O alvo da obrigação

Salerno, Amalfi e Ravello, 1º de abril de 1974

          Deixo a cidade com a frustração de não tê-la melhor conhecida. O motorista  chegou mais cedo do que eu esperava, de modo que me apressei nos preparativos para seguir o meu destino.

          Despedi-me das moças que serviam os hóspedes no café da manhã, três criaturas agradáveis, bem vestidas em uniformes brancos.
 
          No carro expliquei a Gennaro que gostaria de antes do caminho para Sapri, me levasse a Marechiaro, inspirado pela fenestella na infância quando minha tia bisavó, sempre a cuidar-me, cantava em napolitano os clássicos populares, entre os quais a composição de Salvatore de Giacomo.

          Ofélia Rosante foi como segunda mãe, em período longo de enfermidade materna.

          Devo-lhe mais: o proferir da primeira palavra em italiano, uccello, e ouvi-la nos primeiros versos:

quando sponta la luna a Marechiare
se revoteno ll’onne de lu mare.

          Por aqueles sítios permanecemos quase duas horas, estendendo-nos até Pozzuoli, anfiteatro romano, edificado na era de Vespasiano, e o Vesúvio, distante, a observar-nos ameaçadoramente silencioso.

          Giramos por todo o espaço possível para ver Arco Felice, Cuma, onde no Castelo D’Ischia, Vittoria Colonna residiu casada com Ferdinando d’Avalos.

          Chamei atenção de Gennaro, quando sugeriu que visse o Vesúvio de certo ângulo. Respondi pela nossa ida, tão fascinado já estava. Também se não fosse o meu plano, iria até Ercolano.

          Quando próximo ao Golfo de Salerno, passamos pela cidade nova a menos de quarenta quilômetros a hora, porque os palácios sucediam-se, quase na mesma altura, em variações solenes, sendo o mais formoso o Palazzo del Comune com a vista do litoral enquanto exibia Lungomare Trieste que reúne edifícios públicos e privados até alcançarmos Duomo. A mesma simetria por longa avenida até o Liceu Torquato Tasso. Paramos diante e, por fim, surgia o Stadio Littorio.

          No que diz respeito ao Duomo, átrio e campanile, deixamos o carro para de perto observar os sarcófagos e o campanário ou torre de sinos do século XII. De obras artísticas da Meia Idade, tínhamos duas dúzias no mínimo.

          Mas fugia a nosso fim ver toda aquela riqueza e devíamos fazer rápida refeição para prosseguir. Na verdade, não fomos a Torre del Greco, e Basilicata nos prenderia algum tempo, sendo Campania o objetivo.

          Não há, na vida, cotidiana ou existencial, certeza quanto a programa e previsão de tempo. As certezas jamais existiram e tiveram o final melancólico ao lado do mito da causalidade. A incerteza, sim, é a verdade oculta.

          No entanto, seria incompreensível ignorar Ravello. Na colônia italiana de Carangola, os meridionais sobre Ravello descreviam as maravilhas da cidade, La Grotta de Amalfi, por exemplo, pelos reflexos do sol por meio das ondas do mar. Obras também do Tirreno: extravagantes, diria. A outra preciosidade, gótica em suas arcadas, era o Palazzo Cimbrone, espetacular pelo mirante. Ostentava-se o Duomo com trabalhos do século XIII.

          Disse, então, ao meu já amigo:  “quero cá ficar porque não sou de ferro”.  Quanto ao Palazzo Rufolo, onde Wagner idealizou o sonho do jardim mágico de Klingsor, só foi possível acariciar as barras do portal em fachada gótica.

          Vamos procurar um restaurante, girar pelo sítio, e buscar um hotel para amanhã chegar a Viggiano, decidi de vez, porque a sobretarde nos intimava.

          De sobejo, seguimos para Basilicata em espécie de recuo, mas confesso que nada vi senão a noite de estrelas da janela do Hotel.

          O carro logo parou diante da casa da família de Gennaro. Aquela festa. O bruto lá não aparecia há dois anos e tanto a mãe quanto o pai nem quiseram saber quem era aquele estranho que levara o seu filho ao lar paterno.

          Após saber que eu era ítalo-brasileiro, em razão do sobrenome logo expresso, deu-nos, de imediato, pane e vino. E, em silêncio, fixei a minha atenção na alegria da família, de outros que apareceram, creio que vizinhos, enquanto um jovem indagava-me sobre Pelé e Garrincha, mandando-lhes um abraço que nunca tive a oportunidade de cumprir.

          Na manhã seguinte, em rápido passeio pelas ruas centrais da cidade, deixamo-la com todos à porta, dando-nos adeus.

          O trajeto até o Golfo de Policastro, na costa de Cilento, me mostraria quatro séculos e meio de panorama, visto com freqüência pelos meus antepassados. Diria que percorrido por quase vinte gerações. Até Sapri, hoje porto turístico, limite com a Calábria ponta da bota da península.

          Calei-me por muito tempo a refletir sobre o que fora o clã espanhol perseguido, de raízes semíticas, já converso ao cristianismo desde a Disputa de Tortosa no começo do Quatrocentos.

          Mas a viagem dera-me a oportunidade de sentir pelo que vira, o espírito grego transpondo todas as barreiras a fim de inspirar os artistas, a ponto de esculturas, palácios e igrejas tornarem-se modelos para cópias romanas.

          Ora, Roma em formação nos séculos IV e V antes de Cristo inspirava-se nos gregos. Os intelectuais e patrícios dominavam o idioma, leram as produções filosóficas e científicas das escolas iniciadas por Mileto e concluídas por Aristóteles como se saboreassem a maçã da sabedoria.

          Depois, criando a sua jurisprudência, soube o grego avaliar os pontos frágeis do helenismo a fugir do pragmatismo, a alimentar preconceitos quanto à ciência e não saber avaliar a importância de forças guerreiras tanto defensivas quanto ofensivas. Enfim, sabia sutilizar todas as artes e religião, levando ao trono da estética o poder do belo.

          Quanto aos romanos rústicos da República elegeram a Ética da finalidade, caminhando cautelosamente para o instante do Império, por fim, criar em seus políticos a energia da guerra.

          Convenhamos que jamais desprezaram a cultura grega, tornando-a a utopia dos poderosos como Julio César, Augusto, Adriano e Marco Aurélio.

          Roma jamais foi destruída, apenas trocou a sua bravura por Constantinopla, realizando o sonho de alcançar a Idade Moderna. Deixou-nos o Direito e a Engenharia, Justiniano e o Cesarismo, os Juízes e os Generais.   

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Published in: on abril 4, 2009 at 4:10 pm  Deixe um comentário  

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