Leiria, ao sopé de um outeiro

Leiria, 20.11.74. 4ª feira.

No começo do século XII, a comuna foi tomada aos mouros por D. Afonso Henriques em seguimento de seu avanço sobre o sul. Entre dois rios Liz e Lena, o povoado cresceu junto ao lugar do Castelo, eis a história que todos conhecem.

Rodamos e rodamos para lá chegar, Cá estamos em Estremadura a ver o passado distante da formação de Portugal. Deixando o carro, andamos por todo o centro até acolhida pelo pequeno Hotel, próximo à praça, onde encontramos o restaurante melhor da cidade.

Andamos a conhecer Leiria em noite tranqüila. As moças estavam cansadas, gostariam de descanso. De certo modo, eu e José Carlos mostramo-nos encantados com a cidade simples e acolhedora. Quando retornando, quase à meia noite, liguei a minha casa do Rio a fim de ouvir Ana Elisa e dizer-lhe do nosso passeio.

Passara por Nazaré. Tanto de ouvir falar daqueles penhascos pelo espetáculo do panorama visto das alturas, que também subimos a pequena aldeia pelo estreito caminho.

Imaginei o que fora a lenda do cavaleiro.

Poucas pessoas no local, olhando da amurada o fino traçado do Atlântico. As casas, caiadas como os pequenos distritos de minha cidade natal na mata mineira.

Que dizer da atmosfera medieval que rondava aquele espaço onde o mar lançava ondas bravias sobre as pedras. Tão serenos os pescadores. Vêem-nos com suposta indiferença, mas certo afeto se desprende dos olhares. Passeamos no silêncio daquele espaço em lento crepúsculo.

Próximo o oratório de alguns séculos, tosco e vazio, a simbolizar a lenda já referida do cavaleiro em corcel que o levava e que estancara súbito diante do abismo. Tão sério tudo, que nada falamos, mas Conceição e Maria da Glória oravam como as portuguesas do Norte com aquela fé que as esquerdas querem destruir com a conhecida crença da utopia.

Afinal, a despedida em curva que se fixava em nosso instante. E, quem sabe, a saudade que por ela sempre passa nas voltas da memória.

Leiria talvez seja o centro de maior divisão entre esquerdistas e liberais. Os primeiros promovem seguidamente passeatas e comícios. É o velho discurso de chavões que atuam como ópio de estudantes e intelectuais.

Os liberais articulam-se nos gabinetes, obtendo uma vanguarda silenciosa que procura aguardar a ação dos acontecimentos. Estes, segundo os próprios radicais, corrigem os erros homens. Engels o adotou e Lenine só aceitou a mudança de sua estratégia após a batalha decisiva com Bonaparte.

De um social democrata ouvira em Lisboa a versão que os próprios russos não apoiavam a linha chinesa, nem a dos comunistas.

Já mandaram o recado, citando a punição ordenada por Stáline, quando da revolução espanhola.

Em Leiria os liberais encaminharam a O Porto uma aprovação de sua advertência a Mário Soares, comentada por gramscianos.

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Published in: on junho 7, 2009 at 2:15 pm  Deixe um comentário  

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