Lembranças Da Década Passada

Paris, 23-2-1974 Sábado.

Fomos à Catedral de Notre Dame e lá permanecemos, revendo a saudosa atmosfera.

Como sempre, velhas lembranças me voltavam. Nas viagens, os pormenores dos locais são relembrados com a nitidez mecânica que Gurdjieff cunhou de objetiva. Você toca com a mão, de leve como carícia, deixando que instintivamente aceite o contacto de si mesmo para uma eterna lembrança.Forma prática que na Física Moderna se denomina Consciência e Realidade.

E partimos em nosso flaneio a outros sítios. Estamos em Notre Dame com poucas pessoas. De quando em vez, sem a intervenção do self, o episódio retorna inconseqüente. Do passado, das primeiras leituras, a figura de Quasímodo aparece, badalando os sinos, sua fealdade invoca a nossa adolescência, retornando àquela figura hedionda do corcunda a delirar de paixão.

Depois, as aulas do ginásio, a Catedral desenhada por imaginação, atuando como símbolo e todas suas passagens por Paris coagem-no ao retorno. Visitam suas férias, suas noites. Os Mosqueteiros, de Dumas, pai, Memórias de um Médico. Quando se torna ginasiano, chega-se a Balzac com a força de sua observação, de sua análise psicológica e social, de sua antropologia cultural integrada na literatura.

Vitor Hugo inesquecível em toda a sua existência, com os relatos intervindo na batalha de Waterloo, no imperativo cruel de Javert fazer a justiça, em essência, injusta.

Depois, caminhando até Étoile, sem programa, mas se deixando impressionar e acompanhando o Rio Senna próximo a Pont Neuf.

Sentindo a cidade em seu conjunto, sem considerar o passado em toda a sua extensão, Paris é de extrema beleza porque o urbanismo é logístico, imposto pela ordem após a revolução de l871, pois as doze avenidas para toda a cidade fizeram calar a plebe em suas barricadas nas inúmeras tentativas de anarquismo.

Até nossos dias, o paroxismo rebelde do adolescente francês insistiu em superar a disposição repressora do Poder, mediante o traçado adequado das doze irmãs. O projeto de reestruturação da cidade, a cargo de Haussmann, resulta das violências juvenis.

Se a Comuna de março a maio, intentada pelos vândalos populares, destruiu parte do passado histórico, a resposta tornou a cidade a mais formosa do planeta, pois sem beleza natural como a do Rio de Janeiro, por exemplo, criou os boulevards e dezenas de obras que completaram o ciclo arquitetônico sem atingir o que restara do passado gaulês de Lutetia, do tempo de Júlio César.

Descemos no começo da tarde, comentando o aspecto global da cidade e observando que com Paris se unifica a visão do urbanista e do arquiteto.

Almoçamos com Michael Fields em restaurante próximo à Pça.Vendôme. Ouvimos, atentos a sua longa história, como correspondente internacional de grandes órgãos da imprensa inglesa.

Figura exponencial como jornalista desde a Segunda Guerra e posteriormente notável foi o desempenho por quase dez anos do Daily Telegraph durante os acontecimentos no Vietnã, Camboja e Tailândia a partir da Conferência de Genebra em 1954.

Tornara-se, desse modo, o especialista frio e objetivo em sua conclusão de que a política militar do Ocidente no Vietnã estaria condenada ao malogro, se não acompanhada de diretrizes que visassem a entendimentos básicos entre o Ocidente, a Rússia e a China. Necessário derrubar a dicotomia que Mao-Tse-Tung tentara introduzir na Revolução Cultural chinesa.

Leste-Oeste apenas manchou o século com a brutalidade de uma geração alienada.

Podemos dizer que em torno da posição chinesa no quadro internacional, suas observações constituíram o ponto mais debatido da época.

Nos anos sessenta, Daily Telegraph o enviou para o Brasil a fim de acompanhar o rumo da política nacional, aquando do lançamento de seu livro: The Prevailing Wind – Witness in Indo-China.

A tradução sob o título Vento Leste na Indochina, por José Augusto Ribeiro, foi lançada pela Editora Saga que iniciara o ciclo de publicações sobre temas sociais já em plano que prenunciava a globalização do planeta.

Daily Telegraph marcara importante tento de torná-lo seu correspondente no Brasil, pois em poucos meses apurou o seu português e captou a rota do pensamento brasileiro desde a colonização aos primórdios da década de setenta.

