Navona no labirinto do tempo

Roma, 11.02.1974, 2ª feira

          Saímos cedo para a jornada de séculosm, de Júlio César ao fim do último milênio.

          Suposto que somos peregrinos, não temos pressa em chegar ao que foi túmulo, fortaleza, castelo, morada de Papas, prisão e ora museu. Até Lungotevere  caminharíamos por estreitas vias em torno da Piazza Navona, vendo-a hoje, em sua terceira fase.

          Não foi possível, a Piazza e arredores nos tomaram o dia e saímos à noite para o jantar ainda com dúvidas e perguntas.

          Na era de Augusto, teve começo o projeto de arquitetura da Cidade Eterna, seguido de contribuições dos imperadores, inclusive Nero, antes de manifestada suas crises psicóticas.

          Findando com Domiziano; não deixaram os Antoninos de tocá-la e, por fim, na arena consagrada, no meado do século XVII, puseram-se os chafarizes magistrais.

          A particularidade dos sobrados que existem em torno, criou-se no óbvio do agravamento do declínio imperial , considerando o espaço em termos urbanísticos, o que torna a Piazza Navona como o labirinto que requer o mistério de encontrá-la e a angústia de deixá-la.  Refletindo sobre coisas imprevisíveis que a fizeram tão bela como a Fontana di Trevi, envolvemo-nos existencialmente no drama de conhecê-las.

          Não valem apenas os quadros a óleo, nem as aquarelas, nem o que os escritores realçam em sua existência.

          As criaturas são atravessadas pelo desejo de ali se instalarem em pardieiros profanos protegidos pela Igreja de Santa’Agnese in Agone. Ou talvez procurando distanciar-se do ponto de vista urbano, da violência dos espetáculos no Coliseu.

          A opção pela tranqüilidade aparece no título do trabalho de Sergio Cartocci em seu ensaio sobre Roma desaparecida, em razão das obras de restauração de l873 a 1883. O autor lamenta com saudosismo a circunstância do charme resultante ser heterogêneo, e o andar do tempo, como de um artista, juntou feições pagãs com cristãs, a simplicidade do povo com a burocracia das autoridades.

          Assim aconteceu com Verona e seus arredores que a protegem. Já era no tempo dos Césares, denominada Estádio de Domiziano, em bela forma geométrica e autonomia urbanística.

          Desde Julio César e Augusto até o Antonino acima citado foi-se aperfeiçoando aos poucos a longa e estreita área cultural sob forte influência grega. No final do século I d.C no Campo Marzio, ela destinava-se à espécie de estádio para esportes e programas literários.

          A inspiração certamente vinha para o confronto com o Coliseu, levando-se em conta objetivos nobres e úteis. Ao lado do Estádio, Domiziano ergueu um Odeão, auditório  voltado a espetáculos musicais e recitativos.

          Em sentido próprio de Jung, o inconsciente coletivo, bafejado pela elite humanística de Roma Imperial, deixou-se de calar quanto ao circo da brutalidade do Coliseu em seus espetáculo sádico-masoquistas de gladiadores contra adversários ou animais selvagens.

          Nos meados do século dezessete, Navona recebe as três belas esculturas que acrescentam à Praça o encanto e a graça que se devem a João Lourenço Bernini, pintor, escultor e arquiteto, criatura genial com obras por toda a cidade eterna.

          O que há de muito agradável para nós brasileiros e ítalo-brasilianos é a presença de sentimento extensivo ao Palazzo Pamphili, obra do arquiteto Rainaldi, em l650, ao lado da Igreja do Santo Coração de Maria, erguida no século doze.

          Hoje, Embaixada do Brasil, lá mostram-se afrescos de grande valor, motivo por que Hugo Gauthier,  mineiro da Mata, Embaixador do Brasil, teve a intuição da importância artística e histórica do palazzo, e abordando centenas de locatários, propôs a cada um a aquisição dos cômodos que escondiam as paredes originais.

          Após longo período de negociações e enfim todas prometidas para cessão, procurou na França os proprietários do palácio, formalizando a compra definitiva pelo Governo Brasileiro, conseguindo o negócio a preço razoável.

