A Fontana di Trevi e o Colosseo

Roma, 09.02.74, Sábado

          Encontro Guido Ludovici na Portaria e dado o abraço à napolitana, desce Ana Elisa que me aguardava desde a manhã. Era uma hora da tarde e pouco depois da troca de roupa, partimos acima pela via 4 Novembre.

          Andamos devagar, o que me refrescava as lembranças, contando minha companheira os seus dias em Nova Iorque e os exames que nada indicaram de sério quanto à saúde.

          Fora um susto que nos mantinha preocupados, mas que ora dissipava. Do que seria necessário apenas, ligeira dieta por algum tempo.

          Ao deixar o Hotel pela esquerda, dirigímo-nos para o Quirinalle e seguimos pela calçada, contornando a praça em descida suave da colina.

          Rua comum, estreita e de prédios centenários, estendia-se curta em ângulo obtuso, formado pela via Tre Cavalli a terminar no ponto da escadaria em cujo páteo do Palazzo Colonna, em 1560, imperava com seu misticismo a Marquesa de Pescara, virgem e bela, guardada como tesouro pelo Vaticano.

          Sobre si mesma já toquei nessas páginas do Diário quando fazia conjecturas sobre o seu primeiro encontro com Miguel Ângelo. Creio que só Arthur Graf Gobineau tenha abordado o episódio com tanto cuidado em seu trabalho sobre a Renascença.

          Andamos três ou quatro quarteirões e apareceu o chafariz que Miguel Ângelo povoou e iluminou em seu conjunto de mármores belos e brancos, por ele qualificados como pedras serenas, que obnubilam as pessoas diante dos gigantes e da água corrente que desce límpida, transparente a permitir verem-se no fundo as moedas lançadas pelos visitantes na esperança de retorno.

          Ana Elisa também já ali viera com o nosso filho Paulo Antônio há um lustro.

          Almoçamos próximo na rota que leva a Piazza d’Espagna e após atravessar a via Del Corso alcançamos o túmulo de Augusto, agora a nossa frente, vindo-me à memória o jovem Octavio e seu papel discreto na transição para o império.

          Tipo estranho, Octávio, que naturalmente só se revelou político e estadista após a morte de Cesar. Como certa vez nos disse Elza Morante, no Ambasciata d’Abruzzo, em Cairolli: o adolescente antes voltado para as extravagâncias e infâmias, e depois, o estadista soberbo.

          Confesso que não compreendera o modo de Plutarco exprimir-se considerando, todavia, que atacar Octávio seria desconfortável para espírito tão lúcido. H.G. Wells foi mais feliz, observando, em sua personalidade, razão de não definir-se, nem aceitar com modéstia a divindade, enfim, nenhum herói romântico, e sim, um homem.

          Tantas vezes vira a Fontana di Trevi, mas em cada estada novo sentimento em mim nascia como fosse a primeira vez.

          Dessa vez, entendi que começara o culto de quatro séculos, que seria primeiramente sentido no percurso simples de Quirinalle a Roma do Renascimento.

          Duas vezes, acrescentou Ana Elisa: a chegada e a despedida, quando lançaríamos as moedas da esperança no modo proustiano do temps retrouveé. Hannibal, certa feita, descreveu-me em jargão de engenheiro o que fizera Miguel Ângelo para trazer aquelas labaredas do rio em pleno centro histórico da civita vecchia.

          Ao passar, já quando o crepúsculo se manifestava, chegamos ao Colosseo, cuja construção nos anos setenta do século de Augusto e do nascimento de Cristo, inaugurado pelo Imperador Tito, é marco do declínio do Império.

          O Anfiteatro Flávio, como se chamava, era tão soberbo, que fazia orgulhar-se a engenharia romana, mas havia uma séria previsão lançada pelo Venerável Beda, doutor da Igreja.

          Edward Gibbon não se esqueceu de incluí-la fatidicamente em contexto fenomenológico, considerando que nascera no período final dos césares, durante o império de Domiziano.

          Previra o futuro santo in Excerptis “Tanto quanto o Coliseu existir, Roma permanecerá; quando o Coliseu cair, Roma cairá, quando Roma cair, o mundo cairá.”

          Durante o período dos Antoninos, funcionou como pão e circo para gáudio dos pobres diabos, dando-lhes o alívio para a pobreza amenizada pelo assistencialismo, ao mesmo tempo conferindo ao patriciado o prazer do sadismo e à plebe o show dos pleitos eleitorais.

          O tempo de Trajano e Adriano fora a conhecida melhora clínica do moribundo, e se mostrariam, depois: o caos, as epidemias, a corrupção. Marco Aurélio revelou-se o energúmeno, merecedor da pena solene da posteridade em razão da sua hipócrita filosofia estóica.

          Entramos pela porta central, de frente ao Palatino. Era homenagem ao tempo das vitórias.

          Em verdade, o Coliseu, raiz grega, pelo vocábulo mesmo, é monumento colossal, cujas dimensões foram voltadas para os poderes super-normais exibidos, quando o vemos em seus pisos. A inauguração foi grandiosa, durante cem dias de festa e gladiadores mortos chegaram a dois mil.

          Trata-se de herança grega os atavios como se ornamentam os andares em estilo dórico, jônico, sendo que o quarto piso fora decorado por pilastras com capitéis corínticos.

          O gosto e conseqüente fixação na cultura grega, deixa-se atravessar pelas sutilezas de Atenas e rigidês de Esparta no conjunto de arquétipos estetizantes e draconianos.

          Porém tudo um dia acabou com as migrações dos chamados bárbaros, restando o que víamos em milênio e meio de estupor.

          Tudo talvez se devesse à cultura pretérita à elamita, bem como à extensão de seus caracteres às sumerianas, depois aos egípcios e, por fim, aos gregos, que se estenderam por monumentos dolmênicos, desde o Atlântico, seguindo a rota também à Grã-Bretanha.

          O avanço pelo sul europeu, de Portugal à Grécia pelo sul francês e siciliano. Pois ainda exibem-se em suas formas.

          Meu saudoso amigo Antônio Quadros dissecou em seu trabalho clássico Portugal, Razão e Mistério, os pormenores de longas pesquisas sobre a estranha história da versão de Platão sobre a Atlântida.

          Há, porém, com relação ao Coliseu a ausência de signos dolmênicos do que ficou, a não ser, em tese, os colossos da cultura grega e egípcia no tocante ao grandioso, ao colossal, como as pirânides, a esfinge e mesmo o que encontramos no período heróico da guerra de Tróia.

          Nas sete maravilhas da Antiguidade, distinguem-se os colossos de Rodes, no Mediterrâneo, o Mausoléu de Halicarnassus, na Ilha de Rodes, a Esfinge de Gizé, todos trazendo a marca do colossal, a própria Esfinge de Gizè, mas apenas nos fazem lembrar o volume, o tamanho extraordinário, mas não se confundem com os fins a que se destinava o Matadouro do Coliseu.

          Os romanos necessitavam daquele Poder, mas foi tarde e visava este só aos valores lúdicos, aterrorizantes, sádicos e cruéis, enfim, o colapso final do império.

          Dos quatro planos eu segui Ana Elisa até o segundo, transitando pelo primeiro, de natureza jônica, por um espaço de cem metros mais ou menos.

          Não há dúvida de que essa compulsão de assustar todos para manter o poderio, mesclado à violência e atendendo o instinto, tanto da nobreza quanto da canalha, vinda do passado, apenas fere Roma das leis duras, porém constitutivas de um corpo de sínteses superiores e próximas à perfeição lingüística do Latim.

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Published in: on outubro 25, 2008 at 3:05 pm  Deixe um comentário  
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