A particularidade do experiente jornalista notava-se pela intuição dos fatos econômicos e políticos, chegando-se, sem preconceitos ideológicos, aos escritores e intelectuais, bem como aos profissionais do Correio da Manhã, O Globo e do Jornal do Brasil, em cujas colunas escreviam então Wilson Figueiredo, Pedro Gomes, Osvaldo Peralva, Newton Rodrigues, Gilberto Paim, Ib Teixeira, Paulo Francis e em São Paulo, Miguel Reale, Oliveiras Ferreira, Celso Lafer que não seguiam radicalizações de qualquer espécie, aguardando que as ondas se reduzissem e não sacudissem os alicerces da conciliação nacional vinda de figuras como Roberto Campos, Walther Moreira Salles, A F.Schmidt, Ernane Galvêas e outros que pragmaticamente procuravam ajustar o excesso de posições tecnocráticas, radicais, apoiadas por fórmulas econométricas.

Hoje, sábado, quase de partida, despedimo-nos mais uma vez e em torno do Brasil tecemos os comentários sobre todo o decênio passado. Dias idos e vividos em sala escura à procura de um gato preto que lá não se encontrava.

Tratava-se do juízo de Henry Thomas sobre a Metafísica. Mas o que depois consideramos dizia respeito à perplexidade de que não conhecíamos, em nosso improvisado saber: as variáveis encobertas.

Naquela conjuntura complexa, após a posse de Jânio Quadros, nossos almoços quase que diários ficariam como exemplos de que nossas relações de amizade não influíam em pontos de vista ideológicos. Sempre presente, Michael trazia colegas de outros jornais estrangeiros.

Do mesmo modo, o seu liberalismo político não dava ensejo que evitassem a sua participação em discordâncias que se mostravam quebra-cabeças. Newton Rodrigues, analista político de rara astúcia, confrontava-se quase sempre com os paradoxos de Francis e Peralva, então na direção do Correio da Manhã. Sempre afetuoso embaralhava nossas expectativas quanto ao que ocorreria. De quando em vez novas personagens apareciam em nosso grupo para desinformar-nos.

Em 1964 deu-se a deposição de Goulart da Presidência e lá na Parreira do Vizeu, cansados de debates do passado, dávamos início a temas que jamais entenderíamos.

Mas o que ocorreu, em verdade, pode traduzir-se pela amizade que se formara em nosso grupo, no que se engajara o jornalista britânico.

Durante o governo Castelo Branco, em que pesem confrontos entre os militares, as instituições continuaram em seu funcionamento, graças aos instrumentos constitucionais que permitiram apaziguar os ânimos. Porém cindiram-se as forças, radicalizou-se a esquerda comunista com assaltos, terrorismo, seqüestro de embaixadores.

Dez anos decorridos ali estávamos em minha casa a lembrar aos amigos nossas infrutíferas tentativas de entender o Brasil. Conosco, então, presentes Roberto Campos e sua esposa Stela, Michael Field e Giuliana e Gilberto Paim.

Campos, que seria indicado como Embaixador para Londres, falou ao jornalista, em brinde especial, que dele não esqueceríamos e que sempre manteríamos a amizade recíproca em razão de seu apreço aos brasileiros.

Michael respondeu à saudação, de forma afetuosa. Do Brasil, muito gostara e o que disse foi onde encontrara os seus melhores amigos. Estaria próximo ao Mestre Campos, pois Daily Telegraph o transferira para Paris.

Desejando reduzir o sentimento sincero que Michael deixava transparecer, aventurei-me a mudar de assunto e lhe pedi as diferenças entre os franceses e ingleses.

Ele resumiu: os primeiros são impacientes e apresentam-se orgulhosos e individualistas. Certos também estão de que suplantem intelectualmente qualquer outro povo.

Isso não quer dizer simplesmente pretensão. Talvez o modo de destacar-se, de alimentar a vaidade natural no ser humano. E, vaidosos, apresentam a admirável galeria de cientistas, escritores e poetas que são respeitados no exterior, para onde também se sentem obrigados a exportar idéias revolucionárias.

Eis a síntese daquelas despedidas a meus saudosos amigos.

Anúncios
Published in: on janeiro 10, 2009 at 2:53 pm  Deixe um comentário  
Tags: , , ,

The URI to TrackBack this entry is: https://pmercadante.wordpress.com/2009/01/10/lembrancas-da-decada-passada/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: