Sapri, velha comuna.

Sapri, 02.04.1974 – Segunda-feira.

          O encontro com o Mar Tirreno, diante de Sardenha, é próximo à Sicília! Passamos por dezenas de aldeias, ou as vimos a certa distância nas águas do Golfo de Policastro. Anotei-as, certo, porém, que aquele suposto desprezo era confirmação de não tê-las conhecido.

          Pisciotta, vista da estrada, chamou-me a atenção Pela harmonia dos sobrados que cobrem a colina, vendo-se o verde entre as casas de nosso interior mineiro. Já Agrópoli é  vistosa sobre a parte mais alta do panorama.

           Paestum, colônia grega a desafiar os séculos, que nos atrai; infelizmente tínhamos que chegar a Sapri por mudança de itinerário.

          Por fim, diria eu: a enseada serenamente em repouso no fundo do Golfo.

          Extensa reta marítima poderia levar-nos à Sardenha, local tático aos corsários da Meia Idade, onde se preparavam os desembarques para saques a Maratea e Sapri o que subentendia o rapto das jovens italianas.

          Por séculos e séculos, até a destruição de suas muralhas, o Castelo de Torraca servira de refúgio e defesa dos campesinos. Laços seculares de amizade prendiam os habitantes daquelas aldeias a ponto de no século XV, já exposto o castelo também a ataques, ligarem-se os clãs vizinhos a uma só família. Em verdade, também eram gêmeas, ao considerar os sobrenomes dos registros de batismos e casamentos.

          Bem! Deixamos o carro no centro histórico e próximo à praia, fizemos a refeição tardia, informando-nos sobre albergue seguro para dormir. Ao nosso redor, pequeno grupo de curiosos, gentis e no dialeto próprio aos limites com a Calábria, deu início à agradável palestra sobre a simplicidade e beleza da comuna. Meu relógio já marcava 21 horas e descontraídos pelo vinho da casa, saímos pela rua central para ver a arquitetura de alguns séculos.

          Da minha janela e do mapa que levara, esbocei no albergo todo o trajeto, ao retornar ao passado da adolescência a fim de ouvir muitas histórias de nossa família de cristãos novos.

          Não bastavam os corsários, os pequenos burgos da região foram vítimas de atrocidades de generais franceses de Bonaparte, visando naturalmente a saques de obras de arte, como ocorreu em Torraca, onde a própria Igreja foi incendiada no começo do Novecentos com o assassinato de jovem grávida que não conseguira fugir.

          Bonaparte estava dividido entre italiano e francês. Benito Mussolini, por conseguinte, inspirou-se em suas posturas, ainda que de modo ridículo. Milhares de peças, porém, de procedência grega e siciliana, hoje permanecem no Louvre.

          Hospedado, percorrida com Gennaro todo o centro, imaginei o que fora o Tirreno antes da tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, avaliando a variável para o entendimento do declínio do sul em face do deslocamento das rotas para o Atlântico, bem como do desempenho do périplo africano pelos portugueses, traçado pelos navegantes na descoberta das Índias.

          Afinal aquilo também significara a ascensão inglesa no mundo político e a submissão espanhola ao Santo Ofício.

          Estava o novo rumo traçado até o Século XX, quando os bretões passaram aos norte-americanos a hegemonia das iniciativas. Max Weber seria o intérprete correto no exame da ética protestante e do espírito do capitalismo.Salva-nos da dúvida comum quanto ao desenvolvimento dos países que seguiram os luteranos na Reforma.

          O comunismo no Brasil, dirigido por funcionários do Cominterno, sempre se aborrecia quando Caio Prado Junior dava pequeno passo a Ratzel em seu conceito de    também tomar o fator geográfico como elemento da dinâmica histórica. Uma posição culturalista nos anos quarenta quando a dicotomia marxista dominava.

          A ortodoxia de um Manuilski adotara a suposta ciência do leninismo ao só considerar o fator econômico como infra-estrutura dos acontecimentos.

          Sivolov, seu intérprete e jamais eminência parda, não lia sequer o português, guiando-se por publicações argentinas, e partindo do pressuposto de que as condições subjetivas e objetivas seriam no Brasil iguais às da China.

          Com relação ao Tirreno, sua importância até o começo da Idade Moderna, gerara a prosperidade desde o Mediterrâneo até Gênova e centros de seu golfo.A região toscana seria a dinâmica de todo o processo ulterior, apesar de Roma. Apenas o poder papal se sobrepunha envolver-se nesse quadro.

          Não se pode subestimar a importância dos recursos e habilidades de Gênova para amenizar a política turca. Porém a Inglaterra e Holanda reduziram as rédeas antigas do Mediterrâneo, tanto ibéricas quanto africanas, permitindo a estagnação dos árabes.

          Do meu ponto de vista, havia pendente minha reflexão histórica. Que importavam todas essas contingências e quanto realmente pesaram nos dias de hoje. Sapri nesses anos setenta do Século XX, prossegue na mesma rota.

          Seus filhos, do mesmo modo que os de Torraca, perderam, em outros países, a nacionalidade, não mais sabem os nomes dos antepassados. Apenas o sobrenome é o indício que aos poucos também se esvai.Venha o novo carimbo do DNA no mundo orweliano.

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Published in: on abril 11, 2009 at 2:35 pm  Deixe um comentário  

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