Ainda em Lisboa

Lisboa, Domingo, 17.11.1974

O dia, belíssimo, permite-nos o giro vagaroso. Visão do Rocio, tudo tão calmo para rever o projeto do próprio Marquês de Pombal. Na praça, sóbria, setecentista, Largo do Passo, se respira, em seus pormenores, a vinda da Corte, a nobreza esbaforida e vacilações em torno de quem viria.

A controvérsia tornou-se desagradável, em vista de ser o regente seu figura de relevo ou outra qualquer personalidade que pudesse assumir o comando do Reino.

São certos locais que nos ligam às raízes europeias, um simples terreiro, que se punha também no portal de nossa esperança de coloniza-lo.

O Hotel Flórida está cheio de retornados. Fugiram da África. Um deles me fala sobre a situação de Angola, acrescentando o pior que poderá ocorrer em Moçambique.

Disponho-me mesmo a fazer o livro sobre a Revolução do Cravos. Tomo as minhas notas e busco os endereços dos advogados que se encontram por trás dos coroneis. Sigo para a Ordem dos Advogados a procurar Ângelo de Almeida Ribeiro e, juntos elaborar uma especie de roteiro, esboçando o projeto democrático para o país.

Caminhando pela cidade e por escritórios, tomamos as notas para que eu possa entrevistar as lideranças dos três movimentos em ação: liberais, socialistas e comunistas.

Há uma confusão entre todos aqueles que se uniam para mudar a situação, não se podendo encotrar um caminho para contornar a força do tradicionalismo atento e enrustido.

Quanto aos coroneis, que iniciaram e fixaram o regime social-democrático, a dificuldade em divergências advindas dos militares profissionais e dos procedentes das universidades, principalmente de Coimbra e Lisboa.

Até a hora do jantar eu já possuía um roteiro de contactos¸ observando a divisão na social-democracia, ora dominante, quanto à ideologia que impregnava as ideias de Mário Soares, confessando-se marxista.

Jantamos nas Portas de Santo Antão, onde me resolvi a dar um giro pelo Porto e adjacências, para uma prospecção do estado de coisas entre os conservadores, liberais puros e gente de direita.

No caminho para o hotel, observei que as ruas centrais estavam com um movimento muito limitado, porém, Ângelo me alertou de que era domingo e o pessoal militante devia estar nos teatros ou bares da Alta.

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Published in: on maio 16, 2009 at 3:42 pm  Deixe um comentário  

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