Três Romas numa só

Roma, 13.2.74, Quarta-feira

          Bem cedo, passando pela Via Veneto, alcançamos o Museu Borghese e desistimos de revisitar o Etrusco. Deixemo-lo para outra ocasião, sugeriu Ana Elisa e já era meio dia e meia, havendo o compromisso de almoçar com o casal Luciano na Via Nazionale, quase em frente ao Castelo e ao Mercato Trajano.

          Em verdade, pouco se sabe daquele povo em razão do massacre que lhe infringiu o romano a ponto de levar-nos a julgamentos pesados sobre a condição humana, além de incerteza quanto à lei histórica de que os povos superiores, mesmo vencidos, transmitem informações e hábitos ao vencedor.

          Dos etruscos, pois, sabemos de seus avanços para época, raízes de palavras no idioma latino são muitas e pinçadas às vezes pela etimologia. Enfim, a atitude dos romanos diante de um povo mais avançado e progressista, é um mistério.O conceito de lei que sustenta a subordinação aos mais adiantados não vigia no caso.

          Absorto na juventude pela atividade na área da mecânica, no passo natural do empirismo para o teórico, confundiu-me de início o conceito de lei, uma vez que em meu curso de ginásio, a disciplina História, de quando em vez, fazia referências às conexões com a filosofia, enquanto os professores de matemática e física tinham sentidos ortodoxos a propósito de leis científicas.

          Não me esqueço que até Stáline formulou o seu habitual raciocínio mecanicista em protegê-las ambas, sob os imperativos supostamente leninistas. Para o conhecido tirano, simples norma legal ou regulamento burocrático, partido da direção do seu Partido, era marxista e, ipso facto, científica.

          Já no decênio de cinqüenta, por leitura do Pensamento Antigo, de Mondolfo, impressionou-me a reflexão de que o conceito inicial de lei teve início a partir das regras que imperavam no campo social, Atuavam sugeridas pelo começo mitológico dos deuses.

          Digamos que jamais tenha existido unidade conceitual no vocábulo, circunstância agravada pelas dúvidas etimológicas existentes. Então, há de convir que a respeito da matéria muito refletiram Varrão, Cícero, São Tomás e Momsen.

          Outros pensadores complicavam a causa, acreditando derivar o termo lex de raiz indo-européia com argumento no substantivo alemão Gesetz.

          Conclui-se, assim, manter-se o sentido fundamental comum, o que nos fez cair na noção geral de principio dinâmico, como, exemplificando, fazendo-nos aceitar por motivos de experiência que lei é mesmo um princípio ordenador de atividade.

          No final da guerra, retornando à vida civil, entre os professores de direito, questionei o caráter analógico da palavra, ouvindo então de Santiago Dantas a justificativa didática da chamada Ciência do Direito na definição de Montesquieu em seu estudo clássico sobre o espírito das leis.

          Bem, então, pus o ponto final em meu interesse. Em síntese, as leis sãos relações necessárias que se originam da natureza das coisas.

          Serviam para o cotidiano, porque não diziam nada, bacharéis e burocratas produziam preceitos que os magistrados aceitariam como cogentes e tudo concluído. Ou como sugeria Tertuliano: certum est quia impossibile est.

          Quanto encaramos o outro lado da moeda, ou seja, a lei científica, esbarramos no teorema de Gödel, a autonomia da Lógica Formal não nos ajuda. E disso tivera a experiência no trato da Logística que avança, é verdade, com extrema dificuldade. Então voltemos ao passado de Galileu e Newton: recorramos ao método experimental.

          Tudo, enfim, são pontos de vistas meus dos anos setenta, que não ouso julgar hoje válidos, seguindo a autoridade de Popper: uma interferência dedutiva é válida se não existe exemplo contrário.

          No terreno dos acontecimentos, há dúvidas e certezas. A lei histórica de que a inferioridade cultural do vencedor cede-se à superioridade do vencido faz crer que a recíproca seja verdadeira. Na primeira hipótese, temos o exemplo de romanos e gregos.

          A cultura greco-romano é, em sua essência, grega como inspiração e digna de respeito aos latinos. Mas, com relação aos etruscos, apenas a superioridade militar dos romanos foi suficiente para o não acatamento da cultura superior dos primeiros incorporar-se aos últimos.

          Os bárbaros, ao contrário, derruíram a materialidade da cultura latina, porém se cristianizaram e latinizaram-se no idioma do vencido. O que vê, pois, é a incerteza e não o determinismo da suposta lei histórica.

          Hoje, nossa visita ao Museu Borghese nos deteve. O conjunto que compõe inclui a Chiesa de Tinita’ dei Monti, que precede quatro anos o nascimento do barroco e um século depois foi consagrada. Não é romana, e sim francesa, inclusivamente restaurada no segundo decênio do Oitocentos.

          Nosso vôo de pássaro por toda a arquitetura merecia tempo necessário. Ficaria para nossa volta algum dia do futuro.

          Concentramos nossa atenção no Museo Borghese em razão de ser mais voltado para o napolitano J. Lourenço Bernini, que viveu na França na era de Luís XIV. Esse fato magoou não só os romanos como os próprios meridionais. Mas seu estilo barroco suplantou, tornando-se graças a seu estilo atormentado, o espanto que nos arrebata.

          A primeira sala do Museu é toda composta de obras da escola úmbria e toscana, exibindo Pinturicchio, Del Sarto, Botticelli e Rafaelle.

          Em outra, desde Venere Vincitrice, de Canova, o retrato de Paolina Borghese até a sucessão de trabalhos de Bernini em seu David, estátua esculpida no decênio de vinte do século dezessete.

          O tema é fascinante perante história da arte. Donatello, Miguel Ângelo e o próprio Bernini tomaram-no como símbolo de Apolo, platônico, mas herói, em contraponto invertível figura destinada à luta e recorrendo ao ódio como na intuição de Bernini. Este o põe na condição daquele que luta sem qualquer pejo ou tranqüilidade.

          Outras obras do mesmo escultor: Apollo e Dafne, O rapto de Proserpina e 17 bustos dos imperadores em pedra purpúrea. Também presentes Botticelli, Rafaello. Ainda outra tela é típica: de Tiziano: Amor Sacro e Amor Profano.

          O impacto vinha do começo do Renascentismo até seu final eloqüente com Bernini. Presentes Caravaggio, Rubens, Corregggio e Veronese.

          Saímos preocupados com o almoço que o casal amigo nos oferecia do apartamento quase vizinho ao nosso Hotel.

          A Luciano, em sua cobertura, apontei-lhe, tendo em vista a perspectiva, o sentido que Roma me ia fazendo em cada visita.

          Desde a primeira vez, com as limitações da época, a cidade antiga era o centro de irradiação que se constituíra como greco-romana com a nova imposta pela Renascença em sua autonomia, criando as direções de uma cruz que se comunicavam ao redor da cidade antiga, após a devastação do século V pelos bárbaros.

          Depois, as cinzas das estrelas fizeram subir o solo de sete a nove metros e não fossem o desenvolvimento do cristianismo e o idioma latino com a sua literatura, não teria ocorrido a conversão dos chamados bárbaros e, por conseqüência, o nascimento da Meia Idade.

          Tais variáveis proporcionaram Constantino 1º a formação de novo Império no Oriente, mas o impacto helênico na cultura latina criou o novo estilo que os povos germânicos não conseguiram derruir. Nem o quiseram, pois o rolo compressor não era um projeto, por acaso fez nascer o feudalismo.

          Nova avaliação se fez dos modelos deixados pelos césares e antoninos e quatro séculos transcorreram até que o Vaticano percebeu o esforço inicial de Constantino I deslocando os Papas de Latrão. Astuta a medida de criar-se o vínculo religioso e político com as projeções ocidentais do cristianismo.

