No umbral do espanto

Florença, 14.02.74, Quinta-feira.

          Às dezesseis e quarenta, tomamos o trem para Florença, e ao chegar e sem necessidade, o táxi nos levou ao Hotel Basiléia. A praça parecia dormir porque a temperatura baixara. Sentimos, no entanto, que tivesse sido melhor atravessá-la e caminhar talvez duzentos metros.

          Eu e minha companheira olhávamos a paisagem e falávamos bem dos romanos. As gentilezas de Guido, de seus auxiliares, apesar do retorno, pois lá ficaram as malas grandes a fim de facilitar nossa ida a Florença e arredores.

          Cada vez que circulava por Milão ou Roma, observava a autonomia de cada pessoa quanto à sua condição diante da Itália enquanto unidade. O nacionalismo estava bem no fundo da alma latina e não se manifestava em termos de patriotismo exagerado ou xenofobia.

          Acabara de por os pés na Toscana, em sua capital soberba. De Tosca, tão ardente por inspirar Puccini, a sombra de Eleonora de Medicis na sóbria janela do Uffizi, de longe apenas imaginada por Dante em sua Divina Comédia, de Contessina, filha de Lourenço, primeiro amor de Miguel Ângelo, de Beatriz Portinari, musa silenciosa de Dante,Victória Colonna, casta como franciscana do século XIV, vinda do sentimento espiritualizado.

          Recordo que ao descer os degraus da estação, veio-me a lembrança de certa noite, em meus treze anos, lendo-me meu pai a ode de Raul de Leoni a Olavo Bilac, no percurso de um peregrino, só possível ao poeta, descrevendo a expectativa virtual contida em seu trajeto pela história.

          Juro, caro contemporâneo, que o poeta me imprimiu a certeza de que aqui viria eu, não sabia quando e nem por que razão, e pela expectativa de minha infância, me adveio a certeza desta vinda, luzes de outro tempo com sinos que batiam no cair do crepúsculo.

          Séculos passaram-se no instante, a consciência do que houvera, a realidade da brisa que nos saudava. E no final da reflexão da noite e da hora, veio-me como por encanto o fim do poema levemente alterado pelo meu pragmatismo, de que o sentido da vida e o seu arcano é a inspiração de não ser divino, no prazer de ser humano.

          Meus passos ora são disfarces de quem peca, horror de profanar sombras intocáveis. Um só sôfrego perdido no presente, mudo entre o sólido da arte construída, mármore e tempo, gastos no futuro, a receber do céu a música da vida falsamente atenta.

          Só deixar o manifesto do sentimento, estará evitada a síndrome de Sthendal, disse à Ana Elisa ao atravessar a estreita rua do nosso albergo.

          A palavra paese, expressiva no latim vulgar, abrange tanto pátria, nação quanto aldeia. Lei è di Firenze? Indagamos. Sì, sono fiorentino, resposta no sentido de ter nascido em sua cidade-estado.

          Para ser mais claro, o orgulho não é exclusivo da província, mas da pólis, enquanto soberana. Sì, sono napolitano, mas a península no todo, denominada Itália, pode ser usada com restrição de quando em vez: sono meridionale, todo o sul entendido.

          Há, porém, o orgulho abrangente no que tange à música, às artes em geral, à seleção esportiva em disputas internacionais.

          A Península, afinal, tem leis idênticas nos terrenos do direito público e privado. O governo é único pelo voto e o sistema é parlamentar, sendo que o Primeiro Ministro é escolhido nas hostes majoritárias.

          Tudo isso quer dizer que a Itália, em nossos dias, é conjunto harmônico de definidas nacionalidades, orgulhosas de seus cientistas, poetas, de seus escultores e pintores, porém, há medidas nas coisas, existem afinal certos limites.

          Por certo esse sentimento regionalista não é o de Roma Antiga e posteriormente a dos Papas. As cidades-estados, ainda no século dezessete, brigavam entre si, o Vaticano interveio em disputas que envolviam interesses franceses, espanhóis e austríacos. Alexandre VI sentia-se um espanhol, Bonaparte era tido como herói e quis plantar em Roma particularidades da cultura francesa.

          De certo modo, ele sentia pela Córsega sentimento reprimido em não levá-lo livremente consigo e tal desígnio vislumbra-se no longo diálogo com o Conde de Lãs Cases no clássico Memorial de Ste Hélène.

          Mesmo na Praça Vendôme, sua postura ao olhar para o leste não pode subentender outro sentido senão, como de um César, ser arrojado como Caio Júlio ou Augusto.

          E manifestava as suas simpatias pelo Iluminismo, amenizando-o e voltadas para a burguesia que adorava o matrimônio da filha com o nobre ainda que decadente.

          Por conseguinte, jamais se manifestou a favor ou contra a unidade da península. Talvez tomasse as precauções junto aos companheiros de farda.

          Com o fim do Poder militar romano, no século V, cada segmento invasor fixou-se, não com intento de prosseguir em confrontos, mas de dominação feudal sem preconceitos de raça. A miscigenação processou-se, considerando expressiva influência germânica. A latinização e o cristianismo serviriam de instrumento a fim de pacificar e esquecer o passado, não tentando modelar tipo qualquer de etnia.

          O fascismo italiano, quase dois mil anos depois, cogitou de imprimir nos latinos a inclinação bélica que possuíam os romanos. Entretanto, os alemães e franceses superaram as raízes godas e gaulesas.

          O erro de Mussolini e seus adeptos consistiu em confundir os caracteres dos romanos com os atuais italianos, morenos ou louros, resultados de várias etnias que na Idade Média se agregaram a outros tipos vindos das conversões, inclusivamente de participação semítica.

          A viagem tornara-nos libertos de consultas e teses até recentes, que as revistas científicas publicavam. Observações despidas de toque acadêmico, antes atentas às experiências da vida.

          Na Portaria, o gerente que checou os passaportes, mostrou-se amável por um pormenor meu conhecido: apreciava Savério Mercadante tanto em sua fase barroca quanto ao seu período romântico ou pré-verdiano.

          O Hotel era antigo, fizera a reserva por indicação de Hannibal que lá se hospedava quando em seus passeios.

          Jantamos em modesto restaurante. Conversávamos quando um casal ao lado perguntou-nos gentilmente em que idioma ora falávamos.

          Cansados, meia noite, e chuviscava. Só havia expectativa em nossa curiosidade. Não que não nos fizesse lembrar a visita ao Museu Borghese pela manhã.

          Próxima estava a réplica de David na Piazza della Signoria, onde Savonarola fora levado à fogueira, pondo-se fim à tirania da Ética Medieval.

          Deixar os séculos correrem, que viria outra. Afinal, o eterno retorno dos tiranos.

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Published in: on novembro 29, 2008 at 2:49 pm  Deixe um comentário  

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