Algumas considerações

Firenze – Milano, 17.02.74, Domingo

          A manhã e tarde por Florença. Despedida passo a passo. No jantar de ontem, como em debate, eu e Ana Elisa procuramos refazer as caminhadas do dia. Havia valores próprios entre as duas cidades. Florença sobrepunha-se porque em Pisa se inspirara.

          Pisa já fizera a revolução literária quando Dante escolhera o idioma materno para compor o seu poema. Não só a língua era trocada, mas dava início a outro tempo com o abandono do Latim., com a troca dos hexâmetros por estrofes toscanas.

          Liberada a servidão lingüística, urgia desenvolver as formas da pintura e escultura. Nisto consistiu o empenho dos gênios pisanos e florentinos.
A Renascença alcançara nova dimensão.

          O que melhor caracteriza a idéia do confronto entre o velho e o novo foi a disputa entre Perugino e Miguel Ângelo no Salão dos Tintureiros cá em Florença, quando fez este último o afresco das banhistas. Indignado, Perugino ameaçava lançar o pintor nas masmorras a fim de não destruir o que os homens decentes haviam criado.

          Apegava-se ao antigo. Ghiberti, Donatello, Lucca della Robbia, Guirlandaio, mantinham com o Quatrocentos, o compromisso formal com a própria Meia Idade. Miguel Ângelo ainda retrucara que a fúria de Perugino parecia com a de Savonarola.

          Ontem, acabando de jantar, decidimo-nos a revisitar Santa Maria Novella, estilo romano-gótico dos fins do século XIII, excluída a parte superior. Afrescos de Paolo Uccelo, a capela Rucellai teve a participação de Miguel Ângelo quando jovem. Vimos ainda Giotto na Barsi e as Exéquias de S. Francesco.

          Seguimos até o Museo del Bargello. Difícil concluir qual o acervo mais precioso, o seu ou o de Uffizi. Porém, considerando a pressa da visita, seria preferível fixar alguns desafios.

          Por exemplo, apreciar a competição entre Miguel Ângelo e Donatello tornava-se decisiva, pois lado a lado estavam os dois David e para aguçar a observação, via-se também o de Verrochio, ocorrendo próxima à outra disputa os Bacos, de Sansovino e o de Miguel Ângelo.

          Meia dúzia de trabalhos de Donatello definia-nos aquele tom clássico que devia ser superado pela audácia dos renascentistas. Mas o que sempre nos deixava surpresos era, como no mesmo impacto recebido do Uffizi, a quantidade de obras primas de artistas menos famosos como Pollaiolo, Luca della Robbia mesmo Brunelleschi.

          Era hora de partir, devíamos seguir a Milão às cinco e trinta da tarde a fim de chegar às oito e trinta da noite.

          Encontramos os ferroviários em greve, a bandeira vermelha pela plataforma, os carregadores ausentes e só os líderes nos olhavam penalizados, porque táxis também aderiram. Um dirigente que se punha a dar ordens e olhar com ar de chefe os companheiros atendeu-me solícito e aludi, de início, a minha nacionalidade e a circunstância de estar em viagem com a minha esposa.

          Marcara reserva no Ambasciatore e lhe fiz ver que a perderia caso lá não chegasse antes da meia-noite.

          – Bem, consigo-lhe outro aqui próximo e mando-lhe Alfredo convosco. Agradeci e seguimos ouvindo o lugar-tenente do amável grevista que nos explicou as razões de salário que motivaram o schoppero.

          Assim nos preparamos para o descanso e da janela eu via a saudosa Milano que parecia nos esperar.

          Ao Centro, pela manhã. Descemos na Galeria e seguimos direto a Duomo para a visita ao seu Museu. Depois, passando pela Arcada da Galleria. visitamos a Igreja Santa Maria delle Grazie. Em seguida, a pé, uma caminhada até onde suportamos.

          Era o Cenáculo Da Vinci onde se mostra a Ceia. As bombas da guerra atingiram todo o redor, mas a parede central do Templo conservou o mais famoso trabalho do florentino. Estava bem gasto, a exigir uma reparação salvadora. Imaginei e disse à Ana Elisa que nós fazíamos parte da minoria da humanidade a alcançar a parede de pé.

          A situação era dramática. Meio milênio de infortúnios nos cercava naquele instante. Há séculos que suas cores perderam o brilho, mas a cena desbotada era rubra.

          No século XVII os religiosos do convento destruíram parte do afresco, abrindo uma porta em baixo de Jesus. Por séculos sofreu a Ceia a ação da umidade e fuligem, servindo de estrebaria aos soldados franceses e austríacos.

          Para nós, muitas recordações. Certa vez, quando presente em aula de desenho. Funhchal Garcia explicava-nos a simetria que dominava a obra, referindo-se a Jesus em seu centro, separando as personagens em números iguais. Quatro janelas laterais e destacam-se os discípulos em grupos de três. Ciente do que fizera Judas, ele revelava a desgraça do seu sacrifício. Leonardo o retrata em gesto de perplexidade. A versão diferia da idéia corrente de Andréa Del Castagno e de Domenico Guirlandaio, duas figuras tranqüilas e tristes pressentiam o destino trágico do Mestre.

          Da Vinci iria rompeu com tal estilo conformado. Dera uma energia aos discípulos, que ganham na tela a vivacidade que mereciam. Aparecem a partir de então como criaturas humanas. Quando o barroco advém, Jacobo Bussano poderia distingui-los nos exageros dos grandes artistas.

          Retornamos de táxi. Antes almoçamos nas proximidades, próximo ao posto de gasolina onde Mussolini fora exposto.

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Published in: on dezembro 13, 2008 at 12:19 pm  Deixe um comentário  

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