Pietà, Lucrezia e Moise’

Roma, 10.02.1974, Domingo

   

          Partimos cedo para San Pietro. Descansados da travessia do Atlântico, vindos de dois pontos que não se cruzaram.O nosso quarto no fundo do palazzo e o silêncio nos fez acordar dispostos a visitar a Basílica e Castel Sant’Angelo, escolhendo o almoço em restaurantes da Piazza Sforza Cesarini, no histórico Palazzo dei Borgia, onde residiu a Lucrezia Borgia, quando seu olhos azul-esverdeados ou verde-azulados fascinavam Roma do Renascimento.

          Hoje, o cortile é espaço como se fosse jardim, e velhos sobrados compõem a construção original, aquando da era do Papa Alexandre VI. Por certo, a praça atual fora também o acesso aos cômodos dos serviçais e cavalariças. Conhecera-o também há muito, lembrando-me de minha inicial vacilação quanto ao restaurante que escolheria. 

          Dirigimo-nos de táxi até as colunas que dão para a enorme Praça onde todas as etnias se postam para receber a benção do Papa em sua janela do Vaticano. Subimos os degraus da Basílica com o estado de espírito do colossal diverso do que ontem havíamos visitado.

          Recordava-me do que certa vez dissera a Hannibal que para fugir aos afazeres, nada mais dignificante a forasteiro que o refúgio entre as colunas de um templo.

          Desse modo, pela porta central, encontramos aquele colosso em círculo, dividido em duas marquises e no interior do templo rumamos para a direita onde se achava Pietà de Miguel Ângelo: Cristo já crucificado nos braços da mãe.

          Pietà é mármore transfigurado em sentimento, não apenas o religioso, mas sedimentado em nosso espírito. O corpo de Jesus nos braços de Maria, em bloco de Carrara, por Buonarroti carinhosamente chamado de pietra serena.

          Aos olhos da Virgem, ele realiza na forma, enquanto filho perdido para sempre, a unidade da vida e da morte em sua condição de eternidade. A mulher, que concebeu a criatura pode ser mãe, esposa e irmã. Ele, frágil em seu colo, é o filho que se sacrificou pela missão infinita.

          Não há vínculo mais inusitado do que esse. A simbólica virgem é a mãe, mas a figura perdera-se na trajetória do Reformador. Como sombra que se deslocava por todo o futuro até o colapso, um dia, do universo inteiro.

          No tempo, após a crucifixão, a tragédia. José de Arimatéia a procurar Pilatos e pedir o corpo, as pessoas afastavam-se, os discípulos fugiram, sua esperança de substituto, Pedro, o mais obediente, negara a conhecê-lo. A mãe, em condição de adolescente, a trazê-lo em meio as nuvens de suas vestes. Ele, no colo de quem o gerou, virtualmente derrotado, mas vitorioso no propósito da vida.

          Miguel Ângelo mal começara a produzir. Sentia que o cristianismo era nascente de um rio eterno. Então, procurou pelas cercanias do Vaticano, no bairro dos judeus discriminados, as fisionomias pretendidas. Um rabino o ajudou na incumbência de encontrar um operário com a estatura para Jesus. O anônimo português não teria o seu nome na história, menos ainda a jovem que não o conhecera, mas que se imortalizou como a negação da fragilidade.

          No último ano do século XV, tempo em que os navegadores ibéricos avistavam as nossas praias, Roma, a velha capital do mundo parecia desmoronar-se com os saques e a corrupção atrevida.

          Pietà, porém, nascia. A forma era o meio de perpetuar a tragédia. As vestes compunham a relação entre o homem e a presença da mulher vencendo o sofrimento. O mármore é a luz de todos os gestos. As vestes fixam a forma genial da escultura.

          Minha companheira seguiu-me pela nave direita, atingimos o altar mor e voltamos pelo outro lado, de nicho em nicho, de tela em tela, apenas preso àquele recebimento indefinido, que sacudia duas almas agnósticas.

          O belo da forma, a estética da obra faziam desaparecer todas as razões do desconhecido.

          De feito, Pietà mudara o nosso itinerário. Não iríamos mais a pé do almoço na Piazza Sforza ate Sant’Angelo, como no projeto da manhã.

          Dali, de táxi até San Pietro in Vincoli, visitaríamos Moisés, de Miguel Ângelo e da Igreja regressaríamos ao Hotel pela via Cavour ou pela Piazza Del Grillo em estreita viela ainda de construções romanas.

