ESBOÇO DE IDÉIAS CONJUGADAS

Paris, 25-2-1974 – 2ª feira

Antes do meio-dia transferimo-nos para o Madelaine Palace, já que vencida a nossa reserva no Grand Hotel. Contingência, afinal, agradável, pois a três ou quatro quadras de Michael. Liguei-lhe à tarde para outra despedida e seguimos a girar pelos arredores e aguardar a noite para refeição com o casal.

Ana Elisa quis ver as lojas, passamos então algum tempo nas Galeries Lafayette e outras, algumas já visitadas em busca de encomendas de amigos.

Não me era possível anotar tudo que víamos, mas para nós a rever trazia lembranças do nosso filho Paulo Antônio, adolescente que a acompanhara em excursão pelos anos setenta.

Telefonei a Ângelo de Almeida, meu amigo português, bastonário (Presidente) da Ordem dos Advogados em Lisboa, para avisá-lo de que só na quinta-feira próxima poderíamos lá estar.

O relacionamento devera-se à amizade sua em Minas Gerais, onde residente José Branco, Cônsul em Belo Horizonte, meu padrinho de batismo e desde moço afeiçoado a meu avô materno.

Nos últimos anos, em minhas viagens, anotava fatos e experiências sobre temas conjugados que não sabia classificar em meu entendimento das coisas.

Em resumo, Ângelo pedira-me há muito um trabalho para eu ler quando passasse por Lisboa. Poderia escolher a Ordem ou a Academia de Ciências.

Rabiscara aos poucos as linhas para palestra à medida que o tempo fluía. Comunicação, e em todos esses anos esquecera-me de concluí-la. Então me resolvi fixar os pontos essenciais do assunto.

Em linhas gerais caíra meu breve escrito em matéria relacionada às novações tecnológicas, que trazem em seu ventre as mudanças sociais e políticas, conjugando-se na dinâmica as repercussões nas artes e literatura.

Porém se formava, estruturalmente, o conjunto da física com as circunstâncias culturais, que se mostravam do ponto básico, ou seja, sem as particularidades específicas das disciplinas em que se achavam catalogadas.

As interpretações não se fazem por períodos. Apenas por processo que respeita o fluir do tempo.

Da Mesopotâmia ao Egito, deste às ilhas gregas, e, pois, ao continente europeu sucedem-se escolas, doutrinas e, necessariamente fatos correspondentes.

Roma tomou a tocha em fusão com o processo helênico, modelando instituições políticas e jurídicas. O mundo greco-romano havia de durar, do ponto de vista histórico, até a alvorada dos tempos modernos.

Necessário considerar o cristianismo como essência, bem como o monoteísmo muçulmano como vertente, as duas a iluminarem as Universidades espanholas, juntando-se ao desenvolvimento mediterrânico, criando a Renascença e as evoluções políticas na Inglaterra, França e filosófica na Alemanha, colunas das monarquias constitucionais do Século XIX.

O processo seguinte é o mais curto e desafiador. No Setecentos realiza a Inglaterra a Revolução Industrial com as invenções que se estenderam ao continente europeu e aos Estados Unidos da América.

As ciências aplicadas, vindas da nova Escolástica, soltaram-se das amarras que as prendiam ao velho estilo do saber, adversário do método experimental.

Cremos que os fenômenos investigados devem-se tomar como pressupostos a fim de que se esclareçam as diferentes etapas.

O primeiro fator a ser destacado seria o da Força, como grandeza física aplicada aos fatos sociais ocorrentes em determinado conjunto. Chamemo-lo de corpo social. Se não estiver sujeito a qualquer tipo de Força, só posta em repouso, enfermo de decadência ou estagnação, o seu movimento é zero.

Ao contrário, se sobre o corpo, age uma força, a sua aceleração é constante e crescente.

Se tomarmos a hipótese do ponto de vista quantitativo, o problema, requer a fórmula newtoniana F=m.a., em que F constitui as forças sociais, associadas aos elementos culturais, imprimindo aceleração a a um corpo de massa constante das referidas variáveis, introduzimos em nossa reflexão outra entidade fundamental: a energia com a sua capacidade de gerar transformação em determinado sistema.

Diante da complexidade da matéria, levando em consideração a natureza variável da massa, é preferível a fórmula F=d(m.v)/dt. São questões elementares que devem dar rumo à hipótese.

Sabemos que as diversas formas de energia transformam-se umas com outras; interação, por conseguinte. Há, no caso, conservação quantitativa.

Estamos no campo de processo social em companhia da lei da conservação da energia. É necessário acrescer à exposição a circunstância da igualdade einsteiniana, quando se estabelece a correspondência quantitativa fundamental entre a massa e energia, quando o fator de proporcionalidade entre as duas grandezas seja muito grande.

Nosso referencial é o processo ou sistema social. Quais as suas forças ou energias? Citemo-las sem prioridades: costumes, inclusive direito consuetudinário, relações de produção, tanto internas quanto externas; inconsciente coletivo em que atuam os símbolos: ação dos atores políticos, o enigma do carisma pessoal, o papel dos líderes articuladores, paracléticos, salvadores etc.

Consideremo-los atuando como em conjunto, em função de variáveis às vezes encobertas. Retornando ao princípio da interação, ou seja, ao primeiro princípio da termodinâmica, pode ocorrer a degradação em processos frágeis, casualidades ou incertezas, catástrofes advindas dos sistemas planetários ou da natureza.

Necessário considerar que tais posições não significam mecanicismo, materialismo vulgar, do ponto de vista da filosofia do Novecentos quanto tudo era simples em razão do princípio da causalidade. Nossa segurança maior é aceitar outra razão, realçada por Prigogine: o fim das certezas.

Indispensável é acumulação de forças nos processos históricos, que de nós não dependem. Por fim, vejamos as variáveis sociais em seu manifestar. Primeiramente aquelas que se formam nas relações do acaso e da necessidade. A intuição de Friedrich Nietzsche e o saber científico de Monod no conceber uma causa metafísica para alimentar a nossa utopia quanto à evolução e mutatis mutandi idêntica. É intenção de Karl Popper, a maior cultura do século passado, enquadrar o princípio da incerteza no cálculo das probabilidades. Ate L. Pauli, em sua área da Química, veio ao socorro de Darwin.

Nossa incerteza está com o pensador renascentista Paracelso: mundus vult decipi, ergo decipiatur (o mundo quer ser iludido; seja, pois, iludido).

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Published in: on janeiro 24, 2009 at 2:45 pm  Deixe um comentário  
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