Pisa, o adeus do Rio Arno

Pisa, 16.02.1974, Sábado

          De trem lá chegamos pela manhã. Cidade original. De sua paisagem o Rio Arno despede-se da Itália com as suas águas claras para desaguar no Golfo de Gênova ainda Mar Ligúrico.

          Integra, desse modo o conjunto de belas cidades, vizinhas de Lucca, Livorno e Florença, a rainha da Toscana. Do Mar Tirreno recebe o cumprimento informal da Córsega, terra natal de Bonaparte, e da ilha de Elba, onde esteve prisioneiro.

          Cidade com passado que antecede Roma, palco de fatos históricos que se perdem entre os séculos quinto ou sétimo A C., tempos de gregos e etruscos. Havia de tornar-se a República Marinheira, pois o mar fazia parte de sua vida por tão perto que lhe ficava.

          Centro de cultura pela Universidade, participante das guerras pelo predomínio nos mares. Dominado por Florença no tempo dos Medicis, destacou-se ainda pelos artistas e intelectuais, criado então por alguns dos seus filhos o estilo arquitetônica pisano.

          Uma sucessão deles – Buschetto, Rainaldo, Bonanno Pisano, que inciou a Torre Pendente, Tommaso, Andréa Pisano concluíram o campanário. Também na escultura destacaram-se vários clássicos como Guglielmo, Nicola e Giovanni.

          Finalmente, nosso conhecido desde o Ginásio, Galileu Galilei, que revolucionou a ciência do tempo, seguindo ao polonês Copérnico o maior físico do Renascimento.

          Saindo da estação, em viagem tão curta, seguimos de táxi em reta quase constante que nos fizera atravessar o rio, no exato ponto da Igreja de São Paulo a Ripa d’Arno Então, o motorista tomou, a nosso pedido, a via de Santa Maria a fim de chegar ao Campo Santo Monumentale, onde em nossas mãos ficavam o Battistero, a Cattedrale e a Torre e Sinos ou Campanile.

          Estávamos em Pisa. Começara a nossa peregrinação vagarosa, vendo os afrescos desbotados, gastos, que nos davam a impressão de abandono, embora falsa, porque, naturalmente leigos, a restauração nos parecera possível ainda.

          Para concluir, a Torre Inclinada, cujos degraus nos deram o próprio passado, como se nossa vida estivesse em regresso.

          As horas passavam, e escolhemos Antonietta na própria Piazza Del Duomo de cugina toscana, que nosagradou a fim guardar para sempre o conjunto de harmonia rompido por aquela Torre que parecia inacreditável.

          A Catedral tornava-se estranha com a Torre Pendente, inacreditável, mas em seu interior recuperavam-se o equilíbrio das colunas, o azul do meio dia que entrava por suas janelas retangulares.

          O que pensar daquela cidade, que idade teria, a preceder Roma em seus séculos de vida. Abrigara, em verdade, os etruscos que não podemos avaliar, porque Roma os aniquilou impiedosamente.

          A um quarteirão de nossas mesas na calçada estavam as ruínas de termas romanas, construídas quase há dois séculos antes de Cristo. Que dizer, ali sentados, República Marinara, terra dos Pisanos, a presença de Galileu!

          Pisa era dádiva dos Pisanos,, edificaram-na do ponto de vista arquitetônico, artístico.

          Nosso passeio prolongou-se até o crepúsculo. As vicissitudes em seu fatalismo não pesam na avaliação final. Mesmo os bombardeios alemães castigaram aquela serena beleza da tarde, o sopro ameno vindo do Tirreno, o sóbrio traçado do casario, nem aqueles afrescos desbotados, úmidos e tristes da Catedral.

          A violência faz parte das habituais formas do homem firmar a sua reputação. Assim, em verdade, desde a Mesopotâmia. As guerras, os saques, os estupros e latrocínios. Também consideremos a resposta da natureza ultrajada: o castigo da peste e da morte.

          Hoje, encontramos, em manhã e tarde de neblina, no centro desta problemática. Il Campo Santo, de onde saímos, mal deixando o táxi. São obras de estilo românico, levantadas no apogeu da cidade-estado.

          O Arno, quase no final de sua caminhada, mostrava-se como nós, vagaroso, melancólico em ter de deixar a cidade. O burgo não perdera o seu estilo próprio, impregnado de ares fenícios e gregos.

          O Trezentos. Tudo fazia florescer como deusa generosa. Até em seu meado, os mercadores participavam da aventura pelo Mediterrâneo em caminho do Mar Egeu, e visitavam a Sicília, o norte da África. O resultado é conjunto de fatores desencontrados.

          Lembro-me de Toynbee referir-se à prova em muitos casos: do desabar das muralhas e tornar maior a área protegida.

          No Quinhentos, formava uma cultura própria. A família Pisani levantava as artes.

          Atravessamos a Piazza dei Cavalier e alcançamos a Piazza Dante para ver olhar com certa pressa a Chiesa della Spina.

          Dessa vez, a pé, nela entramos para admirá-la em seus púlpitos, tão belos quanto os da Cattedrale.

          Talvez a única visita em nossa vida e tão fugaz, Nem tempo de indagá-la de Puccini que lá tanto se emocionara ao assistir a apresentação de Aida de Verdi a mudar o seu rumo a fim de conduzi-lo à composição lírica.

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Published in: on dezembro 13, 2008 at 12:18 pm  Deixe um comentário  

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