RUMO A LEÇA DO BALIO

Porto, 18.11.1974, 2a. feira

Ontem, João me conduziu até Viana do Castelo e lá a visitamos à pressa. Subimos até o Templo para apreciar o extenso vale que alcança a fronteira com a Espanha.

Hoje, cedo saímos com José Carlos, Conceição e sua cunhada Maria da Glória. Tomamos Vila Nova de Gaia e dela mal se despede, corridos trechos urbanizados, senti-me em plena província.

O carro desloca-se pelo asfalto da Estrada Nacional como que dividindo bosques de outros bosques, só interrompidos por aldeias que se sucedem com as suas casas de pedra, simples, muito antigas. Aldeias entre ciprestes e oliveiras, senhoras de luto pareciam multiplicar-se. Percebe-se escassa população, alguns idosos em porta de bares olham-nos curiosos.

Uma criança ou menino, raríssimos adolescentes, trecho de nosso interior nordestino, aquele carro a andar vagaroso com duas moças elegantes seria com certeza o assunto do dia que ia perder-se no correr das manhãs.

Despedimo-nos do Rio Douro e as aldeias sucedem-se na manhã fria de dezembro. Às vezes o lusitano sóbrio, de casaca e guarda chuva caminha em direção à Igreja plantada em jardim bem cuidado. Sinal algum da oratória estudantil que leva o cidadão comum para o comício ou passeata, sinal qualquer de irritação nos surpreende.

Incorpora-se na paisagem o homem da classe média rural, que tem em sua quinta a economia de subsistência, a vaca leiteira, alguns porquinhos e as indefectíveis galinhas dominadas pelo sultão vigilante. Jamais se rebelou contra o sistema derrubado e dele talvez já ignore a ordem.

O Partido Comunista pregou pelo campo os seus cartazes com a foice e o martelo; o vermelho não passou do vermelho, porque o vigário no dia imediato ao levante, congregou a pequena população advertindo-a de que o demônio seria escorraçado pelos sinos matinais do templo.

A atmosfera da Meia Idade em aldeias tão tranqüilas e modestas, faz-nos crer que tudo isso era melhor do que a grande cidade.

Pela primeira vez o Centro Democrático Social também se manifesta, dando os ares de sua militância. Trata-se do Partido do Centro, de cunho liberal, que também mantinha os seus contactos com os revolucionários, dando-lhes a advertência de que o novo Poder estava geopoliticamente impedido de assumir aventura qualquer, porque a terrinha seria a primeira vítima do movimento democrático vindo do Ocidente e o ponto estratégico para ação anticomunista na hipótese de aventura socialista ou comunista.

Ora tomamos o caminho de Coimbra, entre Aveiro e Vizeu, onde o espírito conservador acompanha os acontecimentos em O Porto.

O desafio parecera vir da velha Universidade, em cujo tradicionalismo as esquerdas procuravam se abrigar.

Quando nos sentamos na estalagem Pedro dos Leitões, sobre as mesas estavam convites de onze agremiações para debates em torno da Revolução dos Cravos e suas conseqüências imprevisíveis.

A Estrada Nacional facilita o contágio dos acadêmicos de Coimbra em direção aos povoados da Serra da Estrela no leste e noroeste, da mesma forma nos centros do litoral, onde o crescimento da construção civil faz desenvolver núcleos trabalhistas.

Tudo fácil de entender, pois chegavam dos países europeus investimentos dos imigrantes portugueses que se voltavam à construção de imóveis.

Era fase de poupança daqueles trabalhadores que tinham partido para a Alemanha, Inglaterra e França, principalmente, destinada à futura aposentadoria. Efeitos dos investimentos ignoram-se, imprevisíveis na escalada do tempo.

De certo modo, a cidade de Figueira da Foz, também litorânea e pouco abaixo, facilitava aos esquerdistas o entrosamento com a Universidade.

Estamos na rota de Coimbra. Entre Aveiro e Vizeu a moderação observa o rumo dos fatos. Eu recebera em Lisboa alguns nomes de liberais que podiam ser ouvidos. Líderes tranqüilos que nada temiam de Mário Soares.

Só em Coimbra ouvia-se ruído. Não importa. Já conhecemos o que ocorreu no passado: Antero, Eça, Teófilo Braga, Oliveira Martins. Os vencidos da vida: Antero mata-se em Ponta Delgada, Eça, embaixador em Paris, a história sempre se repete. No Brasil os tivemos desde o Século XVIII. Teófilo Otoni é o símbolo que ficou. Desculpem-me os recados da História.

O centro acadêmico de Coimbra dera início a plano vasto, visando a descobrir o novo comunismo, mistura de social democracia e trotskismo e, não esqueçamos, o maoísmo.

O caminho para Fátima não estava obstruído e lá aguardamos a sobretarde. O Santuário estava deserto e pareceu-me artificial. È o frio, explica-me Maria da Glória com a aprovação de sua cunhada.

A simplicidade que lhe protege as origens desfaz-se no enredo que nos procura explicar as razões ingênuas, dando-nos a mais importante – o fim do comunismo internacional – suposição que sabemos por experiência de ex-comunistas como Osvaldo Peralva, Antônio Paim e Armênio Guedes e cá em Portugal, dois exilados por Salazar agora retornados com a desilusão pétrea.

Por fim, pelas sete e trinta da noite, o coral cantava para a gente do lugar. Tomamos então o caminho de Leiria.

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Published in: on maio 30, 2009 at 3:45 pm  Deixe um comentário  

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