O batismo no Arno

Florença, 15.02.74, Sexta-feira.

          Após o café da manhã, rodamos e rodamos sem destino. Ao chegar à Piazza della Signoria, convencemo-nos de que não havia como não render-se, e deixar ao acaso o nosso destino.

          Florença não era Roma que se dividia e se subdividia em sítios a partir de fatos imprevisíveis. O coração da Cidade Eterna sempre fora o Vaticano, os romanos ornaram-no com arcos e colunas que consagravam vitórias militares.

          Porém a consagração do Belo em toda a península fizera-se por meio do centro político de Florença, representados pelo Palazzo Vecchio e la Cattedrale Santa Maria Del Fiore. No primeiro residia o espírito da cidade-estado e no último o braço do Vaticano.

          Durante as crises, as duas forças mediam-se, a eleição de um novo Papa fazia-se em função das famílias florentinas e romanas na rivalidade respeitosa que parecia um céu de nuvens negras a prenunciar o fim do mundo.

          Sem contar os olhos estranhos de outras nações a intrometerem-se em forma de intrigas e casamentos reais.

          As ruínas na cidade eterna eram o passado imperialista interrompido por supostos bárbaros. Tratava-se de sono longo, cuja partida nos foi dada com a decisão de Júlio César no desafio do Rio Rubicão. A sorte está lançada.

          Em poucas linhas, Florença, no remoto passado, foi crida pelos etruscos no vale do Arno que a percorre, quando os romanos a submeteram, desfigurando com a conhecida violência os traços primeiros de seus floredos.

          A agricultura e o comércio deram-lhe alento no correr dos séculos, erguendo-se as irejas de San Lorenzo e Santa Reparata. Dois símbolos imorredouros do passado.

          Florença, depois, foi ideal grego, idealizado pelos conquistadores, de sobrepor a estética à ética extremada da Idade Média. Como no caso das escolas jônica, eleática, pitagórica e finalmente aristotélica do helenismo, os renascentistas exibiram o belo em sua nudez e projetaram-no, enquanto modelo da verdade, à intimidade com a arte pelas mãos dos seus filhos.

          Meu lado paterno de remotas raízes hebraicas, convertida ao cristianismo pelo ideal essênio, manteve tradições que na era das cruzadas de uma, participou, de forma a conservar-se o marco ainda figurando no Stemmi delle 21 Arti – Brasão de Mercatanti ou de Calimaia.

          Galileu, da Vinci, Miguel Servet, Fra Angélico, Botticelli, Michelantelo e outros levaram-nos à sucessão de Copérnico, Newton, Pascal, Descartes, Leibniz, Kant, Hegel, alcançados os nossos dias com Einstein, Fermi, N.Bohr, Proust, Kafka, Orwell, engenheiros e profetas de outras eras.

          Havia diante de nós fatia de tempo que devorava minutos e horas, vindo-nos tantas cenas históricas que nos confundíamos, mas nos faziam voltar ao passado em busca de símbolos despertados.

          Se a flecha-do-tempo alienar-se, e, como o neutrino, retornar ao passado, fixará a sua virtual percepção no então futuro Quinhentismo, tornando-se a Piazza della Signoria perplexa em razão de dicotomias de duas eras: a Meia Idade inspiradora de Savonarola e as figuras de David e Pietà trabalhadas pela inspiração de Donatelo, Miguel Ângelo, Andréa Del Verrocchio e Bernini.

          Pusemo-nos no Uffizi, aos seus corredores, até a saída para o almoço tardio na Casa de Dante.

          Ela fora reerguida, do idêntico jeito que existira em vida do poeta, mas nos dava a ressurreição com as mesmas pedras e tijolos que sagradamente a fizeram retornar ao presente. O espaço relativo aceitara a mágica de receber no mesmo local onde correra o tempo que ficara para trás.

          A Divina Comédia, em sua essência, havia de tornar-se a Idade Média como síntese de moralismo tenebroso e de Ética devastadora, dissera certa vez Pico della Mirandola em palestra informal na Academia Platônica.

          E diante de Lourenço, o hálito do passado via confundirem-se deduções, subvertendo, derruindo interpretações no campo do pensamento.

