O Esforço Pela Ordem

Basiléia, 21.2.1974- 5ª feira.

Pela manhã, ao Kunst Museum, caminhando, depois, pela margem direita do Reno. Subimos até Unterer Rheinweg, retornando pela Cherer Rheinweg até quase o final de Schafe Hauser.

O acervo é digno da cidade onde, desde o primeiro ciclo, as crianças são levadas a visitá-lo com professores de arte que realçam as singularidades de cada quadro e pontos comuns entre meia centena de artistas suíços ou suissos.

Os cantões, apesar da falta de idioma próprio, avançam no esforço pela busca de posição moralmente respeitável entre os maiores Estados, em plena era da decadência do catolicismo romano. De tal forma que nos anos quarenta do Século XV, seria Basiléia sede do Concilio que deu começo à inquietação estendida por toda a fase dos Bórgias.

Em meio as aspirações por outra era, estimuladas pelas grandes figuras da nova escolástica, a elite da pequena federação participava, ainda que discretamente, porém articulada com o intento que via na experiência instrumento que, por certo, chegaria ao universo do conhecimento.

O sopro forte do Trezentos, conduzido da península ibérica por árabes e judeus, despertava em toda a península italiana o pensamento científico, literário, bem como as belas artes.

Guilherme Tell teria sido o símbolo da unidade aspirada e foi então possível aos velhos descendentes dos celtas participarem como espécie de magistratura na turbulência entre os ducados, novos Estados e do próprio cristianismo em plena efervescência.

Tornavam-se os doutores, voltados para a Matemática, Anatomia, em direção ao conhecimento em geral, incluídas a arquitetura, a pintura e escultura. No início do Século Dezesseis, Hans Holbein, fixou-se em Basiléia, e para os escultores e pintores atingia-se a Renascença em seu apogeu.

Abrigavam-se em objetivos e inspiração, as raízes anteriores da produção beneditina de Saint Gall.

Em minha viagem anterior, apreciara o admirável casario do modo regular de suas fachadas. Predominava, ainda, em igrejas e solares o sentido estilístico da Idade Média, tendo o feudalismo deixado as suas marcas especialmente na arquitetura que não se sobrepõe, no entanto, a de outras cidades como Zurich, minha conhecida, notadamente a Catedral do século XI.

As vicissitudes históricas, o ânimo de luta pela unidade dos cantões, fizeram com que persistisse o estilo ogival, certamente influência da Alemanha, de cujas fronteiras Basiléia está próxima.

Dá-se a notar que a rota buscada e obtida pela persistência dos artistas, pintores e escultores, tenha suas raízes não propriamente no idioma alemão. Primeiramente, porque a “intelligentsia” sempre permaneceu temerosa, só se erguendo quando de ameaças.

Porém o que impressiona é o número de escritores e pensadores. Embora se liguem pelo espírito comum, a opção literária sempre foi para uma dezena de dialetos germânicos. No que toca à afinidade aos franceses, basta citar os nomes de Rousseau, Madame de Stael, Benjamin Constant, Eduardo Rod, os quais, posto que de origem suíça, são tidos como franceses.

Em conclusão, o espírito literário e artístico suíço é reconhecível como francês face a seu caráter cosmopolita. Ou talvez a compulsão prussiana que sustenta a dicotomia guerra-paz, respeite os valores enquanto fatores categóricos do inconsciente coletivo do povo suíço.

No que toca ao Renascimento, como forma de manifestação do novo, sente-se na pintura a influência da escola florentina, circunstância facilitada por ser a língua italiana também falada pelos suíços.

Porém só isso. Diferem-se os vizinhos no modo de ser. Nos hábitos, de certo modo no comportamento. A extroversão manifesta-se com as restrições impostas pelo norte da Itália, em especial pela gente de raízes lombardas e da região valdelina.

Em ciência, a vocação para a pesquisa é inspirada tanto na França quanto na própria Alemanha. No último caso, por motivo de instrumentos sofisticados próprios da medicina, da odontologia e da técnica das medições.

Quando do meu encontro em Zurich com Hannibal, muito ouvi de suas leituras e informações bem colhidas entre cientistas seus amigos, a respeito do que vem a República despendendo de recursos financeiros a fim de ser preparado o continente africano em hábitat futuro para os europeus quando eclodir a iminente era glacial nos moldes da última catástrofe há vinte mil anos por aí.

Apesar de discreto, em suas conclusões, captei algumas somas postas em projetos de rede ferroviária africana interligada a sítios onde a infra-estrutura dos centros urbanos se faz por critérios rigorosamente oportunos. Do fundo de seus tesouros, a Confederação Helvética salvaria a Europa e a si própria até o milênio para o regresso.

A África se recuperaria da miséria, do mesmo modo que a América, em suas regiões tropicais. Certa noite em Copenhague, o Embaixador Alcazar para mim desenvolvera quase que idêntica circunstância, mas a descrevendo como hipótese que seria duvidosamente viável.

Em meu modo de ver, onde se teriam meios tão elevados sem uma crise internacional.

Lembro-me que minha observação a respeito da justificava para salvar a humanidade de colossal violência que poderia destruí-la de vez.

Tudo me parecia surrealista e não seria a Suíça, tão pragmática, capaz de criatividade revolucionária de tal natureza.

O deslocamento populacional europeu teria de ser programado em prazo suficiente para que as novas tecnologias definissem a complementaridade de dicotomia cultura-natureza e outra mais complexa: automação inevitável – mercado de trabalho.

No que diz respeito ao regresso, após o término da idade do gelo, a questão é imprevisível em razão do extenso número de variáveis a serem identificadas.

Quantas gerações que não mais seriam os agricultores da última, mas, sem qualquer dúvida, outras munidas de novações tecnológicas como chips cerebrais para entenderem que não se poderia prever a nova condição humana.

Não me considero apto, nessa altura de 1974, só me preocupando com meus netos virtuais que alcançarão essa possibilidade de se mudarem para a África ou permanecerem no Rio de Janeiro.

Porém, disse a Hanniball: por que a Suíça faria tal ato de magnanimidade sem o concurso de todas as nações ricas? Seria a crise geral econômica ao arrepio do princípio de Nicolai Kondratieff e também das fantasias do saber econômico?

O novo sistema seria tecnocrático nos rumos ainda desconhecidos da logística contemporânea, que procura pela matemática apenas tornar-se a necessária Lógica restaurada.

De tudo isso viriam os desígnios simbólicos da herança passada e o maior profeta será Ovídio nas Metamorfoses que nos ofertou com a utopia da Idade do Ouro.

Visitando hoje os subterrâneos de Basiléia verifiquei espécie de miniatura que se fará no continente negro pela sobrevivência da humanidade. Constituiu-se outra cidade, com lojas, refrigeração, centros comerciais, hotéis e hospitais. Tudo se fez em razão da probabilidade, eu diria impossível, de guerra, o que seria afinal abrigo antiaéreo nuclear.

Mas que tudo seja exagero de sinistrose, forma sociológica da esquizofrenia, e que esteja havendo bom êxito nos esforços russos e soviéticos a fim de amenizar-se a próxima era do gelo.

Ana Elisa apreciou o Kunst Museum. Passamos, finalmente, pela Swissair para marcar nossa ida até Paris.

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Published in: on dezembro 27, 2008 at 3:03 pm  Deixe um comentário  
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