O Mistério Napolitano

Nápoles, 29.3.1974. Sexta-feira

          Súbita chamada a Milão para duas reuniões importantes: assunto de interesse de cliente do escritório. Dois dias que me tomaram o tempo praticamente integral, porém permitindo que fizesse uma visita corrida a Nápoles, que aspirava a conhecer desde a minha adolescência. Se possível desceria até os limites de Campania, em Sapri.

          Meu pai muito dizia a respeito da região, onde estivera com meu avô em começo do Século XX. Era criança, mas lhe ficaram na memória muitas e muitas lembranças que me faziam, em esforço perdido, trazer à consciência alguma noção da realidade.

          Cheguei e diretamente parti ao encontro de alguns colegas advogados, que de mim tomaram as horas de lazer. Porém tão produtivo aquele encontro e nossos debates giravam em torno do contrato que redigíamos. Estou quase certo de que do direito italiano extraí certa ondulação filosófica relativa à antinomia das expressões jurídicas pacta sunt servanda e rebus sic stantibus.

          Nos anos sessenta, como advogado de alguns empreiteiros, eu contribuíra com algumas sugestões a propósito de uma fórmula matemática que facilitasse a complementaridade entre a subida dos preços em função da inflação assustadora.

          Eu me armara das considerações de Pontes de Miranda e rebatia brilhantes pontos de vista dos advogados italianos que só conheciam Pontes por citações. No final do primeiro dia certifiquei-me da adequação do princípio da Física sobre complementaridade a fim de liquidar a dicotomia e inovar a cláusula em exame.

          Tratava-se do complicador na equivalência entre a elevação do custo de materiais e os valores contratuais.

          Não dormi à noite, mas por leitura dinâmica chequei as observações dos colegas, revendo as duas visões do direito italiano em Giovanni Pacchioni e Giuseppe Mirabelli, cujos exemplares o dr. Marco Antônio me emprestou.

          Voltando a Nápoles, a conexão em Roma lá me levou na manhã do terceiro dia de estada. Apenas uma vez, por meia hora visitei Duomo, interessando-me pela cadeira a servir de trono a que recorreu Bonaparte em seu autoritário convite ao Papa. Mesmo assim pouco aprendi, porque o sacerdote que lá estava a protegê-la, pouco conhecia de pormenores a respeito.

           Em Roma tive sorte de embarcar de imediato e ainda melhor conseguir acomodar-me em hotel onde por telefone Hannibal me sugerira por tê-lo hospedado várias vezes.

           Napoli, il golfo, La Província, cá chegara, do avião vi em vôo a sua fascinante beleza, ao centro de paisagem de harmonia entre as águas do Tirreno e o panorama terrestre. Era tarde de sol sob o fundo de Posillipo com Nisida, do promontório de Miseno e das ilhas de Procida.

           À noite, iniciei a caminhada a partir do que teriam visto meus avós e meu pai. Buscar e extrair das lembranças o que o também disseram em roda do Café Cavalinho, Carangola, minha terra querida. Tão difícil pesquisar o passado e colorir os quadros de cada sítio, a fachada dos palácios, os jardins e suas esculturas.

           Estava a perambular, procurando guardar os nomes das ruas e das praças, as primeiras que me fizeram sentar-se para um café no centro econômico da cidade. Pura coincidência, a cinqüenta metros de meu albergo.

          Piazza della Borsa e Rettifilo. Próximo à primeira, a Fontana Del Nettuno, de Domenico Fontana, trabalho do Seiscentismo em seu começo. Estava na ampla avenida Umberto I que nos leva à Estação Central. Fui devagar caminhando, observando o seu traçado e as pessoas que, como eu, seguiam descontraídas.

          Não via pressa naqueles napolitanos. Todos pareciam músicos e poetas, o que me fazia confirmar a letra do “sol é meu”. Que bela coisa! Um passeio tal. O clima é sereno, após a tempestade.

          Via que chegara à Santa Maria la Nova. Nela segui em risco a fim de ver as esculturas que ora em nichos, ora isoladas, encantavam a direita e a esquerda das naves. Era também o templo de mil e seiscentos. Estilo romano já com traços do Renascimento. A nave central apresentava-se vazia, sem bancos, o que fazia exibir o altar-mor simples, porém atraindo a nossa atenção à imponência do arco maior de entrada.

           Deixando-a, continuei a peregrinação até a via Università, onde me senti outra vez fatigado e pronto para o jantar.

 Mas não olhava o relógio, o tempo se tornara por si mesmo a nova impressão para mim, de perdido no mundo.

          Tão próximo senti que me encontrava diante do Palazzo Cuomo ou Museo Filangieri. Não podia deixar de vê-lo, porque algum sinal do passado me tocou os neurônios.Alguém de minha família, talvez meu irmão Aluízio, lá estivera e comentara. E dois trabalhos me chamaram a atenção sem saber se lera algo ou outro motivo. Madonna col Bambino, de Luini e o Retratto  do filósofo Gaetano Filangieri, de Morelli.

           Eis que me voltou velha lembrança de quem primeiro me tocou na obra e seu autor.Nada menos que Funchal Garcia, meu tio avô, acadêmico, que já na velhice correra quase toda a Itália, discorrendo, com sua memória impressionante, centenas de trabalhos clássicos de escultura e pintura. 

           Madonna col Bambino é suavemente belo e carrega certa candura que nos faz lembrar Tintoreto, creio que trazida pelas expressões de Maria e a religiosa que integra o equilíbrio por sua posição de sagrado silêncio, enquanto Jesus, criança de colo, comunica-se amigável.

           No Hotel havia consultado volume precioso sobre Campânia, adquirido em sebo de Milão, e bati em foto da Piazza Del Mercato, onde no Seiscentos eclodiu a revolução dirigida por Masaniello. Segundo Informação de um senhor, era o local de bons restaurantes e centro histórico que merecia ser visto.

           Não mais deixei o local naquela sobretarde e noite soberba entre dois chafarizes e pelo norte a Igreja de Santa Cruz , ainda de estilo românico, mas então com as portas cerradas. 

           Segui para aquele destino e senti na atmosfera que era ponto de boemia, não banal, porém sofisticada pelo modo de vestir do transeunte.

           Tão ampla e clássica que me fez pensar que por ali havia muitos primos distantes do lado paterno que não emigrou como registra o catálogo telefônico.

          Realmente sugestiva, a Porta Nolana, sobrevivente da velha muralha medieval, a apresentar o seu arco entre duas torres, exibindo na parte superior três brasões do Quatrocentos com a estátua de Ferdinando I de Aragão em seu corcel.

          Confesso que o cansaço já ordenava que voltasse ao Hotel e dormisse, pois os fusos ainda permitiam que telefonasse para o Brasil com notícias para a família e meus clientes.

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Published in: on março 14, 2009 at 3:23 pm  Deixe um comentário  

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