Agora, que fazer?

Lisboa, 16.11.1974. Sábado.

Estou no Hotel Flórida, na rua Duque de Palmela, entre o centro e a Praça Marquês de Pombal.

Cheguei, organizei-me e parti para a visita a Portugal dos Cravos. Nessa viagem contava com a companhia de Ana Elisa, mas houvera problema com Anita, minha filha, no mês anterior. Com o outono europeu que viera frio, preferiu aguardar até março ou abril do ano próximo a fim de rever Lisboa.

Meio dia e meia deveria passar pela Ordem dos Advogados e almoçar com Ângelo Ribeiro e dois colegas nas Portas de Santo Antão. O local proporcionaria encontrar-me Hannibal que chegará amanhã para um encontro e marcar data na primavera para a próxima reunião.

Desse modo, devíamos superar o impasse próximo, algemados pelo preceito do velho Antônio Carlos, em Minas, após deliberações condicionais: tudo combinado, nada resolvido.

Desci pela calçada à direita da Avenida da Liberdade, seguindo para o Rocio a fim de sentir as diferenças entre Portugal de Marcelo Caetano e o de agora. Dobro à esquerda, bem à entrada da 1º de Dezembro rumo à Praça D. Pedro IV.

Lisboa de outrora de hoje, exclamara Fernando Pessoa, cuja figura sempre nos acompanha em variações, inclusivamente em foto sua local ao seguir para o trabalho.

Lisboa antiga e Lisboa de hoje, as duas escondidas no passado, em seus traçados pombalinos. Cidade dividida entre a Alta e a Baixa, lembranças de barricadas e revoluções, incêndio, peste e maremoto.

O Marquês encontrou Sua Majestade, ao lado da Rainha, disposto a renunciar e aos choros. A figura de Pombal era carismática. Segurou o Rei pelo braço e o pôs de pé. Vejo-o carrancudo, dizendo ao Rei: Que é isso? Deixa comigo, vou reconstruir Lisboa até onde foi devastada. Primeiro item,vá para os seus aposentos que darei conta de toda essa súcia de cortesãos.

Traçam, então, no círculo de ruínas, as linhas do Setecentos: Augusta, Prata, Áurea, longas a correr para o Tejo. Reforma de Ensino, Expulsão dos Jesuítas, Verney já preparou as bases para mudar a face do bacharelismo e preparar cientistas em Coimbra.

Quase transcrevo as Memorie di Giovinezza e di Guerra, de Giuseppe Gorani, injustamente esquecido pelos historiadores portugueses e inteiramente ignorado pelos brasileiros. Creio que não o citam por falta de credibilidade. (ªMondadori, Milano, 1936 – Proprietà Letteraria Riservata)

No Portal da Praça do Comércio, meu lápis esboça o velho Paço. Bem na arcada, o sopro frio de novembro e o hálito de conspirações permanentes. Por fim, as velhas ameias do Castelo de São Jorge, sobre a cidade e tempos presente e passado.

Entro no centro sôfrego, meio dia de sábado. A Revolução provocou, de início, a perplexidade no terreno das informações. Os livros proibidos caíram de súbito em meio a curiosidade do século.

Espalham pelas calçadas, livros de todo o gênero, desde os proibidos até os modernos divulgadores da ciência e da tecnologia. As livrarias e os sebos enchem-se. Percebe-se o voraz manuseio de volumes de capas vermelhas, punhos levantados, desfiles populares. Quem se afoba, imagina que a revolução foi, de fato, a revolta de demônios. Porém havia triunfado e mostrava-se afoita na exibição do que se chamava moderno.

Mario Soares, que eu conhecera em livraria de Paris, é o feiticeiro que congrega antigos liberais e socialistas ruborizados.

Também o 25 de Abril, em forma documentária, apresenta-se rubro na exibição de soldados e tanques, a subirem a Rua da Glória, ostentando cravos a romper os grilhões de cor negra sobre o vermelho vivo.

Aliás, os grupos de esquerda não perdem a ocasião de especular sobre o novo destino. Jamais se fizeram revoluções sem sangue, são essas simplesmente golpes-de-estado.

Subindo pela Rua Garrett, encontramos próximo ao monumento a Camões grupos de jovens radicais de Mao Tse-Tung, denominada linha chinesa.

O retrato de Stalin inspirava àqueles estudantes a invocar exemplos surrealistas que outros dissidentes marxistas abominavam.

Literatura de cordel e opúsculos pornográficos irmanaram-se em sebos improvisados pelas esquinas. As mocinhas enrubescem, apertam os passos, as senhoras fazem o sinal da cruz. Os teatros de revista, antes tão pudicos, ora exageram.

O povão acorre às bilheterias próximas ao Tivoli Hotel a fim de desco

brir o mundo das novidades eróticas da Revolução dos Cravos que o moralismo exagerado de Salazar não suportava.

Os próprios títulos das peças de revista denunciam o estado de espírito do público ávido por chanchadas ou graças vulgares. Cinemas exibem películas jamais liberadas. Meio século de censura não permitira que se conhecessem o avant-garde do cinema francês dos anos trinta, as soviéticas dos clássicos dos vinte, nem, ao menos, o neo-realismo italiano do pós-guerra.

São os jovens, os acadêmicos que estimulam sexo e violência. No entanto, o que se vê e o que se sente naquele festival de novidades, é a atmosfera do passado, do tradicionalismo. É o Portugal que invoca a nostalgia, o sentimento que transpira dos Vencidos da Vida, daquela gente decepcionada como Antero de Quental, Eça de Queiroz e Oliveira Martins.

Vive-se o entusiasmo da novidade, como o tempo das Conferências do Cassino, mas o sentimento vem da força da portugalidade, reprimida, que começa a sentir outro tipo de opressão, disfarçada em elevar o País aos supostos exageros do progresso.

São os adolescentes que se atiram à tentativa de épater.

Não é difícil, porém, perceber que a rebeldia assusta àquela gente tradicionalista, na consciência puritana do Príncipe da Cidade e as Serras, do velho Eça já fatigado de utopias.

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Published in: on maio 9, 2009 at 4:40 pm  Deixe um comentário  
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