Novas descobertas

Paris, 26.11.1974, Terça-feira

Michael Fields me reservara o quarto no Quartier Latin, Rua Monsieur Le Prince, 20, a fim de assimilar melhor o espírito de Rive Gauche. Quarto nº 8, coincidência inacreditável, que não vou registar porque ela é impossível.

O Museu de Cluny está a dois passos. Ali, próximo ao Sena, a Notre Dame.

Tão meu conhecido, mas me resolvi revê-lo.

Os faróis projetam suas luzes sobre as ruínas ignoradas das distantes eras: as termas romanas, dezoito séculos depois contemplam o borborinho do Boulevard Saint Michel, onde os jovens perambulam no final do dia à procura dos bares e restaurantes.

Da época galo-romana, quase tudo se perdeu em razão de reformas. Lutèce foi destruída pelos chamados bárbaros e dos restos nasceu Paris. Também incendiado, o monumento conservou a estrutura do frigidarium ou salão dos banhos frios.

A poeira dos séculos cobriu-lhe providencialmente a muralha do passado romano e só há cem anos as escavações trouxeram-na de volta.

Apenas há meio milênio uma raça de abades fez erguer junto às ruínas a construção gótica de um hotel, hoje rara reminiscência da Idade Média.

Durante o dia, os turistas visitam as tapeçarias, os quadros, as esculturas. À noite, as sombras revivem o passado.

Em seus aposentos superiores, Mary, da Inglaterra, adolescente em suas vestes brancas de viúva real, foi surpreendida em companhia de um jovem duque. Francisco I obrigou-a a casar-se. Mesmo morto, a honra de seu marido, Luís XII, devia ser preservada. Francisco I obrigou-a a casar-se com o audaz amante, devolvendo-a à sua pátria. Também em Cluny residiu Mazarino, cuja figura nos traz à leitura de Dumas, pai, nos seus Três Mosqueteiros.

Encontro o beaujolais nouveau, alegria juvenil nos bares e tratorias simples próximas à Notre Dame.

Passo o tempo com Hannibal a visitar as Igrejas: St.Étienne-du-Mont, concluída em 1622, mas iniciada no século XV. Mistura de estilos gótico e renascentista, belíssima em seu interior. Lá sentamo-nos e fizemos hora para o almoço na Rua Soufflot, onde se ergue o Panthéon, e em l944 fizemos contactos a fim de obter dados para a nossa missão. Naquelas colunas, em sítio da terceira ou a do meio, víamos a cidade já libertada com os franceses ainda receosos.

Esquecemos por horas nosso primeiro debate do Colóquio que seria realizado nas vizinhanças de Bois de Boulogne.

À tarde fomos até o Musée Marmottan, vendo com atenção à Coleção do Renascimento e à Impression soleil levant, de Monet.

Quatro séculos e tanto em etapas de difícil compreensão. Após os mestres de Florença, o longo período de absorção clássica, e depois, o Romantismo, outra fase de sonolência até o Impressionismo.

A Arte, seja qual for, é sempre elaborada por perplexidade renovadora. Que o digam os museus.

Meu irmão de seita esotérica insistia em que fosse concluído nosso passeio com a visita à St. Sulpice, onde o florentino Servandoni erigiu a fachada. Logo à direita, surge a primeira capela com afrescos de Eugène Délacroix. No interno, esplêndidas colunas, porém o que mesmo nos impressiona é Vergine col Bambino, de Pigalle que nos comove em meio aos arcos arrogantes ou brados do gótico insuperável.

Afinal, pomo-nos a andar, a princípio, atravessando o Sena, depois, sem destino, caminhando em direção ao Hotel. Não podia deixar o escrito e, de improviso, seria dificil concluir minha proposta.

Estava certo de que o debate nos levaria a uma cisão, uma vez que o Ensino Desconhecido seria interpretado em termos sectários extraídos de Ouspensly. Atravessar o canavial sem levantar dúvidas a respeito do próprio Gurdjieff, impossível, e o episódio que tocava em ponto referente à Catherine Mansfield seria de difícil entendimento. Restava embrenhar-se na Psicologia da reflexão inglesa, em termos de Nicoll, mas é tal a complexidade que viriam, em seguida, outras divergências.

Em verdade, o Ensino tornara-se, de tão prolixo, a Metafísica do Esoterismo Oriental.

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Published in: on julho 18, 2009 at 3:22 pm  Deixe um comentário  

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