Nápoles Artística

Nápoles, 30.03.1974,Sábado

         Da janela de meu quarto no Hotel, podia ver o panorama de bairro da classe média pelo aspecto das casas, de modo geral, bem cuidadas.

         Estou a duzentos metros do Orto, que pelo seu aspecto, é da mesma época do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, fundado pelo Regente D. João em sua vinda para o Brasil em 1808.

         Após o café da manhã, caminhei em sua direção e lá, como tantas vezes no Rio, cheguei ao verde, às árvores de toda a espécie e idade. O de Nápoles, quem o mandou implantar foi Giuseppe Bonaparte que desempenhou a intervenção dominadora de Napoleão em toda a província italiana.

         A obra é de Michele Tenore que em dez anos plantou naquele espaço as plantas entre as mais variadas, inclusivamente as das regiões tropicais.

         Girara por lá, naquele verde exuberante, quase me curvando diante de dezenas de pau-brasil, além das amendoeiras. O conjunto daquelas, provenientes dos Alpes, cobre a maior parte do horto florestal.

         Voltei ao Hotel para saber de algum telefonema que deveria ter chegado hora antes.

         Tranqüilizado, tomei o táxi, pedindo ao motorista que devagar percorresse o extenso trajeto da Piazza Carlo III com L’Albergo dei Poveri para alcançar Duomo que me fez lembrar S. Maria Novella de Florença.

         Parei logo depois na Piazza Garibaldi, nosso heroi pela bravura e carinho ao Brasil, com o seu monumento central da praça.

         Não senti, todavia, orgulho napolitano da Estação, ali próxima, pois o projeto é de outro estilo que o existente. Não que seja feio, mas diverso, o que quebra a unidade urbanística.

         Eis agora a flanar, sem destino, à procura de outra Igreja, a da SS.Annunziata;  em seu interior, do século dezesseis, apresenta-se com algumas dezenas de colunas trabalhadas em mármore. Belas como as florentinas da Renascença.

         Ao rodar, desse modo, por dezenas de Igrejas, que me permitiram esquecê-las. Mas entre tantos templos, seria impossível apagar S.Filippo Neri. Em seu interior, as obras de arte expandem-se e pelas três naves com trabalhos de Luca Giordano, afrescos de Francesco Solimena e Marcantonio Ferrara.

         Aquela que mais nos impressiona é a Cacciata dei profanatori del tempio, afresco do já citado Giordano. Apesar de produzidas no século XVII, lembram a fase final do barroco naquela linha precursora de Guirlandaio, em fase da puberdade de Miguel Ângelo, seu discípulo. Amigos de Lourenço, o Magnífico, aquele manteve a amizade do florescer de Florença.
 
         Sinto que urge cessar minha giornata para não confundir as futuras lembranças da arte napolitana.
 
         Mas não podia subestimar o Museo Nazionali di Napoli em razão das coleções arqueológicas. O edifico data do final do século dezesseis. Conserva, para nossa surpresa, reunidos os trabalhos de Pompéia e Herculano, retirados, especialmente, as de bronze e mármore, de suas cinzas vulcânicas.

         Não continuemos, decidi, firmando-me que voltaria a Nápoles tantas vezes quanto necessárias para decorar aquele tesouro. Não crendo no que via, me deparei com Artemide di Pompei, figura grega arcaica que não admite senão exclamações. 
 
         A mais sorridente expressão de ingenuidade foi produto do V século a.C. Uma jovem sorridente, de perfil que sempre encantará a posteridade.

         Sem dúvida, não sei por que motivo, veio-me à lembrança o sorriso de Mona Lisa, mais aberto, mas com certa ironia disfarçada. Da Vinci teria visto aquela face de jovem, busto e braços de deusa, bela e elegante, com os pés levemente descobertos. As vestes, expostas para disfaçar a fausse maigre e as saias bordadas como no estilo do Renascimento em figuras femininas. Inclusivamente Pietà.

         Vinham toda aquela beleza e ingenuidade de expressão do século V a.C., além do modo descontraído de andar como se viesse ao encontro do amado.

         Já a graça do movimento sofisticado, como charmes atuais, estava outra figura – Afrodite di Capua a reproduzir a síntese helênico-românica. Trata-se de cópia, na verdade do estilo grego, mas produzido pelo fascínio da Grécia.

         Cheguei à Galleria Dell Ercule e del Toro Farnese, sala  vastíssima ao nível das do Louvre e Londres, todas expondo enormes esculturas, filhas da neoarte helênica.

         Afrodite di Capua destaca-se em razão do jogo de movimento dos braços divinos, deixando verem-se os seios desnudos. Também cópia romana, porém fiel e também a destinando aos gênios futuros do século dezesseis.

         Com relação a um tipo perfeito de torso, próximo está la Psyche di Capua, a exibir o torso, o forte do feminino humano, mas não inigualável como Afrodite di Capua. Creio eu que o sentido da coisa, captado pelo sentimento, esteja no sádico do homem, se certa a Força repressora reprimida pelas ligações infantis.

         A estátua é ainda cópia della Venere di Milo, originária, possivelmente, de Cápua.

         Não há mais tempo, pensando no avanço da tarde e em outros compromissos. Cá estarei de volta para prosseguir na observação do sentimento romano para a arte grega ainda que imitativa.

         Sempre vi no sadismo romano certa força impulsiva de mostrar-se ao nível grego. Favorecido pelo pragmatismo e cego pelo domínio do mundo de então, o reconhecimento da superioridade helênica não o irritava, mas não era aceito em termos de estética dominadora. Mas não podia calar-se, os intelectuais falavam o idioma helênico, imitavam a criatividade dos filósofos, poetas, mas não trocavam aquela superioridade grega por sua engenharia, por seu militarismo, por sua jurisprudência de ferro.

         Estarei de volta, em certo dia da vida, a fim de prosseguir no deslumbrante espetáculo que observava. Deixei o museu para um garrafão de vinho chianti, porque precisaria sonhar com aquelas figuras expostas ao meu tempo.

         Havia levado o propósito de encontrar na Lista Telefônica todos os primos paternos residentes na cidade. Dos ramos familiares pelos nomes encontrados, parecia que a maior parte não integrava os expulsos da Espanha no final do Quatrocentos.

         Eram mais de oitenta nomes, mas fiz a escolha por profissão, quando possível, e das oito às l0 da noite falei a doze distantes parentes. Não recebi senão boa acolhida e convites, pedindo-me informações sobre os Mercadantes no Brasil e Argentina.

         Com meu sotaque paterno, mistura de Campania com a vizinha Calábria, era tratado como genovês, pois o lusitano intrometera-se nos dialetos falados.

         Mas quando a conversação chegava ao ramo dos Mercadantes de Curtis, abria-me solenemente em toscano ou italiano. Aí as coisas entravam no eixo das compreensões.

         Infelizmente, não havia tempo que me levasse a fazer buscas. Nas Igrejas de Torraca e Sapri, encontraria as origens do clã. Precisava fixar-me no ramo brasileiro a fim de unir os primos dispersos em Minas e São Paulo.

         Iniciarei as buscas a partir da chamada solução final imposta aos reis católicos pelo Santo Ofício. Eram-me necessárias informações sobre os primeiros chegados da Espanha, seus nomes e contava com o destino para que tal objetivo não se perdesse em curiosidade de infância.

Anúncios
Published in: on março 21, 2009 at 3:11 pm  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://pmercadante.wordpress.com/2009/03/21/napoles-artistica/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: