A versatilidade de Sant’Angelo

Roma, 12.02.74, Terça-feira

          Nada mais natural do que Sant’Angelo seja hoje um museu. Não mais exibe o belo arquitetônico porque as mudanças e adaptações o virilizaram em um milênio, alterando-lhe a simplicidade compatível com o bucólico. Sobre o pedestal quadrado se punha um tambor de forma cilíndrica. Cobriam-lhe ciprestes que se mostravam como extenso parque ajardinado. Por fim, no centro, em forma de quadriga, a estátua do Imperador Adriano ou Hadriano.

          Havia adornos discretamente distribuídos. O terceiro dos novos imperadores, filho adotivo de Trajano, deve ter manifestado aos arquitetos a inspiração em túmulo de Augusto e apenas cento e cinqüenta anos os separavam.

          Simples e clássico a mostrar discretamente a forma em termos de Navona e não do Coliseu. Dir-se-í a sutileza helênica em pormenores alguns quase disfarçados. Porque era um clássico, renovador, protetor de sábios e artistas, instituidor do Édito Perpétuo, pelo qual se regeu o Império até Justiano.

          De modo que a primitiva destinação do Mausoléu traduzia ainda a lembrança de Roma humanística, necessária à sobrevivência face aos riscos que três séculos depois irromperiam com a virulência da migração dos povos.

          Após Trajano, Adriano se resolvera a reduzir a extensão do território pátrio. Assim perceberam alguns historiadores. Já outros césares o fizeram também, mas os anos passavam e os confrontos sucediam-se com crescente agressividade.

          Edward Gibbon, em seu levantamento do declínio e decadência do Império, é o mais sereno dos autores na análise da fase do esforço para novo florescimento, apontando Nerva, Trajano e Adriano e os dois antoninos seguintes, para o rumo de medidas que visavam a novas condições de recuperação.

          H.G.Wells acompanhou a rota de Gibbon, com mais severidade. Desenvolveu o tema, mas pouco falou sobre o ímpeto humanístico de Adriano. Roma teria apresentado um espetáculo de esplendor externo e de luxuosos refinamentos, mas por baixo de tão sólida apresentação exterior, nada mais havia do que crueldade, estupidez e estagnação.

          Mas aconteceu como no presente. Não só de rumos econômicos depende a civilização. O povo em descida, desiludido e aspirando a novos rumos, não sabe transferir objetivo algum.Urgia, acentuara ele, entusiasmo do povo e cabe ao estadista verdadeiro cravá-lo de esperança.

          De modo que ao escolher o local para a sua morada definitiva, ao aprovar o projeto, Adriano não considerou o ponto neural da segurança de Roma.Escapou-lhe a alternativa de construir de vez a Fortaleza e deixar para outro sítio o monumento a si e à sua família destinado.

          A descrição do primeiro quadro é mera suposição plástica, mas o espírito projeta-se do atual panorama. Digamos que se tornando Castelo, ele perderia o toque delicado a que visava e em seu bojo as duas Romas, isto é, o século de Augusto e a sucessão posterior que não deviam intrometer as cinzas de Cômodo e Caracala nos repousos eternos de Adriano, Antonino Pio, suas respectivas esposas, Marco Aurélio e Settimio Severo. Mas são vicissitudes que só se tornam visíveis do ponto de vista da interpretação simbólica.

          É preciso sentir que em cada fase há uma razão, e mais tarde, Sant’Angelo teria o papel adequado à posteridade, atribuído aos Papas da era devastada: os tirânicos canhões, peças defensivas que impedissem aos atacantes a tomada do Sepulcro.

          A Fortaleza sucedeu ao Monumento sóbrio, levando o aspecto bélico assemelhar-se às casernas defensivas, providência obedecida pelo Papa Júlio II, arrebatado, às vezes em demasia, mas vocação antes de guerreiro do que de religioso.

          Por fim, Leão X, filho de Lourenço, o Magnífico, companheiro de adolescência de Miguel Ângelo, já iniciaria a feição estetizante dos salões e as pinturas que influiriam para a maturidade do Renascentismo.

          Os chamados bárbaros aproximavam-se, Roma desenvolvia as suas defesas e a idéia de converter o Túmulo em Fortaleza adviera com a construção de muralhas. Reforços na estrutura tornaram-no sem a singularidade do monumento original. Vestiram-se de história da transição para a Idade Média. Até os tempos presentes e os que virão, quando o vemos da Ponte, sentimos o medo de seu aspecto de Coliseu e não da Piazza Navona, por exemplo.

          Exemplo do acontecido ocorreria durante o saque de Roma, realçando-se a resistência do Castelo e a salvação do Papa Clemente VII.

          A Renascença chegara e os sucessores de Alexandre VI, especialmente Leão X, deram começo as salas trabalhadas por Bramante, a renovação de Roma com as suas próprias pedras do passado.

          A vez de Prisão sobreveio, e figuras imortais sofreram naquelas celas, marcando a história com personagens políticas e intelectuais.Benvenuto Cellini, Giordano Bruno, Cagliostro, Silvio Pellico. Vê-las e percorrê-las é experiência que toca em nosso sentimento de modo a não haver em nossa percepção o peso da causa e a reação da personagem.

          Em verdade, os Papas lá fizeram suas moradas razão por que o acervo de arte é a lembrança sofisticada do primitivo Túmulo.

          O Século de Leão X converteria o Forte em Museu.

          Pinturas pré-renascentistas e figuras do próprio movimento cultural chamam a atenção sob todos os ângulos. Obras de Bramante, Sangallo e afrescos de Quércia,Van Dyck, Signorelli.

          Subimos a escada helicoidal para a visita mais demorada. Na longa sala de esculturas imperiais detivemo-nos diante de Adriano. Fiz-lhe a primeira pergunta de modo afirmativo, se o Império integrasse os supostos bárbaros do norte na cultura peninsular, talvez os romanos perdurassem alguns anos mais e tivessem provocado a Revolução Industrial com a já quase descoberta máquina a vapor.

          Pensado daquela forma, invocava o que mais abomino: a conjunção. Na perspectiva de nossa era, é tolice indagar daquele Imperador sábio e inteligente se o real pode ser apagado do quadro e olhei para a sua postura a fim de sentir que nem as mãos ele lavara como Pilatos diante do rumo feroz que tomava o Império.

          Era hora de partir. Pelo bater dos sinos só tivemos tempo para tomar um café. E assim o fizemos até voltar à Piazza Venezzia.

          Era tarde quando jantamos. Só então com Ana Elisa fiz o que sempre fazemos. Expomos as nossas dúvidas e procuramos inseri-las no tempo real do acontecimento. Porque Roma são várias e cada monumento, igreja, museu, palácio, obelisco, escultura, quadro, não se inserem no tempo relativo, ou seja, em seu próprio tempo, mas se projetam, tecendo-se no eterno do espaço-tempo.

          Minha companheira, Ana Elisa Mercadante, muitas vezes, interpreta o fato ou objeto de forma a incluir o nosso self, incorporando-nos na relação kantiana do sujeito-objeto. A cada persona o acréscimo de experiência na forma de considerar o tempo conosco tecido, modo de pensar que antes considero heideggeriano.

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Published in: on novembro 15, 2008 at 2:46 pm  Deixe um comentário  

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