          Então nosso caminho de retorno seria alterado por vontade de Ana Elisa e pelo desejo de vê-lo.

          A praça Sforza Cesarini seria o elo entre as duas peças de Miguel Ângelo. E lá vivera a adolescente Lucrezia Borgia, filha do Cardeal Rodrigo Borgia, futuro Papa Alexandre VI. Aquele espaço era onde a jovem vivera com seu primeiro marido, Giovanni Sforza, casamento posteriormente desfeito pela Madre Igreja.

          As intrigas de seu pai e de que participava o irmão Cesare Borgia, serviam Lucrezia de instrumento para os esquemas políticos. Ela, frágil e submissa, deixava-se conduzir e tais torpezas por meio de casamentos, que se desfaziam por posteriores anulações ou assassínio do marido.

          Com 24 anos, ao primeiro matrimônio, fora coagida a outro, tendo, então, o seu marido, Duque de Ferrara, tentado tirá-la dos abjetos conchavos de natureza política.

          Lucrezia, a então Duquesa de Ferrara, de olhos verde-azulados ou azul-esverdiados em função do vestuário, via-se difamada, sem forma de reagir à coação do Vaticano. Tornar-se-ía incestuosa e pela sociedade de seu tempo, que não lhe perdoava a condição de refém.

          Culta e admirada pelos artistas da época, as manobras do pai com os casamentos que se desfaziam, fizeram nascer a convicção de sua conivência, atribuindo-lhe a condição de promíscua, quando, em verdade, tanto seu pai, o Papa, quanto seu irmão, dominavam-na com ameaça de morte de seus filhos e  de si  própria.
 
          Pobre vítima do tempo de declínio da Idade Média. Mas deixemo-la aguardar o injusto julgamento da posteridade. A História é mais injusta do que verdadeira, mas para os milhões de anos, nada importa se verdadeiro ou falso o julgamento dos contemporâneos.

          Atravessando San Pietro in San Pietro in Vincoli pela nave central, estávamos diante de Moisés, e sós com aquela figura de ancião poderoso e colossal.

          A estátua do Patriarca foi concebida pelo instante em que o escultor a concluiu. Ligar a sua postura à circunstância do bezerro de ouro é comum nos ensaios clássicos.A maioria dos analistas assim o fez. Pois, ao conceber o trabalho, Buonarroti escolheu a vacilação que precedeu a intensidade de seu protesto. Depois, por que fugiria ao texto do Evangelho?

          Em seguida, Moisés teria de levantar-se a fim destruir os mandamentos da lei e lançar sobre os pecadores o ódio e a repressão.

          O episódio introduz o primado do Evangelho no enigma da obra. Que hora aquela em que o gênio quis perpetuar no mármore? Onde a interpretação de ódio tão comentada?

          Não convence a versão de que ele esteja pronto para a fúria e suas providências. Sim, porque o escultor não iria imobilizá-lo na dúvida.

          Descendo do Monte Sinai, o chefe religioso levara consigo as tábuas ao ouvir o vozerío no acampamento dos hebreus. Aproximou-se e viu o bezerro de ouro e as danças que o consagravam. Lançou, então, por terra, as tabuas e as quebrou. Sem demora, queimou as imagens, atirando as suas cinzas nas águas.

          Moisés não estava em repouso quando teve conhecimento da apostasia.

          Cabe aqui o registro de Freud: possuído da cólera, quis levantar-se, esquecendo-se do decálogo.Conteve-se e continuou sentado, cheio de dor e desprezo.

          À indagação, pois, seria se é o trabalho uma obra de expressão alheia ao tempo ou apenas representasse o herói em momento determinado. Freud também não admitiu uma imagem histórica, porém um tipo de caráter, um misto do Papa Júlio II e Savonarola.

          Mas há outro episódio. Trata-se do seguinte ao arrependimento dos filhos de Israel.

          Ordenou Jeová que duas novas peças fossem cortadas e outra vez convocou Moisés ao Monte Sinai. Por quarenta dias, o Patriarca ali permaneceu e regressou ao acampamento.

          A missão estava cumprida e a circunstância justifica a homenagem ao Papa citado, cujo temperamento muito fizera sofrer o artista.

          As palavras finais de Moisés a Jeová, afáveis e carinhosas, deviam também constituir a mensagem que Miguel Ângelo pretendia deixar a Júlio II, já falecido, que fora punitivo e ao mesmo tempo benigno.

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