr dos prédios mostrava-me a forte influência espanhola, exibindo o projeto de inspiração barroca. O efeito pareceu-me naquele vazio de gente, o que restara daquela colônia orgulhosa do começo do século vinte, antes que o social fascismo de Perón liquidasse o ímpeto de progresso em desenvolvimento.

Creio ser difícil ignorar a surda rivalidade entre a Argentina e o Brasil, réplica do que ocorre entre Portugal e Espanha. Há, por certo, identificação visível nos símbolos e mitos de séculos passados. O papel da mulher no cenário social destaca-se nos principais momentos da história a partir da própria formação dos dois países.

Tudo isso me integra em pesquisas da fenomenologia histórica luso-brasileira, a partir das circunstâncias que cercam as conspirações para a unidade da península ibérica, vindas a partir do sacrifício de Inês de Castro, da bondade de Rainha Isabel, a santa, e especialmente do desempenho das criaturas cruéis encarnadas em Leonor Teles e Carlota Joaquina.

Enfim, minha arribada em Buenos Aires terá, quem sabe, quando melhor conhecer Portugal e Espanha em suas disputas e guerras provocadas pelos arranjos de casamento.

Há episódios que muito nos atingem. A pergunta importante consiste na repetição dos mitos. Episódios virtuais ou símbolos transcendentes? Talvez os dois, ambos complementares, pois tanto dispõem da força dos segundos, quanto se servem do tecido dos primeiros.

Tomemos, por exemplo, os levantes de Canudos e de Pedra Bonita, ocorridos no sertão nordestino. Nos dois, espaçados por mais de meio século, a cruz, o mar, a guerra destacam-se na expectativa do retorno de D. Sebastião.

Na lembrança da linda Inês e da Rainha Santa, distingue-se a relação amistosa com a mulher, na fusão do amor com o pecado, nela havendo esperança e remédio para todos os males.

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Published in: on agosto 8, 2009 at 2:50 pm  Deixe um comentário  
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