Qualquer coisa no ar

Lisboa, 28.02.1974 – 5ªfeira

          Aterrissamos pelo começo da tarde em Sacavém, frio suportável, mas chegamos ao Hotel e Ana Elisa sentiu a inconveniência da subida para Alegria. Decidiu pelo descanso, e pelo telefone fizemos a reserva no Mundial.

          Parti ao encontro de Ângelo de Almeida, que me esperava em seu gabinete na Ordem dos Advogados O mesmo ritmo na Avenida da Liberdade; pelo horário as pessoas já voltavam do almoço para o trabalho.

          No Largo de São Domingos estava o Professor me aguardando, tendo diante de si os papeis e as tarefas do Órgão. Aguardava-me para sairmos, disse-me, antes me apresentando à Secretária e a outros membros do Conselho.

          Da janela via a Praça em seu estilo pombalino, uma falha aqui outra acolá no casario setecentista. Ao meu lado direito o Teatro Dona Maria, que graças ao Marquês possibilitara a sua construção em local onde funcionara o Santo Ofício destruído por incêndio durante o maremoto.

          Como deixaste Paris, perguntou-me ao entrarmos nas Portas de Santo Antão e nos dirigindo ao bar do Gambrinus.

          Sentamo-nos, pois, após o que observara e ouvira a propósito das manobras em que sempre se discutiam a fim de superar-se o fator k, que impedia a tomada do poder por facções da Esquerda sectária, desde os finais do ano passado, após a incorporação dos oficiais universitários, chamados milicianos,em membros do quadro. A infiltração de socialistas e comunistas nas forças armadas triplicou-se, provocando a primeira reunião em Évora do chamado grupo de capitães.

          Como outro complicador, à União Soviética não interessava, de modo algum, que ali na península ibérica, em seu extremo português, se formasse nova Cuba para mais complicar o que já ocorria.

          A respeito de Portugal falou-me longamente Ângelo de Almeida do risco que se corria com os grupos extremistas que impediam a aproximação aspirada do Governo a fim de que se cuidasse com moderação do problema colonial.

          O ponto de partida seriam as alternativas que o Marcelo Caetano, Presidente do Conselho, expusera na Assembléia Nacional há algum tempo.

          Decorreram meses e meses e sentia-se a acumulação de forças dos milicianos. 

          Em resumo, o real agora consistia em que os militares não davam trinta dias para a queda do Governo, bem como de mudança do regime para forma de socialismo que ninguém sabia definir. 

          Do meu ponto de vista, que acresci em aparte, necessário então um líder civil que articulasse o General Antonio de Spínola para diálogo com o Poder.

          Ângelo retrucou com franqueza que faltaria ímpeto a Spínola, apesar de haver publicado um livro sério que serviria de instrumento de instrução superior.

          “Qual a vossa opinião sobre ele”, perguntei. 
          “Cá todos o acham incapaz para tal empreitada, caro Paulo”.

          Despedimo-nos com o jantar programado para sexta em Alfama e ele e esposa nos pegariam no Mundial e nos deixariam depois no Aeroporto para a viagem de volta.

          Retornando pela Avenida da Liberdade me convencia aos poucos que a oposição deveria estar dividida, predominando, como sempre, os mais radicais.

          Marcello Caetano mostrava-se confiante em sua posição sem levar em conta a evidência do desconforto do oficialato. A intranqüilidade vinha de 1971, pelo meado do ano, com o discurso do General Reymão Nogueira, que se exprimira claramente com fundamento em seu final: “este Reino é obra de soldados e nós queremos que isso assim continue”.

          A principio, Caetano era advertido de que medidas de conciliação deviam ser tomadas. Era ele jurista, centro direita, não parecia disposto a iniciar as reformas que se expunham desde o final da guerra.

          O Estado Novo já era coisa do passado, os jovens saíam do país, contrários que eram à repressão armada, Marcelo Caetano, figura respeitável e honesta, não tinha carisma para dar uma volta por cima e manter o sistema autoritário vigente.

          Acreditamos que a nomeação do General Spínola para vice-chefe do Estado Maior seria o bom começo para as reformas. Pusera as suas idéias no livro “Portugal e o Futuro”, porém Caetano não parecia tomá-las em conta.

          Formava-se, desse modo, o grupo de ação denominado o movimento dos capitães que durante o ano de 1973 já passava a atuar com audácia.

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Published in: on fevereiro 14, 2009 at 2:32 pm  Deixe um comentário  

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