A relatividade do Presente

Atlântico, 28.11.1974, quarta-feira.

Dia agitado, logrando, pela manhã, visitar S. Sulpice para rever afrescos de Delacroix. Lá permaneci com Michael e juntos almoçamos em despedida. Chamada a Hannibal para confirmar o material que me chegou às mãos. Visito também os sebos e pormenores que não merecem registros.

Em Orly, final da tarde. No aparelho, o balanço da viagem. As impressões afloram de modo arbitrário, sem cronologia e dispersas, misturando-se às antigas, e bem antigas. Noção de episódios, que nos tomam de surpresa, como se muito curta fora a ausência de minha casa, de Ana Elisa e dos meus.

As clareiras, que me acompanham no espaço, são instantâneos da vivência, curtos e cintilantes, dando-me a impressão daquele tipo de memória, de que nos fala Gurdjieff, batizando-a de objetiva.

Exprimem-se diante de brenhas em forma de clarões. São como o raio no espaço, mas sem o ruído do trovão.

Há, ora, a relatividade que me sustenta no avião. A lembrança vem de estalo, sem aparente motivo, mas a minha percepção parece prender-nos no vazio de segundo. Rápida e firme no conjunto das coisas.

Penso no Presente, na velocidade da máquina voadora, que se apresenta alheia ao Futuro, chamando-me a atenção confusa. Se isso ocorresse antes do vôo, seria a lógica do princípio da correspondência entre o agora e o pretenso Presente. Mas a velocidade do pássaro é outra da casual entre o transcurso da abertura do sinal verde e a duração de meu instante ou o relâmpago do objeto.

Passa-me pela cabeça a intuição de Leo Szilard, ao aguardar o sinal verde em Russell Square, Londres, em histórico 12 de setembro de 1933. Dia cinzento, chuva intermitente, o físico recebia faíscas em seu raciocínio sobre o essencial para a descoberta da bomba atômica.

Acabara a leitura de Open Conspiracy, de H.G.Wells, com quem já estivera há cinco anos antes, Fora aluno de Einstein, Planck Max von Laue. O último citado fora seu professor de Física Aplicada, introduzindo-o na perplexidade do pensamento quântico em crise. Devorador de romances, o cientista fechar o ciclo da questão nuclear, prevendo o cataclisma que ocorreria na hipótese de sucumbir a Alemanha nas mãos de um paranóico.

Convencera Einstein, mais tarde, da infame circunstância do anti-semitismo. Em resumo, naquela manhã de setembro, ao abrir o semáforo, viera-lhe subconscientemente a Idéia de transformar qualquer átomo. Por uma progressão geométrica, ao atravessar a rua, Szilard encontrou a raiz de tudo. Dou-lhe a palavra no idioma em que esclareceu: sob certas circunstâncias é possível conseguir (set up) uma reação em cadeia, liberar energia em escala industrial e construir a bomba atômica.

Szilard parou na calçada, após atravessar em sinal verde, detrás, a luz tornou-se vermelha, comentou  Richad Rhode, o biógrafo da energia nuclear.

Em termos kantianos, o sujeito teria o fenômeno a que chamamos de Presente; mas não, pois o Presente já nasce passado em espaço-tempo outro do habitual. Se voltássemos à intuição de Einstein, a quando de sua precoce percepção no trajeto ferroviário ou cruzamento de duas locomotivas, sentimos a diversa condição de pensar em altura de dez mil metros a oitocentos quilômetros por hora.

A situação é paradoxal em razão de nossa existência decorrente de estado de espírito.

Curiosamente, então, sentimos do ponto de vista emocional, se pesquisarmos, o fato em si que o Presente não comporta, lavrando-se o juízo no sentido de que ele não existe, é simples utopia de nossos sentidos, nem ainda posto em termos de relação íntima com o planeta, ou seja, em rápida caminhada entre um degrau a outro.

Pensamos no vivido, visto por pedaços, compondo o quadro curioso. Quando voltarei às terras estranhas? Pois estamos só, neste pássaro tão meu íntimo, cujas asas voam, mas não batem e cujo coração é ronco de potência.

Ele, que nos abriga, atira-se de modo álgido, em desafio das turbulências. Sossega-se meu espírito porque a aeromoça me comove com sua gentileza também integrada no espaço-tempo

Retornam as lembranças da estadia, em ritmo de frases musicais, que não nos saem da repetição descabida, Às vezes de Tosca, outras tantas de Noel Rosa como aquela clássica “com que roupa vou àquele baile que você me convidou”.

Locais já vistos e pisados, as impressões das coisas, enfim, a mais doce das vivências. Os últimos dias, os três últimos, olhando com freqüência o relógio, reexaminando os bilhetes, ligando para a moça do falar francês e avisando-a de que desejo confirmar a viagem, no vôo 245 ou outro número, pois não o gravaremos mais.

Só dessa forma temos pena do exilado, a sua solidão diante da volta proibida. Há, ainda, o tempo consumido no correr da vida.

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Published in: on agosto 1, 2009 at 3:51 pm  Deixe um comentário  

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