Torraca, burgo medieval

 Torraca, 03.04.74, 3ª feira.

          Tenho o meu último dia do passado medieval. Amanhã estarei retornando, viajando no espaço a nove mil metros por hora e há quase dois mil anos do tempo.

          Mas posso orgulhar-me de estar cumprindo o imperativo existencial de ter visto com meus olhos as casas construídas nos modelos dos primeiros séculos do milênio.

          Com menos de mil e duzentos habitantes, as ruas tinham poucos metros de largura como Alfama em Lisboa e trechos em aldeias italianas e espanholas. No Rio de Janeiro há a Travessa do Ouvidor, outra delas destinada a sair pela extinta rua São Pedro.

          Mesmo no estilo colonial português, existem transversais que só permitem passagens de pessoas. Dir-se-iam becos, em nosso tempo motorizado.

          Após a chegada e instalar-me em velho sobrado, sentei-me junto à janela a ver o vazio em toda a extensão e pela manhã encontrei Gennaro, tomando o seu café com leite e mastigando o pão e queijo habitual. Este último explica, pela ração diária, o tipo parrudo do meridional de Campania.

          Necessário levar em conta que o burgo formou-se em plena Idade Média de modo solto e desordenado.O tumulto que se deu com a queda do Império Romano conduziu os mongóis à era dos caminhos terrestres e no curso de conflitos, os clãs isolavam-se por medidas de sobrevivência. Nesse estado de coisas, adviera o permanente conflito entre o nômade e o sedentário.

          Posteriormente os castelos feudais espalhavam-se e os burgos formavam-se, de início, pelos agricultores graças às necessidades de proteção recíproca e formas naturais de relações de produção.

          O burgo próximo ao castelo e ao senhor tornava-se um dom. Guerreiros na defesa do feudo, protegidos quanto às agressões imprevistas. As linhas defensivas exibiam-se em clãs, e a ofensiva, em outra forma, planejada pelo Barão ou Duque.

          Construído o Castelo, Torraca, naturalmente em menos de um século, tornou-se o burgo preso a sólidas muralhas. Séculos corridos, a comuna havia de constituir-se com sua burguesia já urbana.

          O primeiro dado que encontrei data do século dezesseis quando algumas dezenas de clãs subscrevem documento preservado.

          Na caminhada à Praça DD. Ruigi Mercadante, onde ficara o carro, andamos vagarosos, observados por pessoas, que já sabiam de nossa existência, mas com o ar simpático do interior de província, que acatavam o nosso discreto cumprimento de buon giorno.  

          Eis Torraca a que tanto aspirava conhecer, forcejando por identificar os locais onde os membros do clã habitavam. Certamente, os dados que recebera de meu pai não se deixavam reconhecer pela semelhança das moradas.

          Eram medievais, de pedra e tijolos vulcânicos, de grande resistência ao tempo. Não houvera mudança alguma da era de meus primeiros antepassados do Quatrocentos.

          Levamos hora e meia para chegar à Praça que me pareceu familiar. Não sei a razão por que assim me sentia com o centro e, estranhamente, cheguei à Igreja, de portão aberto à minha curiosidade.

          Gennaro amigo, disse-lhe: “Não mais preciso de sua amável companhia. Leva o carro à oficina e faça-lhe a revisão necessária para a volta. Às treze horas, hei de encontrá-lo aqui para o almoço e marcar a nossa partida”.

          Tão bem recebido pelo pároco, dei-lhe o meu sobrenome e muito comovido pegou-me pelo braço a fim de mostrar-me os sinais que ficaram no interior do templo em razão de reforma do final do século XIX, explicando que meu avô, Giuseppe Mercadante, em passagem por Torraca, participara com doação.

           Não faltara ajuda dos Galottis, Quercias, Magaldos, Brandis, Gaetanes, Fillizolas, Mercadantes e outros, que seguiram para o Brasil a partir dos anos cinqüenta.

          Pedi-lhe para ver os registros de nascimento, casamento e óbito, o que fez me levando à sacristia e esclarecendo que alguns livros tinham sido lesados por soldados franceses em ataque à comuna.

          Deu-me também as Memórias da Igreja, La Fede degli Avi Nostri, escrito pelo doutor Rocco Gaetani em 1906, a mesma edição que meu irmão Aluízio obtivera na década de cinqüenta, quando estudava Música em Roma.

          Passei a verificar em livro por livro os registros que posteriormente inseri em meu blog a fim de integrar a genealogia da família.

          Cumprindo horário combinado, despedi-me do sacerdote Giuseppe, que não completara quarenta anos e se mostrava tão comovido.

          Eis Torraca, pensei, quando percorri a Praça, lá me sentando diante da Igreja em voltas e mais voltas. Fixei-me, de modo renitente, que devia beber o vinho local e almoçar o que me apetecesse.

          Isso, esclareceu Gennaro, depende de informações, porque devem ser dezenas. Mas lá pelas duas horas, próximo ao Jardim, um torracano apontou-nos o bar-restaurante, onde Dona Maria desafiava qualquer florentina que aparecesse.

          Aquele era dia especial, refletia. Ali nasceram dezenas de antepassados. Do fim do Quatrocentos a 1856, tendo como base oito avós por geração, e tomando como tempo quase quatro séculos, o resultado seria trinta e dois avós, dezesseis por cônjuge.

          Eis o Castelo, despido de suas antigas defesas, quase em ruínas, com pedras espalhadas pelos arredores, convertido, após a derrubada das muralhas, parte remanescente em Orfanato.

          Que fazia eu naquela comuna, sem qualquer parente conhecido, mas certo de que fizera o ato a que há mais de trinta anos aspirava. Não estava à procura de fantasmas do passado, porém me levara o imperativo categórico a sentar-me naquele jardim, fixar em minha memória o conjunto de casas seculares, caminhar por aquela igreja simples, onde os meus avós foram batizados, casados e levados por seus próximos ao cemitério único da comuna.

          Não era a ação consciente por natureza, ainda menos subconsciente, ou mesmo instintiva, mas, como a sentia em minhas raízes existenciais, integrada como ordem de passado de milhares de anos, testemunhos em cada gene mental de um conjunto que individualiza cada ser humano.

          Posso, entretanto, reunir as razões para o conceito de uma determinação de genes cerebrais ou memes,  em complementaridade transcendental durante o trajeto hereditário das existências, que o cérebro humano não alcança.
 
          É preciso observar que existencial e culturalmente, tais genes especiais desempenham funções de não cogitar da existência ou não da alma, mas desempenhar o seu papel como os elétrons da energia.
 
          Que a Genética moderna, na linha de Richard Dawkins, Andrew Berry em sintonia com os discípulos de James Watson e Bryan Sykes, incorporem o exame desses genes sobrenaturais, eliminando de vez conceitos dicotômicos, tanto do corpo e alma quanto da partícula e onda na Física Moderna.

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Published in: on abril 18, 2009 at 3:39 pm  Deixe um comentário  

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