          Os inquilinos honraram a obrigação, após o pagamento pela posse, permitindo-se todo o imóvel ser restaurado, após livrarem-se as paredes internas dos cômodos a esconderem pinturas dos últimos artistas do movimento renascentista.

          Eis a razão por que Navona e seus arredores combinam-se nas cores e no mistério e nos prende ordenadamente ao esforço de decifrar o seu papel humanístico na Cidade Eterna.

          Vejamos, por exemplo, as aquarelas de Ettore Roesler Franz, que viveu no século dezessete, expostas no Museu de Roma, dando-nos o pintor, desde os vestígios romanos de certos locais quanto as margens floridas do Tevere.

          Também desfilam na galeria as vielas como Clocher, Porta Angélica, Penitenciários, via Giulia, Cappelari, Capocciuto, onde um gueto se formara.

          Pouca importa o juízo que alguns acadêmicos fizeram  das aquarelas de Roesler por ser o seu estilo voltado  ao rigoroso formalismo da pintura clássica.

           Em sua obra reconhecemos o bairro de hoje, que protege Navona e que insiste em nos enganar na busca das ruas e dos antiquários.

           Por todo aquele espaço passamos da manhã até o meio dia, almoçamos no Papa Giovanni. Voltamos a percorrer os arredores, nos pontos que me faziam lembrar longas conversas com meu pai. Desta vez, porém, sentíamos a ação do tempo e o esforço de encontrar a saída do espanto.

          Os sobrados restaurados a partir do século dezenove estenderam o labirinto ao casario de ruelas centenárias. Vinham eles se desgastando por três séculos de modo que, por simples exame de gravura de Nolli existente na Calcografia Nacional de Roma, vê-se imenso casario desordenado a circundar Navona com misteriosas esquinas e pardieiros a confundirem-se na improvisação.

          Ponto final, porque não tivera até então ímpeto de dar início ao merecido diálogo. Permiti que Ana Elisa contivesse todo o fascínio que dali se espalhava até a Ponte Sant’Angelo.

          Já era tarde, mais de dezoito horas. Adiaríamos a visita. E caminhamos pela via della Conciliazione a fim alcançar Victorio Emanuelle porque os arredores da Piazza Navona bloquearam-nos a saída, mantendo-nos perdidos ante a idéia do Labirinto.

          Tomamos o táxi, e próximo ao Hotel estava o Abruzzi em seu silêncio sepulcral.

          A Renascença recriara Roma a partir das escadarias, a musa de Miguel Ângelo do sítio onde morava, separava aquele mundo novo das ruínas mortas desde a Coluna Trajano até o Coliseu, deste ao Palatino. Na Via Del Corso sente-se o nascer da nova Roma dos papas que sucederam os Borgias.

          Fora preciso que os florentinos de Lourenço, o Magnífico, dissesse a seus filhos que Roma, fosse iniciada outra vez do mesmo ponto de sua afirmação histórica e tal oportunidade devia ter começo no Campidoglio, com Marco Aurélio em seu cavalo, e de costas não vendo Tarpéia como nos tempos heróicos.

          De modo que saímos da Fontana para a Piazza d’Espagna até a possível travessia a Navona. Era o trajeto do retorno ao belo pela via Del Corso onde os palácios da nova estirpe dos romanos se levantaram também seguindo para a Piazza del Popolo.  Tomei consciência naquela manhã de que a Renascença desafiara a Idade Média, deixara entregue aos Papas furibundos a ética desgastada do passado tradicionalista em pintura sem perspectiva, em arquitetura decadente a repetir os romanos em seu trajeto para a absoluta decadência.

          Há um divisor de águas em Roma que separa as esferas do bem e do belo.  Convivem-se, na verdade, mas é diverso o sentimento que transpira de cada uma; Roma republicana lentamente caminhara para o fim, o período imperial ainda lutou para salvar-se, mas com o cristianismo Roma do Renascimento estende novos limites para o belo.

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