Paestum e Virgilio

Salerno, 4-4-1974- 4ª feira

Em despedida de Torraca, ao começar o dia, inquiri a Gennaro se o seu calhambeque passaria ileso por aquele monte de aldeias que se põe à leste de Campania. A resposta definia confiança da tranqüila personagem. Apontando o carro, redargüiu: Este guerreiro é infalível.

Esquecera-me de retornar a Salerno e receber meia centena de cópias que pedira à Irene, funcionária gentil do Arquivo Histórico.

De Torraca não iríamos seguir rumo a Salerno. Faríamos a ida e volta pelo sítio com meia centena de burgos. A área era quase urbanizada pela proximidade das aldeias. Diríamos de braços dados, apesar da autonomia administrativa.

Descíamos de quando em vez e víamos os arredores, as praças, as ruas que ficariam em minhas lembranças de forma embaralhada. Impossível refazê-las à noite, mas, de quando em vez, retornam aos meus sonhos de forma difusa.

Não houve qualquer dificuldade com relação às estradas ainda escassas de calçamento, servidas muitas vezes de paralelepípedos. Bem à hora do almoço, sentimos fome e a dona da casa de pasto nos acenou com carne de porco selvagem ou paca, em nosso idioma.

Era em Eboli, o que nos levou a conhecê-la. Já devíamos estar a meio caminho.

O burgo é pitoresca aldeia da Meia Idade, mantendo em sua Basilichetta di S. Pietro alli Marmi belas peças de arte religiosa. Próximo estava Castelcivita, em cuja colina se ergue torre de antigo castelo cercada de amontoado de sobrados seculares.

Urgia seguir para Salerno, mas a paisagem, os velhos burgos colados a ruínas de castelos, prendiam nossa atenção.

Meu estado de espírito ressentia-se de certa tristeza, amenizada pelo que via, pois dispunha a minha atenção em espécie de máquina fotográfica.

Cheguei ao Arquivo, encontrando Irene em suas pesquisas sobre os velhos tempos, cercada de livros e arquivos.  

Cumprira a promessa feita quando a conheci no próprio local de trabalho, entregando-me a pasta com todas as peças históricas que encontrara. Atendeu-me com a boa vontade paciente, além da ajuda aos papéis rasurados.

Sentei-me a seu lado, comentando que fora surpresa encontrar em Campania e em outras comunas, forte influência helênica permanecida na época atual, passados tantos séculos do domínio grego da região.

De volta, recebi suas considerações de especializada em Idade Média com a lição mais objetiva possível em interpretação histórica que envolvia setores do pensamento literário e filosófico.

Senti que havia profundidade em seus conhecimentos pelas citações de Rodolfo Mondolfo, bem expostas em toscano que preferi por tê-la dito que o entendia melhor. 

Durante a palestra indagou-me sobre o destino de milhares de filhos da província de Salerno no Brasil, quando da grande corrida para a América a partir dos anos setenta do Novecentos.
 
Dei-lhe a minha idéia, segundo a versão de fuga dos “anos sangrentos” na região meridional, todos assustados pela violência em torno do movimento de unidade, onde militara a brasileira Anita, esposa de Garibaldi.

O acaso e a necessidade juntaram-se no processo de obter-se mão de obra européia e asiática a fim suprir o mercado de trabalho de São Paulo e Minas Gerais. Os conflitos em Campania exacerbaram o desemprego e a expansão da produção cafeeira nos dois maiores estados brasileiros; fizeram com que os imigrantes se voltassem para a agricultura, de início, para, após alguns anos, buscarem os misteres industriais.

Desse modo, o Estado de São Paulo foi despertado pelo desenvolvimento econômico à medida que o imigrante italiano introduzisse a sua experiência além da labuta agrícola.

A segunda geração de imigrantes teve recursos para cursar ensino superior, do mesmo modo que as seguintes.
 
É inacreditável o preparo intelectual dos ítalo-brasileiros em São Paulo e no sul do País. No mesmo sentido ocorre com aqueles que se tornam empresários e profissionais liberais quanto às abordagens humanísticas.

Nossa despedida se deu com o compromisso de Irene pesquisar para mim na Faculdade de Medicina o que existia no tocante às minhas dúvidas.

Confundia-se em resultado de leituras, curiosidade a respeito de Maimônides, Ruigi e Robertus Mercadans.

Nossa volta a Nápoles dar-se-ia com novas surpresas que de quando em vez reapareciam em nosso cenário.

Lá só chegaríamos para o jantar e Gennaro ainda se pusera à minha disposição para a partida de amanhã.

Muito agradeci àquele napolitano, dizendo-lhe que se não fosse o Oceano Atlântico estaria sempre por ali, a conhecer os mistérios de Campania e Basilicata.

À sua pergunta sobre o que mais me impressionara na província, respondi de imediato que fora Paestum. Sem dúvida, antiga colônia grega, exibe ainda parte da muralha próxima à foz do rio Silaros, destacando-se a embocadura.

Ainda se mostram, de forma admirável, três templos gregos, dois dos quais, desafiando os séculos da supremacia helênica. O menor deles, o mais antigo, é o monumental períptero, considerado, de todos os pontos de vista, o mais perfeito exemplo da arquitetura dórica templária na península.

A atmosfera de todo esse sítio deixa-nos certos que os romanos ainda estavam muito distantes da arte, da literatura e da própria engenharia grega. Cinco séculos a esperarem pela suplantação e Virgílio, na era de Caio Júlio, desceu de Roma até o Golfo de Salerno a fim de inspirar-se, e perceber que seria necessário talvez a ditadura do império para nivelar-se à cultura grega.

Virgílio, soberanamente a alavanca do salto que procedia daquele respeito romano, convocava a intelligentsia do Império nas figuras de Teocritos na poesia, Cícero na oratória, Hesíodo, Horácio, e o próprio César com seu sucessor Otávio, o venerável, nome correto para dessacralizar o nome de Augusto.

A justificativa está em que Virgílio cantou as éclogas ainda em estado de fato e não ao que aspirava nos termos em que via o sistema democrático concebível na época.

Mas o sentido exato ao perfil do poeta está na intuição do cristianismo, mistério em si para o primeiro milênio e meio servir de símbolo ao que passara e lançando luz sobre tempos futuros.

Dante nos faz extrair de todo aquele trajeto, o sentido da vida na aceitação do castigo aos maus e sublimação aos bons e sinceros.  

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Published in: on maio 2, 2009 at 12:21 pm  Deixe um comentário  

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