Luxembourg, Refúgio Florentino

Paris, 27.02.1974- 4ª feira.

          Maria de Medicis, após a morte de seu marido Henrique IV, rei de França, caiu em nostalgia do passado, fixou-se no desejo de deixar o Palácio do Louvre e em princípios do século dezessete, Forença ainda era saudade plantada em sua alma e pois, em sua condição de Regente do filho, adquiriu majestoso prédio, incumbindo um dos maiores arquitetos franceses, Salomon de Brosse, de reformá-lo, acrescendo-lhe no Jardim a Fontana Médicis formando o recanto toscano de onde a adolescente levava as lembranças ali deixadas como símbolo da revolução cultural do Renascimento.

          Lá chegamos após o café da manhã e em torno do Palácio demos duas voltas, retornando ao extenso Jardim após visitar com carinho La Fontana.

          A Revolução do Iluminismo, um século depois, deu àquele monumento de glória o papel de uma prisão, o que Bonaparte avaliaria, pouco mais tarde, enobrecedendo-o como sede do Senado.

          Que dizer desse afeto de que os franceses se orgulham, fazendo do extenso jardim o centro musical dos finais de semana?

          As razões que invocamos para lá permanecermos, durante a manhã, resumiam-se no fato de ter eu, apenas eu, por lá passado à pressa, sem a difícil avaliação da Rainha que punha termo ao florir daquela cultura de quase trezentos anos.

          Apenas há dois dias escrevera no Diário premissas para o conceito de culturalismo, indicando as interações que sugeriam variáveis a definirem etapas no processo tanto social quanto político sem dar prioridades às chamadas superestruturas.

          Eu omitira o papel da economia inglesa em torno do processo histórico. O tema é bem amplo para ser exposto à outrance, levando em consideração o saber de Michael Field a respeito, e ali diante de nós estavam ele e Giuliana em tranqüilo restaurante do Boulevard St.Martin.

          Em Esboço de Idéias Conjugadas fiz menção a novações tecnológicas e elas nasceram na Inglaterra do Setecentos. Agora, o pormenor da nostalgia de Maria de Médicis realizara pouco mais do que pequena alteração da paisagem.

          Michael me ouvia agora sobre o que faltara em Idéias Conjugadas no plano econômico.

          Em síntese, com relação à revolução industrial na Inglaterra, os resultados da acumulação força-energia procederam de início do empirismo utilizado na introdução da máquina no processo industrial.

          Os inventores eram autodidatas, porém do métier mecânico. John Kay, inventor da lançadeirra, era prático; Hargreaves criou a Jenny, movida manualmente, capaz de substituir dezoito artesãos; o barbeiro Artwright, sem instrução montou a máquina movida pela água. Outro operário, Samuel Cromton, criou a chamada Mula, revolucionando a indústria têxtil.

          O clérigo militante Cartwright, já nos finais do século dezoito, montou o tear de força mecânica, que valia por quarenta tecelões. Do ângulo de transporte, caberia a George Stephenson, também simples operário, inventar a locomotiva, aperfeiçoando-a posteriormente.

          O único instruído, de todo esse conjunto, foi o engenheiro James Watt que, auxiliado por dois amigos, construiu a primeira máquina a vapor. E, desse modo, fez-se a Revolução Industrial na Inglaterra.

          Indispensável é a acumulação de forças nos processos históricos a fim de ensejar a interação de dois pressupostos essenciais ao salto qualitativo das revoluções tecnológicas, literárias e artísticas.

          Vejamos, porém, as variáveis sociais em seu desempenho. As que se formam nas relações consuetudinárias do clã, tornam-se forças atuantes, organizadas e sujeitas à coerção das tribos; adotam forças que se agregam às existentes, digamos in fieri, recorrendo ao mesmo idioma, ora à mesma religião, somando-se as forças e as transmitindo ao inconsciente coletivo.

          De tudo isso emana a força-energia newtoniana e einsteiniana, acumulada pelo processo temporal, que se intromete nos atores, nos lideres articuladores, que se integram na intelligentsia, direcionando, em uníssono, à totalidade dos grupos, como centelha em direção ao alvo onde se acham as duas forças evolutivas: o acaso e a necessidade.

          Michael interveio por dezenas de vezes na síntese que fazia, mas tomando sempre como ponto de partida os processos históricos, enquanto conjugados, inglês e francês.

          Dessa forma, expirou meu último dia em Paris.

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Published in: on fevereiro 7, 2009 at 2:43 pm  Deixe um comentário  

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