          Lourenço no leito de morte abençoado pelo obscurantismo de Savonarola; Boticelli, em crise de desespero, inutilizando as suas obras em fogueira de fé.

          O Magnífico via em dúvida naquelas vascas de espanto ser por ele absolvido de pecados veniais e sucumbir.

          Iríamos saber, então, que nosso conhecimento de fatos é frágil e destorcido por realidade fragmentada. Seis séculos de debates sobre o objeto da filosofia resultam às vezes em idéias que lhe atordoam os enigmas.

          A dicotomia exposta entre o extremo ético da Igreja e o parto da Renascença não conseguia compor-se. Seria necessário aguardar a presença de Kant, no final do Setecentismo, a fim de buscar a complementaridade entre o Bem da Meia Idade e o novo Belo do Romantismo.

          Não da forma que Lourenço idealizava, que tudo pudesse resolver-se em função da hegemonia do Belo.

          Florença tornara-se após a morte do Magnífico a réplica dos tempos difíceis de guelfos e gibelinos em plano diverso, antes político do que de idéias. Eram outras as variáveis. Uma delas, a paranóia do Pregador radical diante da tirania depravada dos Bórgias, pai e filho. Na minha formação, a pena imposta a Miguel Servet serviu para distinguir as diferenças entre o cristianismo do Cristo e as facções da Igreja.

          Para isso contribuiu a figura de Castelio em simples frase enviada a Calvino.

          Miguel Servet tivera a ousadia de revelar que o sangue percorre o coração, artérias, vasos e capilares tanto das criaturas racionais, quanto irracionais. A frase de Castelio: matar um homem não quer dizer defender uma doutrina e sim matar um homem – impediu-me de aceitar a pena de morte sob que motivo fosse.

          O problema de desejado diálogo com o pretérito florentino perdia-se quando nós caminhávamos ao longo daquelas paredes enormes como muralhas de castelos. Então, não eram as guerras cruas que me tocavam, porém a arte impregnada do autêntico.

          Houvera cá em Florença, desde o século XIII, estado potencial de renascimento, mas que se fixara no terreno do liberalismo em ação política. Sim, em Colóquio, nos meados do século XV, os scholars já debatiam com os gregos temas relativos à filosofia e literatura pré-cristã.

          Nos Medicis era repercutida a insistente preocupação de toda a sociedade que conferia aos artistas e poetas a veneração que se presta aos santos. Pisano, Ghiberti, Donatello, Bruneleschi, na escultura e pintura, Miguel Ângelo é iniciado na puberdade por Domenico Guirlandaio em Santa Maria Novella.

          Havia pintores que tanto Leonardo quanto Miguel Ângelo, na época, o fizeram ao arrepio dos seus princípios religiosos, subvertendo tudo aquilo que fizera o pré renascentismo.

          Lucca della Robia, Botticelli, Ticiano, Caravaggio e Rafaello, sem falar em Leonardo da Vinci para não cair em lugar comum. Sem sombra de dúvida, ele, o citado, e Miguel Ângelo constituem o ponto até onde a inteligência humana pode alcançar. No plano do belo e da verdade, põem-se ao lado de Aristóteles, Copérnico, Newton, Leibniz, Kant, Einstein e Fermi, as colunas da inteligência humana.

          Não há, certamente, cultura mais robusta do que a toscana, cumprindo-se, desse modo, outra missão aos seus filhos, a de criar-se das próprias raízes romanas, pelo tema e estilo, o que Dante deixou escrito em sua obra.

          E lá estava o meu espanto a revelar-se como alguém:”tenho a vontade ao encontrar qualquer florentino, de tirar o chapéu e curvar-me”.

          Caminhamos pelas margens do Arno, atravessando Ponte Vecchio, retornando para duas visitas às Catedrais Santa Maria Del Fiore e La Basíica de Santa Croce.

          As nossas resistências esgotavam-se e devíamos ainda fazer o percurso de volta após o jantar. Mas o chianti nos animou o espírito e percorremos as margens do Arno como no passado dos etruscos.

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Published in: on dezembro 6, 2008 at 4:03 pm  Deixe um comentário  

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