O IMPRESSIONISMO E JEU DE PAUME

Paris, 24-2-l974 – domingo.

De manhã, Place de La Concorde, caminhando até a Rue Royale para depois alcançar Tuileries e afinal Jeu de Paume, destinado à exposição de pintura, onde permanecemos por algumas horas. Duas vezes, em viagens anteriores, tentei observar aquelas telas impressionistas sem o sentimento de buscar as suas raízes.

Pelo meu espírito vinha o sentido dicotômico da cultura x natureza. Porém à última pode-se atribuir a passividade de complementar-se à primeira citada.

Simplesmente, só suscitar a consciência para a interpretação de fato cultural, o malogro é quase certo nas reflexões. Há um

ramo da Geografia, denominada de humana, posto que ligada à chamada Sociologia, que procura definir-se como aquela que tem como objeto as modificações que o homem introduz na paisagem.

Mas, avançando para definir o estilo de escola, muito perturba o rumo do culturalismo por ser ele de uma natureza complexa. Quando Marx propalou a idéia inicial de seu materialismo histórico, obteve relativo resultado por sua abertura à universalidade.

No entanto, por pouco tempo, desfeita pelo parto da física no começo do século passado. Até os nomes – estrutura e super-estruturas – na base de sua concepção falhou por razões mecanicistas de seus fins.

O pensador de O Capital jamais poderia servir-se de modalidade dialética em razão do vazio que se formava no conceito hegeliano vindo do pensamento clássico dos gregos. Mas o que Engels queria em seu estudo sobre a natureza e suposto senso dialético que a atravessava, teve o mesmo destino com o ímpeto da relatividade após Heisenberg.

Graças a muito esforço de alguns críticos de arte, a Escola Impressionista na pintura atingiu o seu destino, quando do decênio de vinte adveio o conjunto de telas de Degas, Toulouse-Lautrec, Monet e Renoir no vestíbulo de renovação, merecendo cada mestre o destaque do resultado de n variáveis a serem transpostas para o fato que seria o centro da motivação.

Em nossa visita, no primeiro andar encontramos Sala Cézanne com outros pintores do mesmo peso e, por fim, Van Gogh em seu auto-retrato. Não esqueçamos Gaughin, Manet e muitos outros ao mesmo nível dos revolucionários da escola que sacudiu dois séculos a partir do Novecentos.

A França perdera guerra de l87l, via o Iluminismo e o Romantismo, devagar sucumbindo, quando, a seu modo, move-se para o estilo novo e imprevisível. Nada escapa à necessidade de fazê-lo. A literatura encontrou de imediato em Vitor Hugo e Zola os rumos desafiadores.

Já a pintura repetia a estratégia do Renascimento artístico na Itália do Seculo XV, que provinha de fatores diversos, inúmeros, porém dando realce a complementaridade da arte com a ciência nova.

O apogeu da Escolástica com Rogério Bacon, Duns Scoto e Raimundo Lúlio, acrescido da confluência da tradição com a modernidade, de Nicolau de Cusa, a nova Escolática, em seu evolver interno, sugere a Da Vinci, Miguel Ângelo e a outros florentinos os modelos que deviam palpitar na unidade da vida com os músculos dos braços, com a contração facial da dor, com o vigor de resistência, quando tudo requer o movimento, a vida, a unidade ente o eu e o físico do modelo, enfim exibindo-se, incorporando na escultura o grito da realidade, o sentir da emoção nas contrações corporais.

Os impressionistas não invocaram a ciência, esta já desempenhara o seu papel e produzira a revolução cultural em todo o continente. No Novecentos, após a Restauração, foi preciso arrancar dos dias frios ou quentes, da natureza da atmosfera, a mensagem do artista. Dir-se-ía levar a inspiração aos fatos simples, que ocorrem no cotidiano, e deles extrair a força do real, do planeta, da noite sombria ou da manhã de sol, como faria Renoir.

Nas mulheres de Tahiti, de Gaughin, a comunicação entre ambos leva o próprio autor a participar da paisagem, do clima de seu verde, da naturalidade das criaturas, realçando-se como autor e objeto, a concluir ou supor determinado tipo de confidência.

E em cada tela observada, tentando decifrar o sentimento do artista, extrai-se do impressionismo a força do novo diante do Romantismo.

E não se distinguem soberanamente, sobrepondo-se aos gritos,”eu sou o indivíduo em minha afirmação, estou inserido na natureza”.

São estilos que não se batem, não se confrontam. Renascimento é o passo que se socorre do físico pessoal, Impressionismo desgarra-se, no entanto, do Romantismo que mergulha no formalismo. Fizera-se este discípulo da Estética convencional, que chegara visando ao clássico em sua
forma própria.

A exibição no Louvre da antiguidade grega e romana exibe-nos e ajuda-nos a compreender o clássico frio que decorria das culturas egípcia como o Escriba Sentado.

Entre Ana Elisa e mim não parecia existir o mesmo conceito, que lhe parecia antes reflexo da subjetividade. Estamos diante, todavia, do mesmo estado de espírito, o belo em si sofria em cada tela o impacto do conjunto de sentimentos, em que pese a particularidade criadora de cada um, desde Bonaparte no plano de reformador e do acatamento às regras da Revolução Industrial recolhida dos ingleses.

Nada mais havia que fazer naquele domingo frio e sonolento. Almoçamos com a tia de Ana Elisa, que voltara ao Brasil durante a Primeira Guerra e sobre o lado paterno desfiou muitos dados a respeito dos Lichtenfels.

Já na sobretarde caminhamos a valer até a noite, quando jantamos na Place de Gaulle de onde partem as doze artérias táticas do Poder parisiense. Já não era possível voltar a pé, fatigados que estávamos.

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Published in: on janeiro 17, 2009 at 2:40 pm  Deixe um comentário  
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