Visita a Saint Roch

Paris, 27.11.1974, Quarta-Feira

Próximo à Sorbonne, cujos muros observo da janela! Experiência que não tive na juventude, uma vez que no final da guerra, libertada a França, havia qualquer coisa de macabro na atmosfera de Paris.

Outras estadas: correrias em razão de meu costume de andar à toa.

A verdade é que entre mim e a paisagem atual dá-se no outono de minha vida, posto que em começo, o que sobremodo favorece o entendimento das coisas. Trago na bagagem tantas lembranças de amigos casuais, eu diria companheiros, que posso comparar não só ao presente quanto ao futuro. Paradoxo, por certo. Devo trazer os sonhos ao debate? Creio que não.

Talvez, do ponto de vista de meu sentir, posso identificar a convivência com arredores no sentido de não percebê-los como realidade vivida e não como trechos de leituras de ficção.

Curiosamente, em 1937, que vivi sem aulas secundárias, vivia na leitura de romances quando, em páginas de ficção, pude aprender histórias sem decorá-las, vivendo as intrigas de José Bálsamo, a banalidade da nobreza, a argúcia de Mazarino, a sensatez de Colbert e o banditismo de Robespierre.

Continha-me para não tornar-me feroz adversário da Revolução Iluminista em suas torpezas que fluíam do materialismo vulgar então oficial, enquanto a guilhotina funcionava em ritmo da Marselhesa.

Salvava-se qualquer frase em razão do que viria. Mais tarde, quando se tratava da literatura de Vitor Hugo e Balzac, que a criavam como espécie de antropologia da antropologia, na definição de Fernando Cristóvão a iluminar os retratos que nosso espírito captava dos acontecimentos.

Porém Hannibal e Michael Fields, em nossos passeios, ajudavam-me a entender a França. Deviam-se compreender a arrogância, a impaciência e o orgulho do francês em termos de ter perdido a maioria das guerras em que se meteu, só lhe restando a compensação de verem americanos e ingleses correrem em seu auxílio. Ela, em verdade, se não consegue alcançar a filosofia da Alemanha, a supera em diversas outras atividades no campo científico. Do mesmo modo na literatura.

Ontem à noite tudo correu como esperávamos. Opiniões cruzavam-se no salão e não faltavam idéias e aspirações para a busca de unidade.

Hoje, ainda cedo, marquei almoço com Michael. Estou a poucos passos de Luxemburgo e decido revisitá-lo. Sítio de pretérita bruxaria, povoado de demônios. Hoje o sol varre os resíduos de velhas lendas. O Jardim liga-se ao Palácio, onde viveu Maria de Médicis.

Almoço com Michael e visitamos a igreja Saint Roch, em St. Honoré, sua rua. Concluída a construção no século XVIII, bela é a fachada com colunas dispostas duas a duas, ainda exibindo esculturas entre cada par. Internamente prevalece o estilo barroco e duas naves que abrigam figuras e mostram afrescos de artistas do século.

O templo insere-se na época que precedeu a Revolução, porém no período em que se formava o Iluminismo quando os intelectuais de todos os naipes discutiam temas literários e filosóficos nos cafés de Rivoli, ponto próximo a St. Roch.

Ali sepultados Diderot e Corneille, o primeiro, o maior dos iluministas, o segundo, um dos precursores dos salões e clubes literários para onde se dirigiria o individualismo do Século XVIII. Em sua Capela do Calvário encontram-se os despojos de ambos, como se as idéias do primeiro citado buscassem a inspiração do Enciclopedismo nas Bellelettres de Paris. Pois a ironia de Corneille em sua obra teatral antecipa o que faria Diderot com sua erudição e busca pelo mecanicismo dos intelectuais de 1789.

Anúncios
Published in: on julho 25, 2009 at 5:13 pm  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://pmercadante.wordpress.com/2009/07/25/visita-a-saint-roch/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: