Partida de Nápoles

Napoli, 31.3.1974. Domingo.

          O número de primos de meu clã, distribuídos pelo planeta, pode ser considerado inexpressivo, se levarmos em conta sua história. Em pesquisas, calculo que na Itália tenha de mil e quinhentos a dois mil nomes identificados.

          Dos anos sangrentos em Campania, no meado do Novecentos, até hoje, os Mercadantes no Brasil ultrapassam oitocentos, igualando-se aos residentes nos Estados Unidos. No restante do mundo, considerando Argentina, França, Suíça, Austrália, Canadá Alemanha e outros, não se atingem duzentos identificados.

          Deixei o Hotel e segui Para o Museu onde poderia passar a manhã e apreciar os bustos. Ao local de ontem, detive-me outra vez diante de L’Ercule Farnese, de pé, vitorioso, mas fatigado a ponto de revelar-se triste e solitário. A autoria é do ateniense Glycon e parece não ter sido cópia romana, creio.

          O estilo está distante dos gênios do Renascimento, sem a leveza florentina. Impressiona o seu porte, os músculos aparecem como nos trabalhos clássicos, porém sem a espiritualidade do Seiscentismo.

          No vaso de Gaeta, greco-romano, exibe-se em relevo o nascimento de Dioniso; é belo e parece trabalho de nosso tempo.

          Cheguei ao Toro Farnese, que ontem vira e me parecera barroco em seu tema dramático da punição de Dirce. A informação gravada diz respeito à natureza de sua relaboração por copista romano para as Termas de Caracala em Roma.  Confunde-nos a cabeça o exagero, que não traz o selo helênico.

          Amazzone morta tem a marca de dias atuais, quando pela manhã, em nosso café, abrimos o matutino e vemos o crime da véspera. Trata-se de cópia romana. Falta em seu corpo ou em qualquer complexo estatuário, e exibe a contradição, no campo estético, entre a postura superior do corpo e formas másculas das pernas.

          Dou mais alguns passos e vejo Venere Callipige. Trata-se de beleza grega em sua espiritualidade. Seus gestos são de dançarina, as vestes sumárias dão relevo ao seio exposto.

          Passamos à sala dos bustos. Primeiramente, Dioniso, como Miguel Ângelo o faria, do mesmo modo que outro, o de Berenice, rosto fascinante, encontrado em Ercolano, mas naturalmente trabalho autêntico de um grego.

          De corpo inteiro vejo Fauno Danzante, satânico, helênico no movimento dos braços, como Raul de Leoni o teria considerado, pois possivelmente o viu quando diplomata na Grécia. Estão em seus versos as conjugações da estética em sua nostalgia de poeta.

          Passo aos bustos propriamente que me marcavam a memória. O primeiro deles, ator Caio Sorice em uma de suas representações. Admito que não haja persona (máscara) em sua maneira de olhar. Autenticidade, diria, na exibição da personagem. Creio, porque nada li até hoje que os gregos usassem qualquer máscara.

          Lucio Gioconda, um banqueiro, mostrando ao visitante atônito a introspecção natural daquele que examina quem lhe vai pedir empréstimo.

          Eis o vencedor de Annibale com sua expressão militar, apesar de político militante. Scipione l’Africano. Nada a dizer, pois jamais entendi o cartaginês e suas razões.

          Digo que jamais vi expressão tão profunda de Caio Julio César do que essa. Autor desconhecido, mas nos faz supor que o tivera de perto.

          Belíssimo o busto de Homero cego, trabalho provavelmente produzido pelo escultor grego. Não havia informação na inscrição do Museu.

          Cesso, outra vez, minha caminhada, adiando a visita em outra vinda da Sala degli Arazzi.

           Saio para o almoço com o motorista que me levará a longo passeio e por sorte natural de Basilicata e conhecedor dos caminhos até Sapri. À tarde, prosseguirei no perambular sem sentido, olhando as ruínas de Napoli e o longo subterrâneo de seus mistérios e lendas.

          O que não seria possível, pensei, seria não ver Catacombe de S.Gennaro, o que fiz já pelas três horas da tarde. Obra iniciada no século II e só mesmo concluída no princípio do V. O espantoso é que meu motorista chamava-se Gennaro e comigo foi conhecê-lo, circunstância que ouvi seu plano de atingir a rota a que aspirava transitar.

          Tive de ouvir a sua versão católica em pormenores daquele misticismo pouco respeitoso do italiano meridional. Dessa forma, tratava o homônimo com a mesma falta de respeito aos santos de sua preferência e ao próprio sacerdote a quem confessava os seus pecados.

          Necessariamente, tinha de passar pelo Conservatório que mantém o museu dos grandes músicos italianos e especialmente napolitanos.

          Lá cheguei de carro com Gennaro pedindo-lhe que tratasse de tomar as providências para amanhã cedo, pelas sete horas e seguirmos em nossa jornada.

          Ao Conservatório localizei os arquivos com bibliografia organizada e material que precisava consultar, lá permanecendo até fecharem-se as portas. À noite, era jantar e voltar ao Hotel para os telefonemas.

          Hannibal estava à minha espera. Saíra de Milão para comigo discutir e marcarmos o próximo encontro de nossa Ordem a fim de examinar as teses, pois cópias já estavam em suas mãos. Eu as receberia e passaria a estudá-las.

          Agradável o encontro, análise da conjuntura e andamos até meia noite pelas ruas movimentadas do centro. Por fim, despedimo-nos com o abraço meridional.

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Published in: on março 28, 2009 at 2:50 pm  Deixe um comentário  

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