Cintra e o Paço Real

Cintra,1-3-1974 – 6ª feira.

Chegamos cedo, após a transferência para o Hotel Mundial, talvez pelas sete e meia da manhã. Creio que me tornei seu apaixonado quando na puberdade ela me foi descrita nos Maias, de Eça de Queiroz. Uma distante passagem pelo ainda modesto burgo, ocorreu depois, cuja correta data perdeu-se no tempo.

Situada na encosta de uma serra, fez-me lembrar minha cidade natal pela década de quarenta.

Talvez o sítio mais pitoresco de Portugal, que os romanos e árabes conheceram antes da formação do Reino, lá deixando sinais por arredores, inclusivamente o castelo dos mouros no cimo da montanha.

Byron por vezes lá se refugiava, provavelmente refletindo sobre aquele passado da era dos fenícios, gregos e romanos.

Cintra admirável, desde o reinado de D. João I. de onde partiu D. Sebastião em finais do século dezesseis para sofrer a derrota de Alcácer-Quibir e, desse modo, sacrificar a soberania de seu reino, então incorporado à Castela por direito de herança.

Tão próxima a Lisboa, favorecendo os finais de semana da nobreza e da família real.

Avançamos por uma rua estreita, a sair da praça central, sentamo-nos no bar para o café da manhã e pensar qual a rota mais correta para o dia.

A não ser de rápida passagem, Ana Elisa guardava de memória a paisagem, toda ela, rica de arvoredos.

O melhor projeto saído do seu encantamento seria andar por toda a cidade, subindo e descendo, até a abertura do Paço, pelo meio-dia.

Deixar para outra visita o Castelo dos mouros foi também alternativa em razão de ser íngreme a subida.

O paço real passou por diversos estilos. De início, construção mourisca, exibindo o evolver arquitetônico da Idade Média, prosseguindo em contributos da Renascença.

Quando entramos tivemos a impressão do ecletismo improvisado, naturalmente seguindo o modismo de outros palácios e igrejas de cada época.

Senti a circunstância no diferenciar das salas, acrescidas sem obediência do que era e formava-se outra visão daquilo que devia ser. Enumerando-as, tínhamos de notar as salas dos brasões, dos cisnes, das audiências, e das pegas e capela.

Cada setor apresenta-se de modo indescritível. Desde o reinado de D. Afonso Henriques, em meado do século XII, o palácio se viu acrescido de salas desiguais e por elas atinge-se o novo Portugal, filho da Revolução que significava uma Idade Nova, marcada por seus filhos.

O que caracterizaria, então, a atmosfera era a inspiração. Oliveira Martins, em seu trabalho sobre o misticismo na Península Ibérica unifica as duas nações. O motivo real fixara-se nos descobrimentos marítimos feitos por portugueses e espanhóis com Colombo, Vasco da Gama e Magalhães.

As Américas, do Norte, Central e do Sul integram-se como obras do arrebatamento místico do saber, de construir, do descobrir.

Um século depois, Antônio Quadros particulariza a matéria, dando com outra tinta a especificidade de Portugal. O fundo é e não é o mesmo. Apesar da igualdade da formação visigótica, a miscigenação sofre o impacto de raízes atlantes, o espírito dolmênico, distinguindo nos caracteres ibéricos distintos sentimentos e diferente vigor.

A mística não é padrão às duas partes da península. A carga semítica no sul da Espanha criou segmentos diversos e cresceu no espírito português o elemento que não poderia ser esquecido: o céltico.

Nós subíamos os degraus do Paço Real quando me veio à lembrança o essencial da coisa em si, o complicador da natureza e autenticidade da experiência mística. Nisso é que está a minha perplexidade.

Minha impressão do agora se firmava em duas épocas distintas. A primeira, vinda com D. Diniz, como intuição (os pinhais de Leiria), a segunda em razão do próprio Afonso IV: a xenofobia e seu horror aos galegos (o cruel assassínio de Inês de Castro).

Ao fixarmos nas duas grandes obras do pensamento luso, ou seja, A História da Civilização Ibérica, de Oliveira Martins, e Portugal, Razão e Mistério, de Antônio Quadros, sou forçado por uma lembrança a fim de interromper o que vinha à reflexão do período dos descobrimentos e sua colocação no tema do misticismo.

A análise de ambos transcende as pesquisas anteriores para o alvo de tornar as reflexões filosóficas e científicas. Na verdade, inserem-se os estudos na própria antropologia cultural.

Há muitas formas de abordagem e chegamos ao ponto crucial. O engano de D. Sebastião no prosseguir o ideal místico de inaugurar uma era nova do Poder Absoluto. O intento fora alcançado por Vasco da Gama e Colombo nas descobertas de todo um continente. Magalhães tornou-o épico como a luminosidade do Renascimento.

Wittengenstein, em seu Tractatus, abordou de modo genial o fio da meada desse problema do mito e, logo, do misticismo. Resumindo as suas considerações, não só o discurso místico, mas também o discurso filosófico sobre o mundo, excede os seus limites empíricos. Seria mais exato dizer que ambos exprimem uma particular dimensão do ser e da existência, cada um deles em permanente transgressão relativamente ao já dito ou constituído.

Quando me vi, naquele estado, passando pelo vestíbulo dos aposentos de D. Sebastião, onde Camões lhe lera os Lusíadas, voltei-me a pensar que monarca fora ele, que explicação para tanta imprudência, pelo malogro de novo ideal, após ter-se realizado o milagre ibérico.

Entramos em seu quarto e ali estava o leito onde passara a última noite de seu reinado. Todo o estrago que faria, todas as conseqüências evitáveis, não explicam uma só coisa. Por que se tornaria o mito, sepultando os erros, interrompendo o processo histórico de sua Nação?

Tudo o que pensara em tumulto naquela visita era suscetível de revisões críticas. Uma inclusive: D. Sebastião não merecia o sebastianismo a não ser que vestisse a túnica de energúmeno. Mas, em homenagem à sua coragem, respeitemo-lo, acatando o determinismo hegeliano de que o real é o racional.

Ao deixar o leito do monarca, em cada acréscimo do palácio, me vinham as figuras impressionáveis dos filhos de D. João I e da mãe, Dona Filipa de Lancastre, D. Duarte e sua nostalgia. Mesmo os visitantes que em Aljubarrota consolidaram a novo rumo. Principalmente o Condestável, presente em todas os recantos do paço.

O acaso de D. João, de Boa Memória, ser filho bastardo de Pedro I, o Cruel, sempre suscita suposições de difícil aferimento. Uma delas, sua esposa D. Teresa Lourenço, a galega, da nobreza da Galiza, ter sido de origem semita. Porém, é o que explicaria seiva árabe plantada na dinastia de Aviz.

Deve ser considerado o auge do Império sem a evocação da pureza da Rainha Santa, a competência de seu marido, D. Diniz e a rudeza de Afonso IV para não falar a do filho na represália à morte da amada.

Saímos quando o aviso do Palácio soou a fim de cerrar os portões, dizendo eu à Ana Elisa: havemos de cá voltar para rever os velhos fantasmas.

Fizemos tarde a última refeição em sítio próximo à antiga estrada que nos leva a Cascais. E caminhando atingimos o carro que nos levaria de volta a Lisboa.

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Published in: on fevereiro 20, 2009 at 9:19 pm  Deixe um comentário  
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