Montmartre

Paris, 26.2.1974 – 3ª feira

Pelas dez da manhã, lá chegamos. O cansaço se fora e aptos nos sentíamos na mais leve das jornadas.

Três atos irregulares, como em peça de teatro, desafiavam a lógica do tempo que pelo relógio marcava quase trinta anos. Quem era o ator na abertura do primeiro que forcejava esconder o mistério, o bater dos sinos e, afinal, a surda disputa entre poetas, pintores e boêmios?

Pensando desfazer o novelo de 1944, podia aferir que a fantasia durara poucos dias, talvez uma semana, e o espanto de meu desempenho na chegada indicava trechos recortados, os quais não compunham o real a que aspirava Em suma, os instantâneos recuavam e avançavam, embora procurassem idéias que deviam ter repercutido no ciclo da missão.

Faltava-me o Diário, por que o não fizera? Certamente, medida de segurança habitual. Não sabia, pois, como compor os momentos, se dia ou noite. A visão do cabaret Au Lapin Agile, ora tornado novo, e não a casa de interior em pequena cidade.

Os nomes dos pintores impressionistas, como Renoir, Van Gogh, Toulouse Lautrec sacralizavam aqueles locais, próximos a nossas leituras. E andávamos em dúvida se devíamos visitar o cemitério Del Père Lachaise povoado de imortais das artes, das letras e de generais de Bonaparte.

Ponto final a qualquer lúgubre viagem e muito poucas foram as fotos dos anos quarenta, da semana trágica que em minha fantasia se tornavam apenas instantâneos.

Os anos seguidos já consistiam em certos cortes de filme que advertem o observador de que são clássicos e só ganham a validade nas falhas da memória.

Já do fechar do real de agora, adviria o futuro que não posso restaurar, bosquejos naturalmente que classificam escolas, sub-escolas etc.

De todos os cantos da cidade se vê o panorama onde a Igreja do Sacré Coeur destaca-se branca a dominar todo o bairro. Só ela viu correrem os fatos históricos no Oitocentos, em seu projeto, na predominância do românico ajustado a traços fortes do bizantino.

Como a Igreja da Penha, no Rio, somos levados a seus portais e em sua fachada manifesta-se declaradamente oriental. Dir-se-ía não faltarem ecos barrocos que provavelmente os arquitetos Abadie e Magne acataram para a composição final, o destaque das estátuas eqüestres do rei D. Luís e de Joana D’Arc.

A proposta arquitetônica em século tão radical na história da França fez, dessa forma, realçar a liberalidade da manifestação diante do clima trágico do bairro preferido por boêmios, poetas e foragidos, cujo início já se mostrava.

Visitamo-la, logo que chegados, impressionando o número de freqüentadores da missa ainda matinal. Por sorte nossa, era a última da manhã, o que proporcionou a busca de sinais dos difíceis anos da década de setenta do Oitocentos, carregado de ódios e vingança pela derrota militar e de l871 ainda mais, pela repressão que se manifestou contra os monarquistas.

Um ou outro traço nos fazia supor a degenerescência do povo francês no período que trazia as cinzas da derrota de Bonaparte, sua prisão e o conflito interno entre os saudosistas e os republicanos.

Partimos para outra visita a St. Pierre, que vindo do século doze dava à Abadia o oposto de Sacre Coeur tão próximo.

De modo que apenas duas horas restaram para rever todo o centro e encontrar o restaurante que buscávamos.

Ao terminar a refeição, decidimo-nos prosseguir nas caminhadas pelas bandas do lado mais alto da colina. Isso deveria constituir futura recordação de Montmartre. Mas não havia sinal.

O bairro em si não se pronunciava senão pela Place de Tertre, em modo de indiscrição, buscando nos informar de que Montmartre vinha do Século XII, atravessara o mundo da velha e da nova escolástica, deu abrigo, pois, aos artistas clássicos e sepulturas ao demais em seu cimitero.

De uma liberalidade exemplar por não haver discriminação. Tanto Molière, como Oscar Wilde, tanto Balzac quanto Proust. Respeitam-nos no plano da imortalidade falsa dos acadêmicos, com cerimônia.

Do ponto de vista dos pintores foi após clássico, impressionista. Talvez impedisse o preconceito contra o cubismo, detendo Van Gogh e Lautrec em qualquer confronto com Picasso.

O bairro é um monumento para qualquer outra inspiração. Deixemo-lo ante a posteridade que a respeitará naquela circunstância singular de ser a réplica do Palatino romano.

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Published in: on janeiro 31, 2009 at 11:21 am  Deixe um comentário  
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