          Giorgio Vassari, ainda na primeira metade do século XVI mencionou o que vira e ouvira sobre a cidade velha.

          Roma era realmente uma estrebaria, os esforços perdiam-se nas intrigas do Poder. O que ainda restara dos roubos e furtos eram pedras de construção, tijolos e mármores. Os peregrinos eram assaltados, despojados de seus recursos e mortos.

          Embora o Papa Sisto IV fizesse esforço para reconstruir ou reparar alguns palácios, certo dia faleceu, ascendendo ao poder do Vaticano o conhecido Alexandre VI, o Bórgia, que se preocupava apenas com política e corrupção.

          Quais os pontos referidos, frutos da Renascença, que prepararam a cidade para a Segunda Roma? Centenas, porque mantiveram as ruínas da Città Vechia e o espírito dos gênios criou-se para a missão transcendental de não deixar Roma sucumbir como Babilônia.

          A estética suplantou qualquer obstáculo medieval para a criação de gênios. Tão ousada a assertiva, que buscamos outra versão e nada achamos.

          Mas imaginemos as retas que criavam ângulos como flechas de irradiação das Colunas, do Mercado Trajano, do Panteon, de Navona, dos jardins de Tarpéia, do Vaticano com os monumentos do Quinhentismo e Seiscentismo a partir de San Pietro, Fontana di Trevi, Capitólio e tudo mais em fusão no pacto de séculos e séculos vindouros até o final dos tempos.

          Se fizesse por linhas a parceria do antigo e do novo, a primeira reta seguia do Qurinalle à Piazza del Popolo, que alí da cobertura mostrava-se como a linha renascentista, incluindo Fontana di Trevi e Piazza d’Espagna; a segunda, saindo do Campidoglio alcançava San Pietro, rompendo outra terceira do Coliseu pelo Palatino e, cruzando pela Piazza Venezzia, seguia o trajeto da Via Del Corso e adjacência.

          Imaginemos as variações geométricas. A linha que se vai até o cúpula de S. Pietro e depois os dois lados do triângulo, abrangendo a área do Coliseu até o verde da ViIla Borghese.

          Corta o Palatino, é bem próximo ao Campidoglio e vem até o sítio do Quirinale, mas não o toca. Vamos daquela varanda identificando a cidade clássica desde Tarpéia até os pontos onde as mãos de Miguel Ângelo, Bramante e outros renascentistas edificaram novo perfil.

          Luciano, o anfitrião, piloto internacional havido como um dos melhores da Itália, ajuda-nos a descrever o conteúdo do panorama em termos de experiência, pois o que vê das alturas dos vôos e dos passeios que se atualizam com as descobertas arqueológicas do passado.

          Despedimo-nos para arrumar as malas e seguir até a estação ferroviária. Florença nos aguardava, seguiríamos de trem para lá jantar e repousar.

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Published in: on novembro 22, 2008 at 2:42 pm  Comments (1)  

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  1. Jamais poderia supor que o Xenofonte Mercadante que dá nome ao Fórum de Carangola/MG onde eu frequentemente compareço para trabalhar como servidor da Justiça Eleitoral era o pai do autor de um livro indicado por Olavo de Carvalho que desde 2001 ou 2002 eu desejava ler (A Coerência das Incertezas). E foi com muita surpresa que, quando finalmente neste ano comprei o livro, me dei conta disto, e ainda de que Paulo Mercadate é autor de um livro sobre esta decadente cidade mineira: “Carangola: O Vale e o Rio.” É a coerência das incertezas, ou talvez coerência das coincidências. Agora descubro com muita alegria que o autor de um livro demolidor do determinismo histórico escreve em um blog, que este “barnabé pela insignificância de suas deliberações” (A Coerência das Incertezas: pag. 31)passará a ler mais amiúde.

    Vinícius de Oliveira.


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