Louvre, Sabor Reencontrado

22-2-74 6ª feira.

Hospedamo-nos no Grand Hotel após a viagem normal. Pela manhã, saímos pelas imediações, sentamo-nos no Café de la Paix após os telefonemas aos amigos, à Giuliana e Michael avisando-os de que estávamos cá.

Após o almoço, partimos para o Louvre. Demos maior atenção ao setor egípcio, resultado das indicações anteriores. Quanto a isso e a solução advinda da descoberta de sua escrita, deve-se a Jomard e Mariette e a outros arqueólogos como Botta, Sarzec e Dieulafoy, as coleções assírias e caldaicas.

Sobre a civilização elamita, nada havia que pudesse avaliar aquele povo, que indicasse sua procedência. A escrita não fora decifrada e o que se sabe diz respeito à antecedência. No entanto, posta em observação o mapa da Pérsia e ao norte pelo golfo até Amara, naturalmente alcança o leste onde irá encontrar a cidade de Susa.

Neste ponto, chamado pelos hebreus de Terra Alta, no grande platô iraniano, um povo de origem desconhecida desenvolveu a primeira civilização da história.

Talvez os elamitas procedam de tribo nômade de caçadores em torno de 4.500 A C. Nas pesquisas que a historiografia registra estavam eles próximos à avançada fase neolítica, pois cultivavam o solo, domesticavam animais e escreviam em hieroglifos.

Precederam à Babilônia e ao Egito com o torno do oleiro e as rodas ajustadas aos seus carros de madeira.

A cidade de Susa viveu por seis mil anos, confrontando-se em guerras com babilônicos e sumerianos em geral, afinal sobrevivendo até o quarto século de nossa era cristã. De pesquisas infindáveis não se descobriu escrita que, talvez, se tenha originado de povo de língua não-semita.

O Museu Britânico, logo em sua entrada, dedica-lhe a homenagem de anteceder a todos os sumerianos e, em verdade, provável o Elam ser o elo com cepas que provieram do ocidente e que pelo sul chegaram até o território egípcio.

Porém haja talvez mais suposições do que verdades nos esforços de arqueólogos. Quem sabe que das hipóteses de Pinharanda Gomes e Antônio Quadros, ainda em preparo, cheguem-nos algum dia a certeza dos laços existentes entre a cultura elamita e atlântica, oriundos do desaparecimento daquele continente, mas que já se haviam espalhado pelo sul da Europa.

É preciso levar em consideração que os cientistas são exatos, porém ortodoxos em suas investigações, ao contrário do humanista que liga a sua criatividade ao conjunto de informações vindas de todos os quadrantes.

Aqui, no Louvre podemos supor que haja em peças iranianas e sumerianas muitas caldaicas. As cidades soterradas da região, Eridu, Ur, Uruk, Larsa, atualmente com outros nomes, ergueram-se sobre as posteriores erguidas após a derrota do Império Romano do Ocidente.

A Napoleão coube a audácia da apropriação de bens de outros povos, que subjugava. Talvez porque se sentisse à vontade em razão de levar consigo arqueólogos como Champollion.

Digamos que se tornara a figura do dono da enchente, mas, enfim, o Louvre é hoje bem da humanidade.

O busto de Champollion nos faz a saudação quando acabamos de ver o fragmento do túmulo de Seti I, recolhida em Tebas.

O monarca está coberto por vestes de gala, conversando com uma deusa. Dela também recebe o cumprimento e lhe oferece uma coroa. A escultura encarna, em relevo harmonioso, o poder divino do rei.

A problemática dos Museus consiste em que as peças expostas resultam do acaso e, em geral, nem sempre se relacionam na história.

O visitante que pouco se afasta das versões dos fatos, ou faltando-lhe vinculação tanto ostensiva quanto encoberta das personagens, pouco alcança por meio de hipóteses. A não ser quando a exibição é acrescida por notas sobre o seu significado.

No Louvre, há o modelo clássico da sala da Mastaba, situada em outra extremidade, mas cujo conjunto de peças oferece a reconstituição da vida social e econômica do Egito com cenas de caça, de trabalho no campo, de navegação fluvial no Nilo.

Trata-se de câmara de ofertas tiradas do túmulo de funcionário de Antigo Império. Guarda a autenticidade vinda de nossas leituras e respectivas interpretações.

Há outras impressões que não tocam no imaginar do observador. Admitamos que se forme a relação com o autor ou objeto. Dão-se, assim, diferentes enfoques da mesma estatueta, suponhamos, de deusa egípcia ou grega, variando eles em função da carga emotiva que o indivíduo traz de suas experiências.

Por que os Museus não se armam de textos em torno da múmia ou de peças que lhe digam respeito?

Dependendo da observação, e do tempo, armamos a correspondência virtual. Que oscila com o correr do tempo ou a revisita. Quanto à última, Fernando Pessoa a denunciou como “ficção de pensar”.

Não há outra alternativa, esclarece o museólogo que montou a matéria. Sim, mas os complementos históricos converteriam as coleções em fatos existenciais de longa ou curta ocorrência.

Essa observação guarda o vínculo inicialmente salientado por Kant em sua Estética Transcendental. Sejam quais forem o modo e os meios pelos quais um conhecimento se possa referir a objetos, é pela intuição do observador ou sujeito que se relaciona de imediato, à intuição, fim pelo qual dá início, em forma de reflexão, a todo o pensamento.

Convenhamos, ainda, que o museólogo, enquanto ator, possa extrair de si a essência que fará multiplicarem-se as reflexões dos observadores.

Há como ressalva a circunstância de que a intuição apenas se verifique na medida em que o objeto ou o ser, nos sejam apresentados, só possível se a coisa nos atingir, assinala o filósofo, ou seja, o entendimento que pensa o objeto, pois dele é que provêm os conceitos.

Tal é o local de partida que sentimos em nosso primeiro encontro nos Museus com o que é problema. Trata-se de sensação de onde emanarão suas formas na hipótese de natureza empírica e de fenômeno.

Paremos nesse patamar de Niels Bohr para certa situação psicológica, admissível em razão de informações provindas do observador, reunidas pela vivência do que é já conhecido de outras fontes ou da interferência de informações dos genes especiais do cérebro. (Cada pessoa singular, do ponto de vista emocional, recebe todos os agregados que se julgam apenas imaginativos).

No Louvre, temos tantos acréscimos às coisas já vistas de modo que somos levados a inverter o clássico preceito de que a quantidade se converte em qualidade. Só levando em conta o relativo histórico admiramos o Escriba egípcio sentado, ao passo que tanto Mona Lisa, de Da Vinci, quanto Dois Escravos, de Miguel Ângelo nos fazem retornar à Renascença. De David, a Coroação de Napoleão I, traz-nos o apreço pelo papel romântico e enganador da burguesia francesa, enquanto que de Delacroix, a Liberdade que guia o povo é formalmente encantadora quando a demagogia está disfarçada por artifícios formais. (Assim como as vestes de Maria em Pietà para o equilíbrio da massa corporal de Jesus).

Após o almoço, passamos pela Rue St. Honoré 229 a fim de visitar Michael Field e Giuliana. Ana Elisa subiu até o sótão onde Maria Antonieta refugiara-se antes de ser executada pelo Terror da Revolução. Ali capturada partiu para sua cela em Conciergerie, no final dos dias negros, de onde também seguiram para a guilhotina, sempre neutra em sua atividade, tanto Danton como Robespierre.

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Published in: on janeiro 3, 2009 at 3:06 pm  Deixe um comentário  
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