NEOSALAZARISMO OU TRADICIONALISMO

Viseu, 22.11.1974 6ª feira.

Que gostaria de ver o Dr Paulo? Disse José Carlos quando entramos em seu carro.

Se possível, almoçar em Viseu a fim de ter a impressão do interior, visitando-o, e em Beira Alta, fazer a refeição.

Passar em Lamego para rápido encontro e obter alguns dados sobre o lançamento de granada no quartel da cidade nos idos de março do corrente, de que resultaram mortes e ferimentos em soldados.

O ato teria sido de oficial da Situação como protesto ao preparo de movimento armado, excogitado para dois dias após, o que se deu em Caldas da Rainha na madrugada do dia dezesseis com a sublevação do Regimento de Infantaria.

Houve malogro e duas centenas de prisões. Chegava-se à articulação final do Movimento dos Capitães e de Oficiais e Milicianos que se punham prontos para o confronto.

Entre os advogados locais obtive os esclarecimentos que precisava uma vez que o dia D fora marcado para 25 de Abril. As anotações em meu caderno completavam-se naquele ponto e alguns outros dados de ex-comunistas em Paris me facilitariam escrevê-lo logo à chegada ao Brasil.

Lembrei-me das Noites de Lamego de Camilo Castelo Branco, mas cujo texto antes se dedicava a formas nominais de verbos do que propriamente ao título.

No ponto acima apuram-se os fatos a serem acrescidos à matéria do correspondente Eduardo Barreneches.

Cinco dias antes do 25 de Abril, o jornalista citado encerrava o seu desempenho em Lisboa.

Outros fatores viam-se em comentários uma vez que vazavam de frases dos milicianos e mesmo de oficiais. O Capitão Teófilo Bento dizia à imprensa o que os militares não se impressionaram com o malogro do levante em Caldas da Rainha.

Tanto em Lisboa quanto no Porto e Coimbra os acadêmicos reuniam-se em restaurantes e bares onde a polícia política, conhecida como Pide, mantinha seus informantes. O General Antônio de Spinola também recebia jornalistas para explicar pormenores de seu livro Portugal e o Futuro.

Enfim, o movimento fazia-nos lembrar a derrubada de João Goulart em l964.

Demos a volta por dentro, apreciando as Serras soberanas que me traziam as descrições de Ferreira de Castro. Delas descera a personagem para chegar a O Porto e trocar o pastoreio de ovelhas por oficina de operários.

Bem vagaroso José Carlos, após o café, voltou-nos a atenuar o suposto bruto que alguns romancistas descrevem-no.

Tranqüilas são as aldeias, como no interior de Campanha, onde se produzem queijos e mortadelas, presuntos e chouriços. Respeitosos os moradores, dedicados aos melhores produtos que se conhecem na Europa. Por incrível que pareça, encontrara-os em Nápoles e adjacências.

O que era lamentável havia de corrigir-se um dia. Passei por Batalha, pelos campos de Aljubarrota, mas não houve tempo de visitar o mosteiro. Pagarei por esse pecado até um dia. Oliveira Martins me perdoará.

Quanto aos dados e confidências, veio-me à certeza de que neosalazarismo de Marcelo Caetano mantivera o mesmo equívoco de seu ideólogo.

Em cinco anos e meio de governo, o Chefe de Estado procurara amenizar o sistema anterior, porém mantendo dois erros de Oliveira Salazar, o que impediu a conciliação a que aspirava a classe média de Lisboa e O Porto.

De início, Caetano era professor de Direito Administrativo, o que o tornava formalista intransigente, indiferente à nova mentalidade dos oficiais tantos da Ativa quanto da Milícia. Eram acadêmicos e esquerdistas. E sabemos que tal posicionamento mostra-se convincente em sua pregação ideológica, mas incompetentes na ação em si.

A direção de um País monitorada por professores de Direito Administrativo, sempre tende para a Direita extremada e não sendo contida se veste de Ditadura.

Há exceções, certamente. Nós a tivemos com o Regresso do Visconde do Uruguai após as radicalizações liberais da década de trinta do Novecentos. Mas conosco não ocorreria o excesso em razão das reformas quanto ao tema da escravatura. Desse modo, tudo se realizou com a calmaria após o intento subversivo de Otoni em l842; Caetano propõe a ressalva de que todo português politizado evitava aceitar, ao contrário de posições aliadas, destacando-se a Grã Bretanha, que se tornaram transigentes e dirigiram os entendimentos para a autonomia consentida.

O Chefe de Estado Português faria o contrário, expondo em sua Conversa em Família: tem-se a Nação recusado a abandonar as terras do além-mar, onde grandes comunidades vivem e progridem como núcleos integrantes da Pátria Portuguesa.

Isso ocorreria em final de Março, dia 29, quando ainda havia tempo para a abertura política de união nacional.

O tradicionalismo imobilizou Caetano que havia se equivocado e convencido de seu prestígio popular. Impressionara-se em lº de abril, quando de uma partida de futebol entre o Sporting e o Benfica, que esmagaria qualquer movimento militar.

O tradicionalismo o impregnava de utopias quanto à gratidão de colônias à Metrópole. Nem levara em conta as mudanças de pós-guerra em outros países.

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Published in: on junho 20, 2009 at 5:08 pm  Deixe um comentário  

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