BURCKHARDT, O PESSIMISTA INSUPERÁVEL

Basiléia, 18.2.l974 – 2ª feira.

          Pela manhã em Milão, em despedida, outra visita ao Palazzo Vinci. Fizemo-la depois do longo percurso a pé até o Hotel. A caminhada, vagarosa, fez-nos crescer a intimidade com a cidade. A certa altura, sentamo-nos em um bar e comentamos o aspecto comum nas comunidades dos diferentes bairros que já havíamos visto em Roma, Florença e Milão.

          O panorama é quase idêntico com variações pequenas que não identificamos. Longe dos centros, as pessoas caminham sem a tensão metropolitana.

          Lembramo-nos do Leblon nos anos cinqüenta, do seu aspecto provinciano, onde as pessoas se identificam melhor no comum dos dias. Não sei o motivo por que me veio à lembrança do que sentira ao ler Giovanni Battista Vico, que vivera em dois séculos diversos.

          Não sei se hoje, década dos setenta, vinte anos depois, me faço entender na redução do pormenor ao geral.

          Napolitano, Vico aceitou o desafio que na época constituía audácia desmedida, suscitando restrições ao cartesianismo e à maneira de conhecimento da razão física. A igualdade do verum e do factum, fazem com que o homem possa conhecer e entender a história, que é a sua própria realidade.

          Um casal à nossa frente discutia com voz baixa, ele explicava-se, ela reprimia o sofrimento, os olhos a traindo de desespero, tudo demonstrando ruptura sofrida, definitiva. Assim, no final da manhã fria, exibia-nos em pequeno bar um fato que, naquele instante, fosse talvez o único do planeta.

          Porém, é assunto que não se avalia em meia página.Trata-se do papel do indivíduo singular diante de sua comunidade.

          Nossa ida à Basiléia prendera-se de tal forma em meu espírito que, quando de regresso anterior ao Rio, comentei com Ana Elisa que ter sentir o pulso daquela cidade, levava-me ao futuro, ao evolver de tudo a partir do sentimento humano. tida e havida como forma de educação que envolvia o seu próprio histórico.

          Era preciso atravessá-la por inteiro a fim de sentir a unidade das criaturas com o único propósito de não ferir qualquer planta, simples folha de um arbusto, de não aborrecer alguém sem desculpar-se com sinceridade.

          Às nove, quando a locomotiva partiu, deixei a companheira preparada para o trajeto, concentrando-se na harmonia do campo, logo ao passar as fronteiras da Itália.

          Para trás ficavam os bairros industriais de Milão, as chaminés fumegantes, soltando as negras fumaças, exibindo o progresso material nos pátios de sua atividade, vagões, carros, ônibus, aguardando a hora das partidas para o imprevisto.

          Ao fim da manhã chegamos ao Hotel Victória, deixamos nossa bagagem e descemos para girar pelo centro, atravessá-lo sem ruídos de businas, em velocidade que jamais ultrapassaria cinqüenta quilômetros por hora.

          De Schweiz Bundes até Freie Strasse, percorrendo Elisabethen Parking, apreciando locais. Não víamos mendigos, crianças abandonadas, apenas tranqüilidade das pessoas, alheias, que as observavam à discrição.

          Estávamos à margem esquerda do Reno, passando por sua ponte central e seguindo para Rittergasse.

          A questão que espicaçava o meu juízo, fazendo com que comentasse com a companheira em tom de espanto, como seria possível que ao longo de tanta calmaria, em plena era vitoriana, certo pensador, Jacob Burckhardt, escreveu, pregou e quase a exaltar-se destilou amarguras respeitantes à revisão da fé no progresso, na cultura, cujas evidências revelam-se em seu trabalho sobre o Renascimento na Itália.

          Sendo historiador da Basiléia, seu único pensador conhecido, assombra-nos mergulhado em seu pessimismo.

          Posteriormente, em outros livros, – Considerações sobre a História Universal e Fragmentos Históricos – ironiza a metafísica histórica de Hegel. Nelas faz despontar o seu desprezo, fixado-se em erudição arrasadora, para concluir que uma filosofia histórica é impossível.

          Seu pessimismo torna-se, pois, desgraçado, por ser abastecido com fatos concretos, enquanto se posta como profeta que anteviu o século seguinte.

          Sua idéia exposta é inacreditável, saída de um sábio e nos abala com provas.

          A desgraça na história não é um acidente, mas, sim, parte integrante da realidade universal. Os líderes são conhecidos, desde a Antiguidade, tiranos e mentecaptos.

          Em geral, o mau, o banal, é que vence e domina, a brutalidade dirigindo as elites, os pobres diabos que em torno se movimentam, arriscando-se diante da violência repressora e de tudo isso.

          Jamais brotará a vitória do bem. Entre aqueles que se alistam na categoria dos bons, destacam-se os que perseguem os maus.

          Em sua maioria, os adeptos do teólogo têm no painel, vendo-os, virtualmente no Século XX: a Primeira e Segunda Grande Guerra com as figuras carismáticas e os sistemas respectivos do comunismo com Stálin, o fascismo com Mussolini e o nazismo com Hitler.

          Enfim, ora passamos no crepúsculo em sítio onde Burckhardt e seu admirador Frederico Nietzsche tantas vezes dialogaram, o último mais jovem e no profético pessimista o radical que o subjugava no nascer do neo-cepticismo.

          Ambos na Basiléia. Coincidência? Como crer que exatamente no plano de civilização brotam dois extremistas a negarem o dever-ser, a linha ascendente de povos a erguerem-se de cinqüenta em cinqüenta anos ou estagnarem-se, da forma trágica prevista na Rússia ainda monárquica por Danilewsky.

          A consideração que fizera, nessa nova estada, sem as observações de Hannibal sobre o Círculo e seu programa, trazia-me o que sempre se ouve: o homem é fruto do meio em que vive. Tanto na filosofia quanto na literatura, qualquer pesquisa sobre o pensador ou autor, a propósito do meio e idéias, pressupõe a cultura em que vive ou viveu.

          Burckhardt não nos surpreenderia tanto se fosse alemão ou lá tivesse passado a juventude ou a maturidade. Seria mais pessimista do que Nietzsche ou Wagner, porém, mesmo considerando o conjunto de suas conclusões, bem distante dos neo-cépticos, das estaturas de Spengler e Pareto.

          Seria de pasmar, tendo em conta a serenidade de Basiléia, colocá-lo na Inglaterra vitoriana, na França imperial ou republicana. Porque ele responderia com as torpezas desfechadas por Robespierre e seus sequazes.

          A lógica dos acontecimentos está sempre mais próxima aos demônios. Só nos restam suas conseqüências, às vezes benéficas.

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Published in: on dezembro 20, 2008 at 3:06 pm  Deixe um comentário  
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