O curso das caravelas

Atlântico, 02.03.1974.Sábado

          Hoje, a quinze minutos da meia-noite, o aparelho decola e agita-se no espaço.Limito-me a prender o cinto de segurança e sentir consciência de meu real retorno.

          A propósito, a demonstração tem início. Os indiferentes olham sem memorizar a providência necessária aos momentos críticos. Salva-se, entretanto, o show-off da aeromoça que executa a dança sinistra da morte, de instantes curtos e definitivos.

          O jeito da criatura, sempre adornada de sorriso artificial, introduz no desempenho do vôo o tom estetizante de inesquecível inutilidade.

          Há outros pormenores marcantes que se repetem. Digamos do formalismo daquele passageiro que se prende ao ritual da tripulação. Diga-se o culto da viagem, com a presença de sacerdotes e vestais.

          O Comandante fala a seus subordinados e omite o imprevisível em termos de altitudes e horas. De imediato, os passageiros prendem-se por cinto supostamente salvador e são levados em altura também comunicada.

          As aeromoças sentaram-se, uma delas abre uma revista para exibir aos assustados a confiança que se deve depositar naquele pássaro.

          Não há outro aviso senão o que ocorrerá em nove horas seguintes. Jamais se cogita do que está oculto, ou seja, o princípio da incerteza.

          Após a subida a dez mil metros, as luzes apagam-se para a relaxação.

          Algumas pessoas levantam-se e decidem conferir a bagagem, sorrindo ao vizinho que responde ao pedido de desculpas com aprovação e sinal da cabeça.

           O vôo de cruzeiro desperta personalidade não definida, socorre o sistema neurovegetativo das criaturas solidárias.Todo o templo é percorrido pelas moças que se levantaram, com brindes em geral aceitos. 

          “O que o Sr. deseja tomar”, é repetida de cadeira em cadeira, demonstrando que não haveria discriminação”.

          O vôo de cruzeiro é como benção para os assustados.O altar foi abordado e cada qual escolhe o líquido: a água purificadora, cerveja ou outra solução alcoólica.

          Iniciam-se os pedidos.O Comandante prossegue em sua rota, como os portugueses e espanhóis das caravelas. Em breve, virá o cardápio com os pratos, escrito em francês para colorido da elegância. Alguns passageiros solicitam coisas excêntricas: remédios, em geral analgésicos.

          As aeromoças são lépidas e ligeiras. Caminham no espaço com graça e eficiência.

          Então, é hora do jantar. Ele apresenta-se com aspecto elegante. Em bandeja, a parafernália é posta convencionalmente, há guardanapos, talheres diferenciados, copos e xícaras, sobressaindo o vinho tinto.

          Para mim apresenta-se como o preparo ao dia, que se faz pela manhã, antes ou depois do banho. Nunca imaginamos que possa esse desempenho ser o último da vida. Como exposto por James Joyce: Introibo ad altare dei.

          O Comandante está por demais ocupado com a rota, com a turbulência próxima e com o enorme vazio que circunda o planeta. Hoje, o aparelho agita-se no espaço da madrugada. Sente-se o desejo de chegar e consulta-se o relógio.

          Dorme-se, afinal, e, em certo momento, agora pela janela, vislumbramos a chegada do sol que clareia os rostos fatigados. O sono comprimiu o tempo, eliminou o correr das horas, que ajudado pelos fusos, apressaram a manhã. Devíamos, afinal, atrasar em nosso relógio as horas que se haviam adiantado para o além-mar.

          Só então pensamos nos navegantes do Quatrocentos a partir dos chineses, espanhóis e portugueses. Já voávamos sobre a costa nordestina, urgia acertar o relógio, voltar os seus ponteiros e perceber que voltávamos algumas horas do futuro passado.

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Published in: on março 7, 2009 at 3:45 pm  Deixe um comentário  

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