Rumo a Leça do Balio

Porto, 18.11.1974, Segunda- feira   

Sigo, de trem, para O Porto, na estação de Santa Apolônia. Aguarda-me José Carlos na Ferroviária e, em seu carro, seguimos para velha Leça do Balio, hospedando-me em sua casa.

Por lá estivera, da ultima vez, mas ora percorremos toda a vila, pelo seu interior, o que me fez sentir-se em distritos de cidades da mata mineira. Há tanta semelhança entre os costumes de cá e lá!

Antiga fisionomia urbanística, vinda do passado até que a influência do estilo pombalino se impusesse, reduzindo o que era da Meia Idade. Hoje cruzamos o centro com o tráfico congestionado e tomamos o caminho de Leça do Balio.

Poderei então revê-la em madrugada fria, percorrê-la com mais vagar a fim de encontrar o gótico português do século XI, onde foi batizado o rei D. Fernando, o Formoso, que arruinou Portugal, porém causando a Revolução que levou ao trono o irmão bastardo D. João I. Grande figura a do Mestre de Avíz, patrocinador dos descobrimentos marítimos por ação de seu filho, infante D. Henrique, o Navegador.

Eis a maior etapa da história portuguesa em marcando com a coragem de seus filhos o rumo do progresso, conduzido pela Escola de Sagres, síntese de lusitanos, árabes e genoveses.

Hoje, o pequeno distrito de O Porto é o ponto de partida de avanço da portugalidade, inspirado na intuição do rei D. Diniz no preparar a infraestrutura das expedições.

Histórica fisionomia urbanística que nos acena dos sobrados, em geral trazendo o nome da família que atravessa a nossa história da colonização, da monocultura açucareira e do café, fazendo-nos herdar os sobrenomes portugueses e permitindo a miscigenação conhecida. 

Talvez a gente de hoje nada sinta porque as facilidades de comunicação mudaram, de forma profunda, os hábitos de simplicidade e compostura.

Ora estou na Casa da Cruz, em Lixa, em andar superior, sala ampla e confortável, com os irmãos e um tio idoso. A mesa está posta para o chá. Já me conheceram de outra visita e, dessa vez, percebo que a Revolução alterou os hábitos femininos em alguma coisa.

Até a adolescência integrava-me nos rumos da burguesia rural da Zona da Mata e após a chegada do carro, do radio, do telefone e do cinema, tanto o citadino, quanto cidadão do campo revelam-se diferentes do passado. Trata-se do ímpeto do desenvolvimento, do processo histórico e das variáveis desconhecidas.

Até onde? Não sabemos revelar as diferenças em década já de rumo traçado para uma espécie de universidade.

Mas há pormenores que nos tocam de perto, vinculados a modos diversos. O Rio de Janeiro fora uma espécie de O Porto ate o virar da mesa da crise do café como eu sentira da primeira vez que cá estivera.

Aqui na Casa da Cruz, sinto a participação mais viva das moças de Leça do Balio e as avaliações do movimento militar pendiam visivelmente para a esquerda. Há no momento certa perplexidade, mais chegada ao temor do comunismo.

Estou aqui a debater assuntos variados, menos os políticos. Há, no momento, divergências quanto aos rumos da Revolução e no Porto se sentem desconfianças.

Perguntam-me sobre o Brasil, sobre coisas que aqui chegam deformadas pela distância e falta de informações. Percebo que se sentem chocados com certas permissividades de nossas cidades grandes, mas que, cientes da vida no interior, aceitam-nas como usual modelo português.

Não importam os aspectos econômicos entre as duas situações, quer dizer, as diferenças de conforto e progresso material. Do mesmo modo, a gente cá do Porto alimenta certo prejuízo com referência às alfacinhas considerando-a uma cidade de menos trabalho e mais lazer, perdida em fúteis implicações. O trabalho é louvado como atividade daqui, dos tripeiros.

Sinto cá impressão de uma vida anterior do Rio, em circunstâncias de infância nos anos 30. O Rio dos cafés, de vida calma, quando nos sentávamos para o cafezinho na avenida, quando as mães acompanhavam as filhas aos bailes em casa de família.

Aqui as moças não gostam de liberdade ainda, apesar de em Lisboa se soltarem mais. Hoje, conheci pela tarde agradável toda Leça do Balio, sua igreja medieval próxima a casa de José Carlos.

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Published in: on maio 23, 2009 at 3:44 pm  Deixe um comentário  

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